Narrativas enquadradas

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Jefferson Martinelli mantém uma relação de décadas com os quadrinhos - Foto: arquivo pessoal 

No Dia Nacional das Histórias em Quadrinhos, o colecionador votuporanguense Jefferson Martinelli fala sobre memória, linguagem e um acervo estimado entre 15 e 20 mil exemplares.


@caroline_leidiane

Entre desenhos enquadrados, fixados graficamente e atravessados por balões de diálogo estilizados, pulsa a imaginação criativa: sons sugeridos, imagens que continuam em movimento para além do recorte, cheiros e sabores que não estão ali, mas se impõem à leitura. Tudo isso em contraste com os estímulos audiovisuais excessivos, que excitam sem qualquer crivo inventivo e frequentemente atropelam a experiência narrativa. As histórias em quadrinhos pedem ritmo, pausa e participação integral do leitor.

Celebrado hoje (30), o Dia Nacional das Histórias em Quadrinhos acende essa linguagem como patrimônio cultural, que supera o entretenimento e envolve todas as idades. É uma forma sofisticada de expressão artística, memória histórica, reflexão sociopolítica e identitária, além de potência econômica.

Sob essa perspectiva, a trajetória do colecionador votuporanguense Jefferson Martinelli se inscreve como caminho possível para compreender a permanência e a vitalidade das HQs.

Da pedra ao papel

A narrativa por imagens em sequência antecede o próprio conceito moderno de arte. Registros rupestres, hieróglifos egípcios e sistemas visuais de civilizações pré-colombianas como Maias, Astecas e Incas, já organizavam ações e acontecimentos em ordem narrativa. No final do século XIX, essa lógica se consolida no formato que hoje é reconhecida como histórias em quadrinhos.

No cenário internacional, a tirinha “The Yellow Kid”, criada em 1895 pelo autor e ilustrador norte-americano Richard Felton Outcault e publicada nos jornais de Nova York, marca o início da história em quadrinhos moderna.

Marco dos quadrinhos no Brasil: em 30 de janeiro de 1869, o desenhista ítalo-brasileiro Angelo Agostini publica ‘As Aventuras de Nhô Quim’, no jornal Vida Fluminense – Imagem: Reprodução

Já no Brasil, o ponto de partida é ainda anterior: em 30 de janeiro de 1869, o desenhista ítalo-brasileiro Angelo Agostini cria “As Aventuras de Nhô Quim ou Impressões de Uma Viagem à Corte,” para o jornal Vida Fluminense. A escolha da data que celebra o Dia Nacional das Histórias em Quadrinhos está diretamente ligada a esse marco fundador da produção nacional. 

Ao longo do século XX, o quadrinho se expande, ganha escala industrial e passa a dialogar com outros campos culturais. Personagens como Popeye, Mickey, Pato Donald, Superman e Batman atravessam gerações e ajudam a consolidar a HQ como linguagem de massa, capaz de refletir contextos históricos, dilemas sociais e transformações culturais.

Na cena nacional, esse processo encontra um de seus pilares na “Turma da Mônica”, criada por Mauricio de Sousa a partir de tirinhas publicadas em jornais no fim dos anos 1950. Inicialmente centrada em personagens como Bidu e Franjinha, a série ganha identidade definitiva entre 1960 e 1963, com a criação de Mônica e Cebolinha, tornando-se um dos mais longevos e influentes universos dos quadrinhos brasileiros.

Arte autônoma

Servidor público, publicitário e professor eventual no ensino técnico, Jefferson Martinelli mantém uma relação de décadas com os quadrinhos. Para ele, o sentimento de celebração ultrapassa a nostalgia, mesmo neste momento de hiperconectividade.

“Faz todo sentido — talvez hoje faça ainda mais. Filmes, séries e games não substituíram os quadrinhos, eles escancararam a importância deles. Quase tudo que consumimos nesses formatos nasce, direta ou indiretamente, das HQs”, afirma. 

