Oralidade mantém viva a memória e os saberes afro-brasileiros

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A escritora Mariana Reis e o sacerdote Lucas Pinheiro participaram, no último domingo, 9 de agosto, da roda de conversa “Transmissão de Saberes Afro-Brasileiros”, realizada durante a programação do Fliv – Foto: Leidiane Caroline

Roda de conversa com Lucas Pinheiro, mediada por Mariana Reis, abordou a transmissão de saberes entre gerações, o papel dos terreiros e o enfrentamento ao racismo religioso.


@caroline_leidiane

A oralidade como instrumento de preservação da memória e transmissão de conhecimentos culturais esteve no eixo central da roda de conversa realizada no último domingo, 9 de agosto, no Cine Fliv, como parte da programação da 16ª edição do Festival Literário de Votuporanga (Fliv).

O encontro reuniu a escritora Mariana Reis, que conduziu a mediação, e o sacerdote Lucas Pinheiro em uma reflexão sobre cultura afro-brasileira, ancestralidade e a essencial relevância dos povos tradicionais de terreiro na construção da identidade nacional.

Durante o encontro, a transmissão de saberes entre gerações foi apresentada como uma forma de manter vivas histórias e experiências que fazem parte da formação do Brasil. A presença das crianças nos espaços religiosos, segundo o sacerdote, é fundamental para garantir essa continuidade.

“As crianças são o futuro do nosso axé”, destacou Pinheiro, ao defender que o contato desde cedo com a própria tradição contribui para que elas conheçam suas raízes e estejam preparadas para enfrentar e combater o racismo e a intolerância religiosa.

O debate chamou atenção para os estereótipos que cercam Umbanda e Candomblé. Para os participantes, a desinformação contribui para a perseguição às religiões de matriz africana e, por isso, a necessidade de falar sobre suas histórias e práticas é determinante.

De acordo com Lucas, uma dimensão menos discutida do racismo religioso é a existência de preconceitos dentro das próprias religiões de matriz africana. Ao abordar as diferenças históricas entre Umbanda e Candomblé, destacou que a primeira teve sua organização institucional associada a Zélio Fernandino de Moraes, enquanto o Candomblé preserva uma ligação mais direta com tradições africanas trazidas e recriadas no Brasil.

Essa distinção, observa ele, não deve servir para estabelecer uma hierarquia entre as religiões nem para reproduzir a ideia de que uma seria “do bem” e a outra, “do mal”, associando-as, respectivamente, a uma origem branca ou negra.

“Temos que lembrar que o preconceito vem justamente da origem dessas religiões. Elas surgem do povo preto, de um povo marginalizado e, consequentemente, a religião dessas pessoas também é alvo de preconceito. É uma escada: uma coisa vai levando à outra”, discorre Mariana.

Dados do Disque 100 mostram que 2024 terminou com 3.853 violações de liberdade religiosa registradas no país, mais de 80% acima do ano anterior. Umbanda e Candomblé estiveram entre as tradições mais atingidas.

Os números do racismo religioso

A dimensão da questão aparece na pesquisa “Respeite o Meu Terreiro” de 2025, realizada com 511 terreiros de diferentes regiões do país. O levantamento aponta que 80% dos participantes sofreram racismo religioso e que 74% relataram ameaças ou destruição de casas sagradas.

É nesse contexto que a preservação da memória ganha dimensão de resistência. Durante a mesa, os participantes ressaltaram que os terreiros mantêm conhecimentos transmitidos de geração em geração e preservam memórias de povos africanos, indígenas e de outros grupos que contribuíram para a formação brasileira.

“É importante preservar a cultura, preservar a história, de onde surgiu, o motivo pelo qual surgiu”, salientou Mariana.

Ao aproximar cultura, educação e espiritualidade, o bate papo mostrou que contar, ensinar e vivenciar essas histórias também são formas de preservar memórias, evitar seu apagamento e ampliar o conhecimento sobre a diversidade religiosa e a ancestralidade que fazem parte da multiplicidade do povo brasileiro.