Entre sílabas mal decifradas e olhares que já aprenderam cedo demais sobre perdas, o professor da escola pública brasileira descobre, dia após dia, que alfabetizar não é apenas ensinar letras é, muitas vezes, ensinar a continuar respirando.
Alberto Martins Cesário, professor e escritor
Outro dia entrei na sala com o planejamento impecável debaixo do braço, aquele mesmo, revisado, alinhado à BNCC, colorido com marca-texto e esperança pedagógica.
Hoje vai, pensei, eles saem lendo!
A atividade estava bonita, sequência didática redondinha, consciência fonológica abrindo alas para a formação de leitores críticos, autônomos e se o universo colaborasse minimamente interessados.
Foi quando o Alecrim Dourado chegou.
Não chegou atrasado, chegou pesado.
Quem é professor da escola pública sabe reconhecer esse tipo de entrada. A criança não entra pela porta, ela se arrasta pelo ar da sala, como quem traz uma mochila invisível cheia de coisas que não cabem no material escolar.
— Professor, hoje eu não consegui fazer a tarefa.
Até aí, nenhuma novidade, se eu ganhasse um real por cada tarefa não feita, já teria pedido exoneração e aberto uma livraria à beira-mar.
Mas não era sobre a tarefa, na verdade, nunca foi sobre a tarefa.
O olho do menino não estava no caderno, estava longe. Num lugar onde sílabas não chegam, um território onde o “ba-be-bi-bo-bu” perde feio para o barulho da madrugada, para a briga na cozinha, para o silêncio gelado de quem cresce rápido demais.
E é aqui que os cursos de pedagogia ficam em silêncio constrangedor, quando estamos cursando, ninguém conta que haverá dias em que você precisará escolher entre ensinar a ler… ou ensinar a sobreviver até o recreio.
A gente aprende a planejar objetivos de aprendizagem, mas não aprende a medir a temperatura emocional de uma turma às sete e quinze da manhã. Somos mestres em elaborar instrumentos avaliativos, mas não aprendemos o que fazer quando o aluno desmonta na sua frente sem fazer barulho.
Fala muito sobre metodologias ativas, mas não vejo ninguém avisar que, às vezes, o mais ativo que você vai fazer é simplesmente não desistir de ninguém. Em fim…
Voltei ao quadro.
Escrevi a palavra CASA em letras grandes, pedagógicas, esperançosas.
— Vamos ler juntos?
Alguns foram, outros fingiram que foram, dois estavam brigando pelo mesmo lápis desde 2023. E o Alecrim… bem, ele estava ali, mas não exatamente.
Ensinar a ler, me disseram na faculdade, é abrir janelas para o mundo, muito bonito, poético. Didaticamente impecável.
Mas há dias, muitos dias, em que o professor precisa primeiro ajudar o aluno a não fechar as próprias cortinas por dentro.
Porque existem crianças que não tropeçam nas letras, tropeçam na vida. E enquanto a burocracia pede planilha, evidência, relatório e devolutiva formativa em três vias, o professor vai ali, no improviso silencioso, tentando fazer caber humanidade entre um descritor e outro.
Ninguém contabiliza isso no IDEB.
Ninguém coloca na planilha do sistema:
Hoje o professor conseguiu fazer um aluno ficar na escola, fazer a atividade se ver no mundo.
Há um cansaço novo habitando as salas de aula, não aquele antigo, de quem corrigiu prova até tarde. É um cansaço mais fundo, mais emocional, mais difícil de explicar em reunião pedagógica com café morno.
Os professores andam carregando não só livros, carregam histórias que não são suas, silêncios que não pediram.
E uma pergunta incômoda que nenhum manual responde, até onde vai o papel do professor quando o aluno chega emocionalmente ferido?
Naquele dia, fechei metade do planejamento. Não por derrota, embora às vezes pareça, mas por estratégia de sobrevivência pedagógica.
Sentamos em roda, lemos menos e conversamos mais. E, curiosamente, algumas palavras começaram a fazer mais sentido depois disso.
Porque talvez, e digo isso com o cuidado de quem ainda acredita na alfabetização ensinar a ler continue sendo urgente, mas há manhãs em que, antes do som da letra, o aluno precisa reaprender o som do próprio nome sendo chamado com respeito.
O sinal tocou.
A aula acabou.
O planejamento ficou pela metade, como quase tudo que é vivo dentro de uma escola pública, mas o Alecrim Douradp, naquele dia, copiou a palavra CASA inteira.
Não foi milagre pedagógico.
Foi presença.
E você aí, que também carrega um diário de classe e algumas cicatrizes invisíveis… me diga:
Em tempos de alunos cada vez mais feridos, e professores cada vez mais exaustos, será que ainda estamos ensinando apenas a ler… ou estamos, silenciosamente, tentando manter gente inteira dentro da escola?




