
Homenageados do Fliv 2026, Janaína Tokitaka e Gabriel Chalita dialogam sobre literatura, formação de leitores, processo criativo e os caminhos da escrita diante das novas tecnologias.
@caroline_leidiane
No encontro entre literatura, memória e imaginação, escrever e ler são, possivelmente, formas de criar futuros, enquanto os roteiros dessas narrativas abrem janelas para novos mundos.
Foi a partir dessa perspectiva que os escritores Gabriel Chalita e Janaína Tokitaka, homenageados da 16ª edição do Festival Literário de Votuporanga (Fliv), participaram na noite de segunda-feira (10) da mesa “Roteiros do imaginário”, realizada no Cine Fliv. Com mediação do escritor, editor e crítico literário Reynaldo Damazio, a conversa percorreu diferentes dimensões da leitura e da criação, da infância aos desafios impostos pela inteligência artificial.
A trajetória dos dois autores apresenta pontos de partida distintos, mas uma mesma relação de permanência com os livros. Chalita, homenageado na categoria de literatura adulta, é escritor, professor e autor de mais de 90 livros, com mais de 12 milhões de exemplares distribuídos. Janaína, homenageada pela produção infantojuvenil, é escritora premiada, roteirista e transita entre a literatura e o audiovisual, com obras adaptadas para séries e projetos destinados ao público jovem.
Ao abordar o papel da literatura na formação das pessoas, Chalita definiu a leitura como uma experiência capaz de mobilizar sentimentos, repertórios e formas de compreender o mundo.
“A literatura é a história dos sentimentos. A literatura trabalha com os nossos sentimentos. E esses sentimentos nos ajudam a construir repertórios. E eles precisam tocar dentro da gente, senão não é literatura”, argumentou.
Na avaliação do escritor, a literatura participa da formação cultural e intelectual, amplia o vocabulário e cria condições para que o leitor entre em contato com experiências que não são necessariamente suas.
“Quando eu leio Jorge Amado, alguma coisa acontece comigo. Alguma coisa humana se desenvolve dentro de mim. A leitura é um processo de prazer, mas as pessoas precisam ser convidadas a isso. (…) Eu trabalho com os meus neurônios, desenvolvo sinapses e, ao mesmo tempo, me transformo numa pessoa melhor”, explicou.
Para Tokitaka, essa capacidade de atravessar épocas e realidades é justamente uma das características mais fascinantes da literatura. Historiadora de formação, ela relacionou a leitura à possibilidade de estabelecer contato com pessoas, pensamentos e sensibilidades de outros períodos.
“Para mim, a literatura é, por exemplo, o mais próximo que a gente tem de uma máquina do tempo”, afirmou. A autora lembrou a experiência de ler obras escritas séculos atrás e imaginar que aquelas mesmas palavras foram percorridas por diferentes leitores ao longo da história. A ficção científica, gênero pelo qual demonstra especial interesse, acrescenta outra possibilidade: projetar futuros, inventar realidades e deslocar o leitor para lugares que dificilmente alcançaria de outra maneira.
Bibliotecas como primeiros territórios de imaginação
As histórias pessoais dos escritores ajudaram a dimensionar o lugar que a leitura ocupa em suas formações. Gabriel contou que seu contato inicial com as narrativas ocorreu ainda na infância, durante visitas a um asilo em Cachoeira Paulista, onde acompanhava a mãe em trabalhos voluntários. Ali, passou a ouvir histórias contadas pelos idosos e conheceu uma professora aposentada chamada Ermelinda, que lhe emprestava livros.
“E ela perguntava assim: ‘Gabrielzinho, leu?’ Eu respondia: ‘Li’. ‘Gostou?’ ‘Muito.’ ‘Entendeu?’ ‘Nada.’ ‘É isso, não faz mal. As palavras são mágicas e, aos poucos, elas vão tomando conta de você’”, recorda ele.
