
A experiência de quem foi beneficiado por políticas públicas, a defesa da democracia e o uso de indicadores oficiais deram forma a um encontro que extrapolou a pré-campanha eleitoral.
@caroline_leidiane
Na política, quase sempre os números aparecem como consequência dos discursos. Na noite da última quinta-feira, 16 de julho, em Votuporanga, ocorreu o inverso. Antes de pedir votos — o que ainda não poderia fazer por se tratar de uma pré-campanha —, Fernando Haddad decidiu construir sua argumentação a partir de estatísticas.
Durante cerca de 20 minutos, o pré-candidato do PT ao Governo de São Paulo recorreu a indicadores de alfabetização, saneamento, segurança pública, crescimento econômico e soberania financeira. Segundo ele, os dados revelam um descompasso entre a imagem projetada pelo atual governo paulista e os resultados apontados por indicadores oficiais.
A estratégia deu o tom da plenária realizada no Sindicato dos Moveleiros de Votuporanga, que reuniu lideranças regionais e militantes para discutir os cenários eleitorais paulista e nacional.
Embora os nomes de Marina Silva, pré-candidata ao Senado, e Márcio França, pré-candidato a vice-governador de São Paulo, figurassem no material de divulgação do evento, ambos não participaram da agenda em Votuporanga após cumprirem compromissos em outras cidades da região. Coube a Simone Tebet, pré-candidata ao Senado, dividir o palco com Fernando Haddad e conduzir a defesa institucional da chapa.
A noite, entretanto, começou longe das estatísticas. Quem abriu o evento foi o presidente do diretório municipal do PT, Guilherme Beraramo Gasques. Em vez de recorrer ao discurso tradicional de militância, preferiu contar a própria história.
Filho da escola pública, lembrou que sonhava cursar Engenharia da Computação, mas a realidade financeira tornava impossível pagar uma faculdade particular. A aprovação em universidades públicas não resolveu o problema, já que estudar longe da família também exigia recursos que não possuía.
Foi então que surgiu o Programa Universidade para Todos (ProUni). “Graças ao ProUni, pude cursar os cinco anos da minha graduação”, afirmou, ao relacionar sua trajetória pessoal às políticas educacionais implementadas pelos governos petistas.
Para ele, a maior transformação promovida pelo Estado ocorre quando um jovem consegue romper barreiras sociais por meio da educação. A narrativa pessoal antecipou um dos eixos centrais da plenária.
Antes mesmo que Simone Tebet defendesse a democracia e Fernando Haddad apresentasse uma sequência de indicadores para criticar a atual gestão estadual, Guilherme traduziu, em uma experiência concreta, o tema central do encontro.

Democracia no centro da disputa
Se Guilherme levou o debate para o terreno das experiências individuais, Simone Tebet escolheu ampliar a escala. Ao iniciar sua fala, disse acreditar que a eleição de 2026 poderá ser ainda mais crucial do que a de 2022.
“Eu imaginava que a eleição de 2022 seria a mais importante da história recente do Brasil, mas acredito que esta será ainda mais decisiva. Estamos diante de um divisor de águas que definirá o país que teremos nos próximos anos”, declarou.
A preocupação da pré-candidata não se concentrou na disputa pelo Palácio dos Bandeirantes. O foco esteve no Congresso Nacional. Segundo Tebet, o crescimento da extrema direita pode produzir alterações constitucionais capazes de atingir direitos individuais, sociais e trabalhistas.
“É muito importante eleger o presidente da República, mas também escolher bons representantes para a Câmara e o Senado. O extremismo tem um projeto de poder muito perigoso e está próximo de conseguir votos suficientes para alterar a Constituição. Se isso acontecer, direitos individuais, coletivos, sociais e trabalhistas poderão sofrer retrocessos inimagináveis. Não se trata apenas de ampliar o número de ministros do Supremo ou de controlar o Judiciário, mas de rediscutir conquistas civilizatórias que levamos décadas para construir. Falo especialmente dos direitos das minorias e das mulheres. Existe uma parcela dessa extrema direita que é racista, preconceituosa, xenófoba e misógina. Estamos falando de possíveis retrocessos nos direitos das mulheres. Há quem defenda ideias semelhantes às da extrema direita norte-americana, segundo as quais a mulher não deveria trabalhar fora de casa nem votar”, ressaltou.
Em outro momento, ela estabeleceu um contraste entre as duas chapas. Disse que, enquanto a adversária é composta apenas por homens, a coligação formada por Fernando Haddad, Márcio França, Marina Silva e ela representava, segundo sua avaliação, maior equilíbrio de gênero e de experiências políticas.
