Junho Roxo amplia debate sobre lipedema, doença que afeta 12% das brasileiras

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Ana Luisa Saura Stefanin atua há 25 anos na área da estética e é especializada em saúde integrativa, estética avançada e humanizada, com foco no atendimento de pacientes com lipedema - Foto: arquivo pessoal

Reconhecida oficialmente pela OMS em 2019, porém amplamente subdiagnosticada, a condição é caracterizada pelo acúmulo desproporcional de gordura e por sintomas como dor e inchaço; campanha ‘Lipedema: conheça, entenda e se fortaleça’ promove informação e caminhada de conscientização em Votuporanga.


@caroline_leidiane

Descrito pela primeira vez em 1940 pelos médicos Edgar Van Nuys Allen e Edgar Alphonso Hines Jr., o lipedema permaneceu durante décadas à margem do conhecimento médico e da atenção pública. Somente em 2019 a Organização Mundial da Saúde (OMS) passou a reconhecê-lo oficialmente como uma doença distinta e, em 2022, a condição foi incorporada à 11ª revisão da Classificação Internacional de Doenças (CID-11), consolidando sua legitimidade clínica e ampliando o debate acerca de diagnóstico e tratamento.

Mesmo com os avanços no reconhecimento científico, a doença ainda é pouco conhecida pela população. Dados do Consenso Brasileiro de Lipedema indicam que a condição pode atingir cerca de 12,3% das mulheres brasileiras, percentual compatível com estimativas internacionais que variam entre 10% e 11% da população feminina adulta. O levantamento também aponta que o lipedema continua amplamente subdiagnosticado e frequentemente confundido com obesidade ou linfedema.

Caracterizada pelo acúmulo anormal e desproporcional de gordura, principalmente em pernas, quadris e, em alguns casos, braços, o lipedema apresenta forte influência genética e hormonal.

Entre os sintomas mais comuns estão dor ao toque, sensação de peso, inchaço, hematomas frequentes e dificuldade para reduzir o volume corporal mesmo com alimentação equilibrada e prática regular de exercícios.

Para ampliar o conhecimento público da doença e estimular o diagnóstico precoce, entidades, centros especializados, profissionais de saúde e grupos de apoio promovem durante o mês de junho ações de conscientização em mobilização mundial.

A campanha, conhecida como Junho Roxo, busca compartilhar esclarecimentos sobre o tema que ainda permanece pouco compreendido pelas pessoas.

“O roxo é uma cor tradicionalmente associada às campanhas de conscientização sobre doenças crônicas e representa empatia, acolhimento e esperança. O mês de junho foi escolhido para ampliar a visibilidade do lipedema e incentivar a disseminação de informações sobre uma condição que ainda é frequentemente confundida com obesidade ou retenção de líquidos”, afirma a esteta especializada em lipedema, saúde integrativa e estética avançada e humanizada Ana Luisa Saura Stefanin.

Participantes da primeira edição do ‘Lipedema Challenge’, realizada em 2025. Neste ano, a iniciativa passa a se chamar ‘Lipemove’. A ação reuniu mais de 30 pessoas em uma programação com caminhada, palestras e atividades de orientação e acolhimento – Foto: arquivo pessoal

Apesar dos avanços na legitimação científica, a falta de informação qualificada sobre o lipedema ainda dificulta a identificação da doença e o encaminhamento adequado das pacientes. Na avaliação da especialista, esse é um dos principais obstáculos enfrentados atualmente.

“Os maiores desafios são justamente o subdiagnóstico e a desinformação. Muitas mulheres convivem durante anos com dor, inchaço e alterações corporais sem receber o diagnóstico correto. Além disso, ainda existe pouca informação na população em geral e até entre alguns profissionais de saúde, o que reforça a importância de campanhas educativas e de conscientização”, salienta ela.

Além da aparência física

Embora os sinais visíveis costumem chamar atenção, os impactos do lipedema vão muito além das alterações corporais. A condição pode comprometer a mobilidade, provocar dores constantes e afetar significativamente a saúde emocional das pacientes.

