
Após participar do Encontro Brasileiro de Organizações de Paradas e da histórica 30ª Parada do Orgulho LGBT+ de São Paulo, Tom Shake reflete sobre cidadania, participação política e os caminhos para ampliar a mobilização em Votuporanga.
@caroline_leidiane
A cidade de São Paulo foi palco, no início de junho, de dois dos mais importantes eventos ligados à defesa dos direitos da população LGBTQIA+ no país. Entre os dias 4 e 6, lideranças de diferentes regiões participaram do 7º Encontro Brasileiro de Organizações de Paradas LGBT+.
A iniciativa reuniu mais de 90 organizações nacionais para debater estratégias de mobilização, políticas públicas e o fortalecimento institucional do movimento. Nesse cenário de articulação, Votuporanga esteve representada pelo produtor cultural, contribuinte social e agente de direitos humanos Tom Shake.
Segundo ele, os diálogos evidenciaram a preocupação das organizações em ampliar sua capacidade de atuação e consolidar redes de cooperação em diferentes regiões do país.
“Nesta edição, um dos principais focos foi o fortalecimento institucional dos coletivos, organizações e contribuintes sociais que realizam Paradas e debates públicos em todo o país. Foram discutidas estratégias de articulação institucional e com órgãos públicos, além de formas de desenvolver projetos nas áreas de cultura, direitos humanos e assistência social. Também houve uma importante troca de experiências entre lideranças de diferentes regiões do Brasil, permitindo compartilhar desafios, boas práticas e soluções para fortalecer o movimento social”, afirma.
Realizado durante o Mês do Orgulho, o encontro promoveu debates sobre democracia, cultura, direitos humanos, comunicação, saúde pública, segurança e participação política.
A programação integrou ainda o Ano Cultural Brasil–Reino Unido 2025-2026, em parceria com o British Council (organização do Reino Unido para relações culturais e oportunidades educacionais), ampliando o intercâmbio de experiências e a cooperação internacional em torno da diversidade.
A celebração é política
Os fóruns realizados durante o encontro destacam uma percepção compartilhada entre os participantes: as Paradas da Diversidade deixaram de ser vistas apenas como grandes manifestações festivas para ocupar uma posição estratégica na promoção da cidadania e dos direitos humanos.
Para Tom, embora aconteçam em datas específicas, esses eventos são resultado de um trabalho permanente de articulação com poder público, organizações da sociedade civil e a própria comunidade.
“As Paradas são muito mais do que eventos de celebração. São espaços de visibilidade, conscientização e mobilização social. Elas ajudam a dar visibilidade às demandas da população, promovem o debate sobre cidadania e direitos humanos e fortalecem redes de apoio para pessoas que muitas vezes enfrentam preconceito, discriminação ou isolamento”, salienta.
O encontro evidenciou ainda a importância da participação de municípios do interior nas interações nacionais. Conforme o representante votuporanguense, experiências vividas fora dos grandes centros oferecem contribuições importantes para a formulação de políticas públicas e para a compreensão das diferentes realidades enfrentadas pela população LGBTQIA+.
“Muitas vezes, os desafios relacionados à visibilidade, ao acesso a direitos e ao combate à discriminação são ainda maiores no interior. Estar presente nesses espaços é uma forma de garantir que essas realidades sejam consideradas nas discussões nacionais”, observa.

Três décadas de ocupação e resistência
Os temas debatidos ao longo do encontro ganharam dimensão prática nas ruas durante a 30ª Parada do Orgulho LGBT+ de São Paulo, realizada no último domingo, 7 de junho, na Avenida Paulista.
Considerada uma das maiores manifestações do gênero no mundo, a edição deste ano celebrou três décadas de ocupação do espaço público e de reivindicação por direitos.
O tema “A rua convoca, a urna confirma” destacou a participação política como elemento fundamental na conquista de direitos da população LGBTQIA+, fruto da mobilização social e da atuação nas esferas democráticas.
A própria história da Parada ilustra essa trajetória. O movimento teve início em 1996, na Praça Roosevelt, quando um grupo de pessoas enfrentou o medo para reivindicar visibilidade e o direito de existir plenamente.
No ano seguinte, ocupou a Avenida Paulista e nunca mais deixou de marcar presença no principal cartão-postal da capital. Desde então, transformou-se em um dos maiores símbolos de representatividade, resistência e luta por direitos da comunidade LGBTQIA+ brasileira.
Conforme Tom Shake, a recepção do tema demonstrou a compreensão crescente sobre a relação entre manifestação popular e participação cidadã.
“O público entendeu que os avanços conquistados ao longo dos anos não aconteceram por acaso. O tema reforça a ideia de que as reivindicações apresentadas nas ruas precisam ser acompanhadas pelo exercício da cidadania, pelo acompanhamento político e pela escolha de representantes comprometidos com os direitos humanos”, afirma.
De São Paulo para Votuporanga
Na avaliação de Shake durante a Parada, entre os temas centrais desta edição estiveram o combate à violência e à discriminação, a ampliação do acesso a ações governamentais, a inclusão no mercado de trabalho, a saúde integral da população LGBTQIA+ e o fortalecimento de iniciativas de acolhimento voltadas a pessoas em situação de vulnerabilidade.
Embora frequentemente associadas às grandes capitais, essas demandas também fazem parte da realidade de cidades médias e pequenas.
“Em municípios como Votuporanga, ainda existem desafios relacionados ao preconceito, à invisibilidade e ao acesso à informação, o que torna fundamental a promoção de espaços de diálogo, conscientização e cidadania. A principal lição é que os direitos e as demandas da população LGBT+ não estão restritos aos grandes centros urbanos. É necessário que os debates e as ações de inclusão cheguem a todos os territórios, garantindo respeito, oportunidades e dignidade para todas as pessoas, independentemente de onde vivam”, pontua.
Os aprendizados acumulados ao longo da semana já apontam caminhos para a próxima edição da Parada das Cores de Votuporanga. Entre os objetivos estão a ampliação das parcerias institucionais, o fortalecimento da gestão do evento e a aproximação com redes estaduais e nacionais.
“A principal contribuição que levo é a compreensão mais aprofundada da importância da organização técnica, da gestão estratégica e da articulação institucional para a realização dos movimentos sociais. O Encontro Brasileiro de Organizações de Paradas e a Parada de São Paulo demonstraram, na prática, como planejamento, governança e integração com diferentes setores são fundamentais para ampliar o impacto das ações. Para a próxima edição da Parada das Cores de Votuporanga, a proposta é profissionalizar a gestão, ampliar o acesso a políticas culturais e fortalecer a Parada das Cores como uma plataforma de cidadania, com planejamento, parcerias e responsabilidade institucional”, explana Tom.
Para ele, o legado dos encontros em São Paulo não se limita às experiências compartilhadas ou aos debates realizados durante a programação. O desafio agora é converter e adaptar esse repertório em ações capazes de gerar efeitos permanentes na realidade local.
“A Parada das Cores precisa ser consolidada como uma plataforma contínua de cidadania, educação e mobilização social, com impacto real na vida das pessoas durante todo o ano”, conclui.




