
Criador de personagens emblemáticos, Maneco transformou dramas íntimos em narrativas que marcaram gerações da televisão brasileira
@caroline_leidiane
Em meio à paisagem carioca, as histórias de Manoel Carlos se instalaram no imaginário brasileiro com a naturalidade de quem faz parte da rotina. Seus personagens — especialmente as Helenas — ocuparam um espaço que ultrapassa a ficção e se fixa no inconsciente coletivo, como espelhos sensíveis de uma classe média urbana marcada por conflitos emocionais permanentes.
Ao transformar dramas íntimos em narrativa contínua, Manoel Carlos ajudou o público a reconhecer, nomear e elaborar sentimentos que, muitas vezes, ainda não tinham contorno nem palavra.
O dramaturgo faleceu no último sábado (10), aos 92 anos, no Rio de Janeiro. A informação foi confirmada pela família. Maneco, como era conhecido, estava internado no Hospital Copa Star, em Copacabana, onde fazia tratamento contra a Doença de Parkinson, que, no último ano, comprometeu suas funções motoras e cognitivas.
Nascido em São Paulo, em 1933, Manoel Carlos construiu uma trajetória singular na televisão brasileira. Ator, diretor, produtor e autor, começou a carreira ainda jovem, passando pelo teatro e pelo cinema antes de consolidar seu nome na teledramaturgia.
Foi na TV Globo que encontrou o espaço definitivo para desenvolver um estilo autoral reconhecível, marcado por diálogos longos, observação minuciosa do cotidiano e uma atenção quase clínica às relações familiares.
Ao longo de mais de seis décadas de trabalho, assinou novelas que se tornaram referências da cultura popular, como Baila Comigo (1981), História de Amor (1995), Por Amor (1997), Laços de Família (2000), Mulheres Apaixonadas (2003), Páginas da Vida (2006), Viver a Vida (2009) e Em Família (2014).
Ambientadas, em sua maioria, na Zona Sul do Rio de Janeiro, essas obras transformaram bairros como o Leblon em cenários simbólicos, onde conflitos privados ganhavam dimensão coletiva.
A repetição do nome Helena para suas protagonistas femininas não era mero recurso narrativo, mas um gesto de coerência autoral. Cada nova Helena trazia variações de uma mesma inquietação: mulheres complexas, atravessadas por desejos, culpas, contradições e escolhas difíceis, em permanente tensão entre o que sentem e o que a vida lhes impõe. Essas personagens se tornaram um dos traços mais emblemáticos da dramaturgia brasileira.

Sem recorrer a grandes reviravoltas ou vilões clássicos, Maneco apostou na força do cotidiano e no peso das pequenas decisões. Temas como maternidade, envelhecimento, alcoolismo, deficiência, violência doméstica, questões de gênero, sexualidade e relações intergeracionais surgiam de forma orgânica, integrados ao fluxo da narrativa. Sua escrita não buscava respostas fáceis, mas expunha fragilidades humanas com delicadeza e desdobramentos.
Manoel Carlos deixa um legado que extrapola sua obra, ainda pulsante na memória afetiva do país. Ao converter a intimidade em linguagem compartilhada, o autor contribuiu para que a televisão brasileira se afirmasse como espaço de escuta, reconhecimento e elaboração emocional. Um lugar onde a ficção superou o entretenimento e deu moradia ao espelho sensível da vida cotidiana.