A relação ganhou outra dimensão quando a professora perdeu a visão. Chalita passou então a ler para ela, aos 11 anos, transformando a leitura em uma experiência compartilhada. Foi nesse período que surgiu a ideia de seu primeiro livro, “Eu Só Queria Ser Poeta”, inspirado na relação com o irmão, que tem síndrome de Down.
Janaína encontrou nos livros um abrigo semelhante, embora por uma trajetória diferente. Durante a infância, conta que passava o recreio na biblioteca por ser muito tímida.
“Os livros foram meu primeiro abrigo e foram também uma forma de eu me aventurar”, disse. Na biblioteca, teve acesso ainda criança a autores como Machado de Assis e Jorge Amado. A experiência de ler sobre personagens e realidades distintas, enquanto permanecia em um ambiente que considerava seguro, marcou sua relação posterior com a literatura.
A escritora também relacionou essa experiência à escolha pela literatura infantojuvenil e ao trabalho como roteirista. Para ela, a criação literária permite construir universos por meio das palavras, enquanto o audiovisual acrescenta a possibilidade de materializar esses mundos.
“Mesmo sem nada disso, a palavra já dá conta de ser por si só, já cria um universinho sem precisar de ninguém”, defendeu.

Escrever é escolher
O processo criativo apareceu como outro ponto de aproximação entre os autores. Gabriel discorreu sobre como acontecimentos cotidianos podem se transformar em matéria literária e citou “O Beijo do Papagaio”, livro infantil que nasceu de uma conversa sobre um sapo que queima quem encosta nele.
“O escritor precisa ter duas leituras. É muito difícil você virar um escritor sem ser leitor. Mas, para além dos livros, você precisa ter leitura de mundo. O mundo tem que te inspirar”, pontuou.
Janaína, por sua vez, observou que a escrita é um trabalho criativo, e não apenas uma atividade dependente de inspiração.
“Todo mundo tem dia que não rende nada, e aí você fica ali martelando e não dá certo e tal, mas é pouquíssimo de inspiração. É um ofício, e eu acho importante que a gente respeite enquanto tal”, analisou.
A autora também chamou atenção para a quantidade de decisões envolvidas na construção de uma narrativa: escolher uma palavra, definir o destino de um personagem, decidir o tamanho de uma frase ou a presença de uma vírgula. Por isso, demonstrou resistência à ideia de delegar esse processo à inteligência artificial.
“Eu delego muitas outras coisas na vida, mas essa eu não quero delegar”, declarou.
O debate sobre tecnologia levou os dois escritores a uma reflexão sobre o lugar da inteligência artificial em uma sociedade demasiadamente acelerada. Tokitaka questionou a promessa de automatização como solução para a falta de tempo e apontou o risco de uma relação passiva com ferramentas capazes de produzir textos a partir de comandos.
“Eu acho que a gente está perdendo a capacidade de gostar da dificuldade. […] E eu acho que escrever é gostar do difícil.” afirmou.
Chalita, considerou a inteligência artificial uma realidade que não pode ser ignorada, mas defendeu que seu uso não substitua experiências humanas fundamentais, como a sensação de um abraço.
“A inteligência artificial é um fato, não dá para fugir dela. […] Mas eu não posso jogar fora uma experiência humana”, ressaltou.
Da página para a tela, outras formas de contar
Como autora e roteirista, Janaína também abordou a relação entre literatura e audiovisual. Para ela, uma adaptação deve respeitar a linguagem de cada formato e preservar a essência da obra.
“Para ser um bom filme, na minha experiência, ou uma boa série, você precisa respeitar a mídia que você está escrevendo e não tentar fazer igual”, comentou.
A conversa também passou pelas adaptações e traduções de clássicos, como o recém lançado “A Odisseia”, evidenciando como diferentes linguagens e interpretações podem aproximar obras de novos públicos.
“Ele não é fiel ao poema original e nem tem que ser, ele é fiel na intenção”, finalizou Chalita.
Nesse percurso, “Roteiros do imaginário” mostrou que a literatura nasce da experiência humana de estar no mundo, tendo na convivência com o outro um de seus elementos fundamentais.




