Elke Maravilha, dez anos depois

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Elke Maravilha marcou a televisão brasileira ao lado de Chacrinha, com quem trabalhou por 14 anos, e como jurada de programas de auditório. Também comandou o “Elke”, em 1993, e construiu uma trajetória no cinema, em produções de diferentes épocas – Imagem: Reprodução

Modelo, atriz, cantora, apresentadora e jurada, artista que morreu em 16 de agosto de 2016 transformou a própria imagem em linguagem e deixou uma trajetória marcada por irreverência, arte e defesa da diversidade.


@caroline_leidiane
Dez anos após sua morte, completados no último domingo, 16 de agosto, a imagem irreverente dela permanece. Contudo, o legado de Elke é muito mais exuberante do que o visual que a tornou reconhecível à primeira vista.
Nascida em Leutkirch im Allgäu, na Alemanha, em 22 de fevereiro de 1945, Elke Grunnupp chegou ao Brasil ainda criança com a família. Antes de se tornar uma personalidade conhecida nacionalmente, foi professora de idiomas, secretária trilíngue, tradutora e intérprete. Era fluente em oito línguas e chegou a estudar Filosofia, Medicina e Letras na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Aos 24 anos, em 1969, iniciou a carreira como modelo e manequim.
Nas passarelas, encontrou espaço para construir uma identidade que não cabia nos padrões convencionais de beleza. Alta, loira natural e dona de uma presença impressionante, começou de maneira tanto quanto discreta, mas gradualmente transformou o próprio corpo em território de experimentação estética.
Foi nesse período que conheceu a estilista Zuzu Angel, com quem estabeleceu uma amizade que atravessaria também um dos períodos mais violentos da história brasileira.
Batizada de Elke Maravilha pelo jornalista espanhol Daniel Más, ela cursou cinema e teatro e iniciou na televisão, se tornando conhecida ao ser chamada dessa forma pelo saudoso Chacrinha, com quem trabalhou durante 14 anos.
A partir de 1972, tornou-se uma das figuras mais emblemáticas dos programas de auditório brasileiros, especialmente como jurada. Também integrou o universo televisivo de Silvio Santos e, em 1993, comandou o próprio programa, o “Elke”.
Além disso, Elke construiu uma trajetória marcante no cinema brasileiro, levando às telas sua forte presença cênica. Entre a filmografia, estão comédias, dramas e participações em produções de diferentes épocas.
Perucas, maquiagem e figurinos eram parte da linguagem artística de Elke Maravilha. Com adereços criados em grande parte por Walério Araújo, transformava o exagero em expressão de personalidade, criatividade e liberdade – Imagem: Reprodução

A estética exótica e ousada

Perucas, maquiagem e figurinos nunca foram apenas acessórios para Elke. Eram parte de uma montação artística que fazia do exagero uma manifestação da própria personalidade.

Os adereços de cabeça e cabelo de Elke Maravilha eram parte essencial de sua construção estética. Criados em grande parte pelo amigo e estilista Walério Araújo, combinavam plumas, pérolas, brilho, chifres e objetos inusitados em composições que traduziam a iconicidade criativa da artista.

A maquiagem seguia a mesma lógica. Em entrevista ao programa “Estrelas”, da TV Globo, Elke explicou sua concepção de maquiagem de maneira direta: a intenção era justamente deixar evidente que estava maquiada. Para ela, não havia necessidade de produzir uma aparência de naturalidade quando a maquiagem poderia assumir o protagonismo de autenticidade.

O exagero de Elke era marginal à moda vigente. Se vestir consistia em uma maneira de imprimir excentricidade e uma identidade que convergia em atitude dentro de seus posicionamentos.

Esse modo de existir fazia dela alguém que convidava o outro a abandonar preconceitos e imaginar múltiplas possibilidades de estar no mundo. O Itaú Cultural, ao reunir depoimentos de pessoas que conviveram com Elke, destacou essa dimensão de liberdade e a relação dela com grupos historicamente marginalizados, entre eles gays, prostitutas, população carcerária e pessoas com hanseníase.

Elke frequentava e era acolhida por ambientes da diversidade, tornando-se uma referência para muitos que encontravam em sua figura uma representação de liberdade. Em entrevistas, falava abertamente sobre homossexualidade e criticava o preconceito, defendendo a ideia de que a diferença não deveria ser corrigida nem escondida.

Provocadora e audaz, usava o humor para abordar assuntos delicados e recusava classificações rígidas sobre comportamento, gênero, sexualidade e relações humanas.

Múltipla como ela só, Elke cantava, apresentava músicas em diferentes idiomas em espetáculos como “Do Sagrado ao Profano” e, nos últimos anos de vida, levou aos palcos “Elke Canta e Conta”, em que mesclava música e memórias de sua vida.

A militância política demonstrou a coragem de não se calar jamais. Durante a ditadura militar, em 1972, foi presa no Rio de Janeiro após rasgar cartazes relacionados à busca por Stuart Angel Jones, filho de Zuzu Angel, assassinado pelo regime. O episódio enfatizou sua relação com a repressão política e, segundo relatos da própria Elke, fez com que passasse a viver como apátrida.

Dez anos depois, talvez seja justamente essa a imagem que permaneça: não a de uma personagem que precisava vestir perucas para existir, mas a de uma mulher muito à frente de sua época, que descobriu cedo o quanto poderia transformar a própria existência em espetáculo.

Elke dizia que viveu cada coisa em sua idade. E viveu muitas. Foi professora, tradutora, modelo, manequim, atriz, cantora, apresentadora, jurada e, sobretudo, uma presença impossível de reproduzir. Sua contribuição não está apenas nos filmes, nos programas de televisão, nas passarelas ou nos palcos. Está igualmente na possibilidade de olhar para aquilo que causa estranhamento e, em vez de imediatamente rejeitá-lo, perguntar: o que isso pode ensinar?

As perucas foram retiradas. A maquiagem foi apagada. As roupas foram guardadas. As botas ficaram no armário. O espetáculo terminou.

Mas a personagem que ela construiu não deu adeus junto com ela.

Elke Maravilha deixou uma das imagens mais irrepetíveis da cultura brasileira — e uma pergunta que continua atual: quanto de liberdade existe quando alguém decide, simplesmente, não pedir licença para ser quem é?