Os números entram no debate
Ao se levantar e dirigir-se ao público, Fernando Haddad deixou em segundo plano a disputa política propriamente dita. Sua exposição foi construída a partir de diferentes áreas da administração pública, nas quais confrontou promessas da gestão de Tarcísio de Freitas (Republicanos) com indicadores oficiais.
A educação ocupou lugar central na argumentação. Haddad destacou o desempenho de São Paulo no Indicador Criança Alfabetizada, divulgado pelo Ministério da Educação (MEC). Os dados mais recentes mostram que 61% das crianças paulistas estavam alfabetizadas ao final do 2º ano do ensino fundamental em 2025. O percentual ficou abaixo da média nacional, de 66%, colocando o Estado na 17ª posição entre as unidades da federação.

Embora São Paulo tenha avançado em relação ao levantamento anterior e atingido a meta prevista para o período, o resultado foi utilizado pelo petista para questionar a política educacional paulista.
Entre os presentes, professores manifestaram concordância em diferentes momentos da exposição, especialmente quando Haddad criticou as mudanças implementadas na rede estadual. Nos últimos anos, sindicatos e entidades representativas do magistério têm contestado medidas como a ampliação do uso de plataformas digitais, alterações curriculares e sistemas de avaliação por desempenho, apontando falta de diálogo com a categoria.
A desestatização da Sabesp foi outro eixo do discurso. O pré-candidato afirmou que a prometida redução das tarifas de água não se concretizou e que a qualidade dos serviços piorou após a privatização da companhia.
Em janeiro deste ano entrou em vigor o primeiro reajuste tarifário desde a conclusão do processo: aumento de 6,11%, autorizado pela Agência Reguladora de Serviços Públicos do Estado de São Paulo (Arsesp). Segundo a agência, o índice corresponde à reposição da inflação acumulada entre julho de 2024 e outubro de 2025. Já o governo paulista afirma que, mesmo após o reajuste, a tarifa permanece inferior à que seria aplicada caso a empresa continuasse estatal.
Na segurança pública, o petista voltou as críticas à política de segurança do governo estadual. Entre os temas abordados, mencionou o efetivo das polícias e afirmou que os índices de esclarecimento de homicídios diminuíram. A Secretaria da Segurança Pública divulga regularmente estatísticas de criminalidade, mas não apresenta, em seus boletins periódicos, uma taxa oficial de esclarecimento desses crimes.
As contas públicas também integraram a exposição. O ex-ministro afirmou que São Paulo encerrou o exercício de 2025 com déficit bilionário mesmo após receber medidas de apoio da União, como a renegociação das dívidas estaduais e a ampliação de financiamentos do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).
Em outro momento, Haddad contestou o que classificou como uma tentativa de interferência de representantes dos Estados Unidos em assuntos internos do Brasil. Em tom de indignação, afirmou ser inadmissível que autoridades estrangeiras pretendam influenciar decisões que cabem exclusivamente ao país, citando como exemplo declarações recentes envolvendo o Pix.
Segundo ele, questões dessa natureza devem ser resolvidas pelas instituições brasileiras, sem ingerência externa, em defesa da soberania nacional.
Na parte final da exposição, o pré-candidato deixou os indicadores em segundo plano para refletir sobre a circulação das informações no debate público. De acordo com ele, dados oficiais acabam chegando à população de forma fragmentada, o que dificulta a compreensão panorâmica da realidade.
“O que eu quero dizer é o seguinte: tudo o que eu falei aqui pode ser conferido em dados oficiais. O problema é que essas informações aparecem de forma fragmentada. Sai uma notícia aqui, outra ali, em veículos diferentes. Se a pessoa não é assinante de todos os jornais e não acompanha todos os sites, ela não consegue enxergar o quadro completo. Acaba recebendo as informações pelo WhatsApp e, muitas vezes, acredita mais no que chega por lá do que no trabalho do jornalismo”, destacou.
A reflexão lançada por Haddad dialoga com um desafio que ultrapassa a disputa eleitoral. Diante da circulação fragmentada de informações — uma manchete, um vídeo, uma publicação nas redes sociais —, o acesso aos dados públicos, por si só, não garante compreensão.
É justamente nesse espaço que o fazer jornalístico se torna indispensável. Ao recompor o contexto e conectar informações que circulam de forma dispersa, amplia a compreensão dos acontecimentos e incentiva o debate público.
Nessa mediação entre os fatos e a sociedade reside uma das principais contribuições de prestação de serviço da imprensa para a democracia do país. Em tempos de polarização, essa responsabilidade não é simplificar a realidade, mas revelar a plena complexidade do panorama.




