Estreia – Coluna: Reta Curva

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 – Respeite sua avó –

 

por Pedro Fuscaldo –

Acredito que pistas e carros têm almas, personalidades, são conscientes de uma forma que ainda não compreendemos e, quanto mais antigos, quanto mais emblemáticos, mais força esses espíritos têm, tornando-se verdadeiras entidades que podem decidir o que acontecerá em seus domínios. Este final de semana tivemos mais um exemplo disso nas 24h de Le Mans, uma senhora de quase 100 anos caprichosa, mas elegante, com todo o peso de uma história imensa.

E, como costumam dizer, não é você que vence em Le Mans, é a pista que te escolhe como vencedor, ela que organiza os astros para que você cruze a linha de chegada em primeiro, ou, então, que cruze a linha de chegada. Afinal de contas, uma corrida de 24 horas ininterruptas é exaustiva pra qualquer equipe e pra qualquer grupo de pilotos (cada carro conta com 3 pilotos que se revezam ao longo da corrida). Felizmente, este ano, fomos contemplados com mais drama e com louros para o Brasil.

Pra entender o capricho desta velha senhora, cabe um pequeno retrospecto pra aquela que é uma das derrotas mais doloridas do automobilismo: em 2016, há cinco minutos do fim de uma corrida de 24h, na última volta, o Toyota do trio Davidson/Buemi/Nakajima quebrou parando na reta dos boxes assim que abriu a última volta. Para a montadora, que tentava há décadas vencer Le Mans, foi devastador (a Porsche herdou a vitória) e Nakajima, que conduzia o veículo no momento, saiu amparado do carro com a tristeza como companheira.

Os japoneses só venceriam em Le Mans em 2018 com praticamente o mesmo trio, mas com Alonso (o bicampeão mundial de F1) no lugar de Davidson e, finalmente, quebraria com a maldição. Ou só mudaria de lado nos boxes?

Não podemos esquecer que Le Mans, como disse, é caprichosa. Você pode liderar a corrida por 23h seguidas, ter um ritmo impecável, estar na melhor equipe, ter um final de semana perfeito, todos os sensores, toda a tecnologia possível, todos os elementos funcionando como deveriam, porém Le Mans é implacável: ela vai dar um jeito de escolher, fará com que sua equipe, a poderosíssima Toyota, depois de uma parada nos boxes, coloque um pneu furado em seu carro depois de você entrar para trocar outro pneu furado. E, quando saísse dos boxes, o câmbio travaria em terceira marcha. Assim, esta senhora francesa de 96 anos mais uma vez decidiria contra aqueles que mais mereciam a vitória. “Pechito” López, que dividiu esta tristeza com Kobayashi e Conway, ainda levaria o Toyota #7 ao segundo posto, mas com aquele nó na garganta que só aqueles que correm conhecem.

Porém nem tudo é tristeza em Le Mans. Com a vitória do Toyota #8 de Alonso/Nakajima/Buemi, um piloto japonês, pela primeira vez, foi campeão de uma categoria importante do automobilismo internacional. Alonso também voltou a conseguir um título desde o seu bicampeonato na Fórmula 1 em 2006 e Buemi voltou a um título mundial desde a conquista da Fórmula E da temporada 2015/2016.

Podemos dizer também que a senhora francesa sorriu para o Brasil. Ainda que estejamos carentes de pilotos na Fórmula 1, temos diversos outros em outras categorias competindo em alto nível e essas 24h de Le Mans nos mostrou isso. Sem delongar muito na explicação, Le Mans tem quatro categorias diferentes correndo ao mesmo tempo na pista e, tirando duas categorias, as outras duas tiveram um brasileiro como vencedor. Daniel Serra esteve no trio que venceu uma das categorias com uma Ferrari (depois de já ter vencido em 2017 com um Aston Martin), enquanto que André Negrão venceu pela Alpine. Felipe Fraga também cruzou a linha de chegada em primeiro em sua categoria com seu trio, mas uma irregularidade em seu Ford GT o levou à desclassificação. De qualquer forma, para um automobilismo interno cada vez mais combalido, é alentador que a velha senhora francesa nos resolva dar a bênção de duas vitórias em uma corrida tão complicada: um dia histórico para o automobilismo brasileiro.

Essa é Le Mans, uma francesa caprichosa residente em La Sarthe, que, junto com o Grande Prêmio de Mônaco e as 500 milhas de Indianápolis, tece os destinos daqueles que se aventuram em seu asfalto. Estas senhoras não são apenas pistas, amontoados de curvas e retas, são entidades que praticamente deram a luz para todo o reino das competições a motor e, como boas avós que são, devem ter suas vontades respeitadas, ainda que, às vezes, não façam muito sentido e deixam o gosto amargo da derrota impregnado na boca.