Na avaliação do colecionador, a data também simboliza permanência cultural.

“Celebra resistência em todas as esferas, sociais, políticas, econômicas e muito mais”, diz, ao reforçar que o quadrinho não é um subproduto do cinema, mas o inverso: uma arte autônoma, complexa e universal.

Primeiro gibi

O contato inicial de Jefferson com os quadrinhos acontece ainda na infância, quando recebe sua primeira revista aos sete anos. Tratava-se da edição 86 da “Heróis da TV”, revista mix da Marvel, publicada no Brasil pela Editora Abril.

À época, não havia televisão em casa, o que tornava a leitura um exercício completo de imaginação.

“Sem televisão, os quadrinhos não competiam com imagens prontas, eles eram a própria janela para o mundo”, recorda.

A necessidade de preencher mentalmente sons, movimentos e o tempo entre um quadro e outro marcou profundamente sua relação com a narrativa visual. Esse exercício constante, segundo ele, expandiu a percepção, o vocabulário e as habilidades de leitura de imagens — competências que extrapolaram o universo dos gibis.

Início da coleção: aos sete anos, Jefferson recebeu seu primeiro gibi, a edição 86 de ‘Heróis da TV’, revista mix da Marvel publicada no Brasil pela Editora Abril – Imagem: Divulgação

Quadrinhos em foco

A presença das HQs na vida de Jefferson não se restringe ao lazer. Ele reconhece nos quadrinhos um papel central em sua formação ética e intelectual.

“Os quadrinhos me apresentaram dilemas morais muito cedo, de forma acessível e emocionalmente envolvente”, explica, ao citar temas como responsabilidade, representatividade, empatia e justiça como constantes nas narrativas que leu ao longo da vida. 

Esse vínculo se desdobrou na trajetória acadêmica do colecionador, que levou o tema ao campo científico em diferentes etapas da formação: em Marketing, com “As Histórias em Quadrinhos como Ferramenta de Marketing”; na graduação em Publicidade e Propaganda, por meio do estudo “Licenciamentos de Personagens da Cultura Pop na Publicidade”; na pós-graduação em Docência, com a pesquisa “Histórias em Quadrinhos como ferramenta pedagógica”; e, atualmente, no mestrado em Design, onde desenvolve “A Evolução dos Quadrinhos Digitais — da produção para impressão à experiência de leitura digital: uma análise histórica, tecnológica e cultural”.

Um acervo vivo 

Atualmente, o acervo de Jefferson está catalogado e reúne entre 15 e 20 mil exemplares, entre revistas mensais, minisséries, edições especiais e encadernados.

“No decorrer de minhas idas e vindas dessa vida, já tive três ou quatro vezes mais que isso, mas doei, perdi, vendi e emprestei muita coisa que nunca voltou. Esse acervo atual ainda tem bastante do início do meu ‘colecionismo’”, comenta, orgulhoso e, ao mesmo tempo, lamentando os extravios.

Parte desse material data das décadas de 1950, 1960 e 1970, incluindo edições antigas do Pato Donald e publicações da Mulher-Maravilha e do Superman lançadas no Brasil pelas Editora Brasil-América Limitada (Ebal) e Rio Gráfica Editora (RGE).

Entre as preferências pessoais, destacam-se os quadrinhos de super-heróis, especialmente das editoras DC Comics e Marvel.

“Com o tempo, você aprende que nem tudo pode — ou deve — ficar. O que permanece não é apenas o que é raro ou caro, mas o que tem valor afetivo, histórico ou formativo. Uma HQ merece ficar quando ainda conversa comigo, quando representa um período da minha vida ou quando carrega uma importância cultural que ultrapassa o objeto físico”, pontua.

A série “Os Novos Titãs” ocupa lugar substancial na coleção, assim como os trabalhos do ilustrador George Pérez, apontado por Jefferson como um de seus artistas favoritos.

Questionado sobre a HQ mais curiosa que já leu, o colecionador cita “Homem Animal”, de Grant Morrison. 

