Exigimos demais de quem já não tem mais de onde tirar 

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Alberto Martins Cesário, professor e escritor - Foto: Reprodução

Por Alberto Martins Cesário, professor e escritor 

A escola segue funcionando, as aulas acontecem, os alunos aprendem e, no meio disso tudo, o professor vai se esgotando em silêncio. Entre cobranças crescentes, expectativas irreais e a romantização da resistência, pouco se fala sobre quem sustenta a educação quando o cansaço deixa de ser exceção e vira regra. 

Toda vez que entro em uma sala de aula no início do ano letivo, tenho a sensação de que carrego nas costas uma mochila invisível. Não pelo peso dos livros, nem cadernos, nem planos de aula cuidadosamente digitados em fonte oficial, é o peso das expectativas que são muitas, de todos os tamanhos, algumas legítimas e outras desumanas. 

Os cursos de pedagogia ensinam a planejar e ensinaram-me bem, aprendi a escrever objetivos claros, habilidades alinhadas, estratégias diversificadas e avaliações coerentes. 

Aprendi a prever tempos, antecipar dificuldades, organizar sequências didáticas como quem monta um quebra-cabeça lógico. O que ninguém ensinou, talvez porque não caiba em ementas, foi como sustentar emocionalmente um trabalho quando o professor deixa de ser educador e passa a ser uma espécie de balcão de atendimento permanente. 

O planejamento pedagógico, tão bonito no papel, é como um mapa desenhado em mesa firme, a sala de aula, no entanto, é um mar agitado e os pais, muitas vezes, aparecem na narrativa como faróis que, em vez de orientar, piscam sem parar, confundindo mais do que ajudando. 

Não falo aqui dos pais ausentes, esses já são um capítulo antigo, falo dos presentes demais, dos que acompanham cada passo do filho como se a escola fosse um reality show pedagógico. Aqueles que enviam mensagens às dez da noite, aos domingos, nos feriados, sempre com um “sei que não é o horário, mas…”. Ou aqueles que dizem “é só uma dúvida”, quando, na verdade, é uma cobrança travestida de cuidado. Como já dizia minha vó, tudo que é demais, sobra, e sobra mesmo, sobra cobrança, excessos, discussões, entre outras coisas.  

A escola virou palco de ansiedade social e o pior é que o professor se tornou o personagem principal de uma peça que nunca ensaiou. 

O curioso é que quase nunca se trata de má intenção, os pais estão cansados, inseguros, com medo de que o mundo engula seus filhos e projetam na escola, e especialmente no professor, a esperança de que alguém dê conta do que eles próprios não conseguem controlar. Querem resultados, progresso visível, respostas rápidas, soluções imediatas, como se educar fosse um aplicativo que atualiza em tempo real. 

Só que o professor é gente, e gente adoece. 

O adoecimento docente não começa com um atestado médico, começa com a perda do entusiasmo, com a aula que já não empolga, com o livro que fica fechado porque falta energia para convencer alguém de que a leitura ainda importa. Começa quando o professor passa mais tempo justificando seu trabalho do que exercendo-o e quando precisa provar, explicar, documentar, registrar, evidenciar e quase não sobra tempo para ensinar. 

A burocracia cresce como hera em muro antigo e vai cobrindo tudo, inclusive o afeto. 

Há dias em que o professor entra em sala como quem entra em campo machucado. 

Sorri, explica, acolhe, mas por dentro, está exausto e não é do aluno, raramente é do aluno. Está cansado do excesso de demandas, da sensação de nunca ser suficiente, da ideia implícita de que precisa ser ao mesmo tempo educador, psicólogo, mediador familiar, animador cultural e herói emocional. 

Ensinar, nesses dias, vira um ato de resistência silenciosa, acredito que é até por isso, que quando perguntamos para um professor, “está animado para voltar…”, a resposta nem sempre é positiva. 

E é aí que o trabalho docente começa a mudar, o professor cria menos, arrisca menos, inova menos. Não porque perdeu competência, mas porque perdeu fôlego e a criatividade exige segurança assim como o vínculo exige presença inteira. E ninguém consegue estar inteiro quando vive em constante estado de alerta. 

Cuidar de quem educa não é gentileza, é política educacional, uma condição básica para que a escola funcione, pois, um professor adoecido ensina, mas, ensina menos do que poderia pelo excesso de desgaste. 

Talvez seja hora de repensarmos essa relação entre pais e professores, afinal eles não estão em lados opostos do balcão, estão, ou deveriam estar, do mesmo lado da ponte. Uma ponte frágil, construída diariamente, com diálogo, confiança e limites claros, sem isso, o que era parceria vira cobrança e o que era cuidado vira controle. 

A escola resiste porque o professor insiste, mesmo cansado, ferido e até desacreditado às vezes. Mas até quando é possível sustentar uma educação baseada apenas na força de quem já está exausto? 

Se queremos uma escola viva, criativa e humana, talvez a pergunta mais urgente não seja o que o professor está fazendo pelo aluno, mas quem, afinal, está cuidando de quem educa? 

Não sei responder essa pergunta, mas sei que insistir não é sinônimo de aguentar tudo e resistência não deveria ser confundida com sacrifício permanente. Acredito que tem algo de perverso em uma estrutura que se orgulha da resiliência do professor enquanto testa, todos os dias, o limite dessa mesma resistência.  

Aplaudimos o educador que “dá conta”, que “não reclama”, que “se vira” e quando ele adoece, a surpresa é geral, como se o corpo e a alma não tivessem avisado antes, em forma de silêncio, irritação, esquecimento, cansaço crônico. 

Queremos exigir tanta coisa, mas tratamos o professor como um recurso inesgotável, esperamos entusiasmo de quem não dorme bem, paciência de quem vive sob cobrança constante, afeto de quem precisa se justificar até para respirar. Exigimos vocação, mas oferecemos pressão, pedimos cuidado, mas devolvemos desconfiança. 

Talvez o problema não seja a falta de amor pela educação, amor, aliás, sobra. O que falta é limite. Falta entender que professor não é serviço de emergência emocional, nem extensão da ansiedade familiar, nem funcionário em regime de disponibilidade total. Falta admitir que quando o educador adoece, não é fracasso individual, é sintoma de um sistema que cobra demais e cuida de menos. 

A escola não vai colapsar de repente. Ela vai se esvaziando aos poucos… primeiro, da criatividade, depois, da ousadia e por fim, da permanência. Porque chega um momento em que insistir deixa de ser nobre e passa a ser apenas exaustivo. 

Se continuarmos tratando o cuidado com o professor como detalhe secundário, talvez reste uma pergunta ainda mais incômoda do que a que costumamos fazer: quando não houver mais quem aguente insistir, quem vai restar para ensinar?