
Pelo segundo ano consecutivo, o país celebra destaque no Globo de Ouro. Desta vez com ‘O Agente Secreto’, de Kleber Mendonça Filho, e a atuação premiada de Wagner Moura.
@caroline_leidiane
Em uma das noites mais emblemáticas para o audiovisual nacional, o cinema brasileiro alcançou um feito inédito no Globo de Ouro. “O Agente Secreto”, dirigido por Kleber Mendonça Filho, venceu duas categorias na 83ª edição da premiação, realizada no último domingo (11), em Beverly Hills, consolidando-se como um marco para a produção cultural do país.
O longa conquistou dois dos três prêmios para os quais concorria: Melhor Filme em Língua Não Inglesa e Melhor Ator em Filme Dramático, com Wagner Moura no papel principal. A vitória dupla amplia a presença brasileira no circuito das grandes premiações e coloca “O Agente Secreto” entre os títulos mais relevantes da atual temporada internacional. Na categoria Melhor Filme Dramático, a produção acabou superada por “Hamnet: A vida antes de Hamlet”.
Uma história de tensão, memória e sobrevivência
Ambientado nos anos finais da ditadura militar, “O Agente Secreto” acompanha a trajetória de um professor universitário perseguido pelo regime, que tenta proteger o filho enquanto se vê envolvido em uma rede de vigilância, silêncios e ameaças.
Com atmosfera de thriller político e elementos do cinema noir, o filme constrói uma narrativa marcada pela tensão psicológica e peso da memória histórica, articulando o íntimo e o coletivo em uma encenação rigorosa e sensível.
A abordagem estética e política ancora uma marca recorrente na filmografia de Kleber Mendonça Filho: a atenção às estruturas de poder, aos traumas sociais e às formas como o passado insiste em atravessar o presente. Essa combinação foi decisiva para a recepção entusiasmada da crítica internacional e para o reconhecimento da Academia do Globo de Ouro.
Uma linhagem de presença brasileira na premiação
Embora o resultado de “O Agente Secreto” represente um ponto especialmente alto, a relação do Brasil com o Globo de Ouro é atravessada por uma história mais longa. Em 1960, “Orfeu Negro” venceu como Melhor Filme Estrangeiro, tornando-se o primeiro título associado ao país a conquistar a estatueta. Décadas depois, “Central do Brasil” voltou a colocar o cinema nacional em evidência, ao garantir o prêmio de Melhor Filme Estrangeiro e levar Fernanda Montenegro à indicação de Melhor Atriz em Filme Dramático.
Mais recentemente, “Ainda Estou Aqui” manteve essa linhagem de reconhecimento internacional: indicado nas categorias de Melhor Filme em Língua Não Inglesa e Melhor Atriz em Filme de Drama, o longa rendeu a Fernanda Torres a estatueta, enfatizando a continuidade e presença brasileira na premiação.
No palco, o ator Wagner Moura destacou a importância da memória, cultura e liberdade de criação, salientando o papel do cinema como espaço de reflexão e resistência.

O resultado não se limita a uma vitória individual ou circunstancial, contudo consagra um conjunto de profissionais e reafirma a vitalidade de uma cinematografia que continua a produzir obras capazes de dialogar com o mundo sem abrir mão de identidade brasileira.
A noite do Globo de Ouro inscreve “O Agente Secreto” em um legado histórico e tonifica a vocação do cinema brasileiro para transformar questões sociais, políticas e históricas do país em narrativas de alcance universal.
Ao transpor para a tela temas como memória, autoritarismo e resistência, esses enredos fazem reverberar para o mundo um Brasil complexo, atravessado por conflitos e contradições, mas também marcado por potência criativa e talento.
Assim, o cinema nacional não apenas chega às grandes premiações, mas permanece, copiosamente como matéria brasileira que não se disfarça nem se americaniza, ocupando com naturalidade seu espaço legítimo diante do mundo.