“Ele rompia a quarta parede e falava com o personagem, revelando que ele (o Homem Animal) era um personagem e que ele (o Grant Morrison) era o escritor que ferrava com a vida dele constantemente; isso meio que ‘bugou’ meu cérebro adolescente”, conta com entusiasmo. 

E “Asterios Polyp”, de David Mazzucchelli, que considera uma das melhores histórias já produzidas. O acervo também inclui publicações de editoras como Dark Horse, Image Comics, Top Cow Productions, IDW Publishing, Disney, Mauricio de Sousa, além de materiais do mercado europeu e japonês.

Apesar da dimensão da coleção, Jefferson admite manter uma extensa fila de leitura.

Valor cultural e mercado bilionário 

Para além do valor afetivo e histórico, os quadrinhos ocupam hoje um lugar estratégico na economia criativa. Segundo Jefferson, “o licenciamento de personagens de histórias em quadrinhos gera anualmente bilhões de dólares no mercado global”. 

Dados reunidos por ele indicam que o mercado global de licenciamento de personagens atingiu cerca de US$ 130,4 bilhões em 2024. A Disney, que engloba a Marvel, lidera esse segmento, com personagens como o Homem-Aranha gerando mais de US$ 1,3 bilhão por ano em produtos licenciados. 

No Brasil, este mercado movimenta mais de R$ 20 bilhões anuais, com forte presença de personagens da Marvel, DC e da Mauricio de Sousa Produções.

O faturamento é impulsionado principalmente pela venda de produtos no varejo — vestuário, brinquedos, materiais escolares e eletrônicos — com royalties que giram em torno de 10% sobre o valor de venda.  

A tendência é de crescimento, impulsionada por adaptações para cinema, séries, jogos e pela expansão dos quadrinhos digitais e webtoons (formato de quadrinhos digitais sul-coreano, pensado para leitura vertical em smartphones, com uso de cor, animações e efeitos sonoros).

Do impresso ao digital 

Do ponto de vista histórico, Jefferson entende que a tecnologia altera o suporte, mas não a essência da linguagem.

“O que permanece é a narrativa sequencial como forma de organizar o pensamento humano. Contar histórias por imagens em sequência é algo ancestral. O suporte muda — pedra, papel, tela —, mas a essência é a mesma: comunicar ideias, emoções e experiências de forma visual e simbólica. O quadrinho é, antes de tudo, uma forma de pensamento visual estruturado, uma linguagem ampla, completa e universal, independente da tecnologia”, salienta ele.

Nesse cenário, o digital amplia o acesso e democratiza a leitura, especialmente em um país onde o impresso sempre teve custo elevado. Ainda assim, o objeto físico mantém sua relevância simbólica, convivendo com o digital em um ecossistema híbrido.

O futuro em aberto 

Ao olhar para o futuro, Jefferson aponta para a necessidade de mais ousadia na produção nacional.  

“Gostaria de ver mais narrativas autorais, mais diversidade estética, mais experimentação formal e mais histórias que falem do cotidiano brasileiro sem caricatura. Também espero ver uma integração mais madura entre o digital e o impresso, em que o formato não seja uma limitação, mas uma escolha narrativa consciente”, avalia.

Curiosidades 

Entre as histórias que revelam a dimensão política e cultural dos quadrinhos, Jefferson destaca a origem do Zé Carioca. Criado por Walt Disney em 1940, durante uma visita ao Brasil, o personagem surge em um contexto de aproximação diplomática dos Estados Unidos com a América do Sul, em meio à Segunda Guerra Mundial.

A estreia ocorre em 1942, no filme “Alô, Amigos”, seguida de “Você Já Foi à Bahia?”, em 1945, antes de ganhar carreira própria nos quadrinhos a partir de 1950.

Sobre a diferença entre gibi e história em quadrinhos, Jefferson é direto: “São apenas nomes diferentes para a mesma coisa, você pode considerar o gibi como um apelido maroto para o gênero literário”.