Entre o visível e o sensível, exposição propõe a cura como experiência estética

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Patrícia Buzzini (à esquerda) e Luciane d’Alessandro (à direita), coordenadoras do Movimento Ser Tão - Foto: Edvaldo Santos/Diário da Região

‘A Arte de Curar’ reúne 25 artistas no Rio Preto Shopping e segue até 7 de maio, explorando diferentes linguagens visuais para investigar o que escapa ao diagnóstico.


@caroline_leidiane

A exposição “A Arte de Curar”, em cartaz no Rio Preto Shopping até 7 de maio, atenua as fronteiras entre arte e medicina ao propor uma leitura ampliada sobre o conceito de cura.

Reunindo 25 artistas de São José do Rio Preto e região, a mostra articula diferentes linguagens visuais para investigar aquilo que escapa ao diagnóstico: as dimensões subjetivas, emocionais e simbólicas do cuidado.

Com curadoria de Oscar D’Ambrosio, o projeto parte de uma aproximação conceitual entre dois campos historicamente conectados, mas frequentemente dissociados no imaginário comum.

“A arte e a medicina têm bem mais contato do que se pode imaginar numa analogia apressada e superficial dessas duas atividades. Muitas vezes, ambas tendem a ser vistas de forma reducionista, o que não é bom para nenhuma delas. Este projeto busca adensar o contato entre ambas”, afirma ele.

A exposição também celebra o centenário da Sociedade de Medicina, destacando a interdependência entre técnica e sensibilidade.

“‘A Arte de Curar’ é uma exposição que celebra a interseção entre a medicina e a arte, destacando como ambas podem se complementar na busca pela cura e pelo bem-estar. Comemorando os 100 anos da Sociedade de Medicina, esta exposição é um tributo à paixão e dedicação dos profissionais da saúde. A arte e a medicina compartilham uma relação profunda e ambígua. Enquanto a medicina busca curar o corpo, a arte cura a alma. Juntas, elas nos lembram de que a cura vai além do físico, abrangendo o emocional e o espiritual”, diz Luciane d’Alessandro coordenadora do Movimento Ser Tão.

Na mesma frente de atuação, Patrícia Buzzini evidencia o caráter introspectivo da mostra.

“Na exposição, as obras nos convidam a olhar para dentro — para aquilo que precisa ser revisto, cuidado e, sobretudo, ressignificado. Cada trabalho instaura um tempo de pausa e de escuta, no qual imagem, matéria e gesto se tornam linguagem sensível da experiência humana. A exposição não propõe respostas prontas, mas abre um novo campo de experiências”, elucida ela.

Valdecir Gerotto, fotógrafo e artista plástico, apresenta a obra ‘Síndrome do Peso Invisível’ (2026), integrante da exposição ‘A Arte de Curar’ – Foto: arquivo pessoal

Artistas e processos

Participam da exposição Aicro Junior, Araguaí Garcia, Ary Salles, Beto Carrazone, Carlos Bachi, Cibele Felipe, Daniel Firmino, Eliara Bevilacqua, Eloisa Mattos, Jair Lemos, Jane Arroyo, Josiani Sabino, Lézio, Luciane D’Alessandro, Luis Antônio Cossi, Maria Helena Curti, Patrícia Reis Buzzini, Rodrigo Motta, Rodrigo Silva, Terezinha Bilia, Valdecir Gerotto, Valdenir do Bonfim, Wesley S. Estácio e Thomaz.

A diversidade de artistas se traduz em múltiplas abordagens, técnicas e suportes, compondo um panorama da produção contemporânea local. Em comum, as obras partem da tentativa de expressar o indizível — seja a dor, o tempo, a memória ou os processos de transformação que atravessam o corpo e a subjetividade.

A exposição se estrutura a partir de uma inquietação comum aos seus idealizadores: compreender aquilo que escapa ao campo visível. Nesse ponto, arte e medicina deixam de ocupar lugares distintos e passam a operar como linguagens complementares na leitura da experiência humana.

“A ideia nasceu com uma conversa entre mim, o Oscar e a Patrícia, e vimos esse tema com bastante importância para ser trabalhado. Tanto a arte quanto a medicina tentam a mesma coisa: entender o invisível. O médico olha uma radiografia e enxerga a vida por dentro. O artista olha a dor e traduz em cor. Os dois estão tentando curar — um com ciência, outro com sentido. A exposição junta esses olhares”, explana Luciane.

Se, no presente, arte e medicina se encontram como campos inter-relacionáveis é na narrativa do século XIV que essa conexão revela suas raízes mais profundas.

“Desde o Renascimento, arte e medicina andam juntas. Da Vinci dissecava corpos para desenhar melhor. Médicos usavam ilustrações anatômicas que eram obras-primas. A ideia surgiu para resgatar esse diálogo: a medicina é técnica, mas também é interpretação. Igual à arte”, contextualiza.

Programação segue até maio

Após o lançamento, em 23 de abril, a programação formativa da exposição continua com atividades abertas ao público. No dia 2 de maio, às 18h30, ocorre o workshop de pinturas naif e contemporânea com Luciane d’Alessandro, Rodrigo Silva e Terezinha Bilia. Na mesma data, às 19h, o artista Aicro Jr. conduz uma atividade de pintura ao vivo.

Encerrando a agenda, no dia 7 de maio, às 19h, a artista Nidia Puig apresenta a palestra “A arte e suas expressões”.

Instalada em um espaço de circulação cotidiana, a exposição desloca o olhar apressado e propõe uma experiência de escuta e presença. Ao atravessar os campos da ciência e da arte, a mostra sugere que curar não se limita ao restabelecimento do corpo — é também um exercício de percepção, linguagem e sentido.

Sobre o Movimento Ser Tão

O Movimento Ser Tão é um coletivo que reúne artistas plásticos de São José do Rio Preto e região. Fundado há cerca de dois anos, o grupo é coordenado por Luciane d’Alessandro e Patrícia Buzzini, sob mentoria de Oscar D’Ambrosio, e tem como proposta fortalecer o diálogo entre os artistas e aproximar o público das artes visuais.

Exposição: “A Arte de Curar”

  • Data: até 7 de maio
  • Local: Rio Preto Shopping
  • Entrada gratuita