A dificuldade em compreender o que acontece com o próprio corpo, somada aos julgamentos sociais relacionados ao peso e à aparência, faz uma porcentagem significativa de mulheres conviver com sentimentos de culpa, frustração e inadequação.

Ana Luisa conhece essa realidade também como paciente. Ao relembrar a adolescência, ela frisa sobre o quanto o conteúdo informativo e o acolhimento são essenciais para quem recebe o diagnóstico.

“Quem me dera se na minha época de adolescência, por exemplo, tivesse o diagnóstico e campanhas de conscientização. Eu, com certeza teria me sentido mais acolhida no mundo. Afinal, meu lipedema apareceu antes da puberdade e, naquela época, além de não ter diagnóstico, era uma pessoa em um milhão. Nos dias de hoje, estima-se que mais de 370 milhões de mulheres são afetadas mundialmente.”

Na medicina atual, não existe cura para o lipedema. O tratamento tem como objetivo controlar os sintomas, reduzir a progressão da doença e melhorar a qualidade de vida. Nesse contexto, o chamado tratamento conservador é considerado uma das principais estratégias de abordagem terapêutica.

Ao explicar como esse cuidado ocorre na prática, Ana Luisa ressalta a importância de uma assistência ampla e contínua.

“O tratamento conservador é um dos pilares do manejo do lipedema. Entre as principais estratégias estão alimentação equilibrada e anti-inflamatória, prática regular de atividade física, controle do estresse e qualidade do sono, uso de terapias compressivas, quando indicadas, drenagem linfática realizada por profissional capacitado, acompanhamento multiprofissional e uso de suplementação adequada”, cita.

Segundo ela, apesar de essas diretrizes não eliminarem a doença, auxiliam na redução de desconfortos e favorecem a funcionalidade das pacientes.

“Embora o lipedema não tenha cura, essas medidas contribuem significativamente para o controle dos sintomas, redução do desconforto e melhora da qualidade de vida”, pontua.

‘Lipedema: conheça, entenda e se fortaleça’ é o lema da iniciativa idealizada por Ana Luisa para o Junho Roxo – Foto: Divulgação

Conscientização e mobilização local

Com o lema “Lipedema: conheça, entenda e se fortaleça”, a campanha idealizada por Ana Luisa para o Junho Roxo busca ampliar a compreensão sobre a doença e incentivar o acesso à informação, ao diagnóstico e ao acompanhamento adequados.

Em Votuporanga, a programação inclui o Lipemove, caminhada de conscientização marcada para o dia 28 deste mês, na AS Clinic In Fit, localizada na avenida Francisco Vilar Horta, nº 4437.

A concentração está marcada para as 7h30, com saída para a caminhada às 8h. Após a atividade, haverá um momento para esclarecimento de dúvidas e apresentação de recursos utilizados como complemento ao tratamento conservador.

Os organizadores orientam que os participantes utilizem roupas confortáveis, tênis apropriado para caminhada, protetor solar e levem garrafa de água. Também é sugerido o uso de alguma peça de roupa na cor roxa, símbolo da campanha.

De acordo com a esteta, iniciativas presenciais ajudam a democratizar o acesso ao conhecimento fundamentado, contribuem para a desmitificação do tema e potencializam a rede de apoio às pacientes.

“Essas ações promovem informação, acolhimento e senso de pertencimento. Para as pacientes, é uma oportunidade de perceber que não estão sozinhas e de trocar experiências com outras mulheres que vivenciam os mesmos desafios. Para os familiares, é um momento de compreender melhor a doença e aprender formas de apoio. Já para os profissionais de saúde, esses encontros fortalecem a educação continuada e estimulam um olhar mais humanizado e multidisciplinar sobre o lipedema”, observa Ana Luisa.

À medida que a orientação qualificada sobre a doença avança, campanhas como o Junho Roxo buscam reduzir o subdiagnóstico e estimular o acesso à informação especializada e tratamentos possíveis.

Diante de uma realidade em que milhões de mulheres ainda desconhecem a própria condição, a conscientização permanece como uma das principais ferramentas para promover cuidado, acolhimento e qualidade de vida.