Da ficção à memória

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No final dos anos 1980, Nando (Johnny Massaro) e sua melhor amiga, Valéria (Bruna Linzmeyer), integram uma rede clandestina para trazer dos Estados Unidos o AZT, medicamento ainda não autorizado para comercialização no Brasil – Foto: Reprodução

A minissérie brasileira ‘Máscaras de Oxigênio Não Cairão Automaticamente’, premiada no Grande Otelo 2026, revisita a epidemia de HIV nos anos 1980 e a história de comissários que levavam AZT ao Brasil para pacientes com Aids.


@caroline_leidiane

Em meio a uma das páginas mais dolorosas da história recente do país, a minissérie “Máscaras de Oxigênio Não Cairão Automaticamente” recupera uma narrativa de solidariedade, medo e resistência durante os primeiros anos da epidemia de HIV/Aids no Brasil.

A produção da HBO Max foi uma das vencedoras do 25º Prêmio Grande Otelo do Cinema Brasileiro, realizado em 4 de agosto, no Theatro Municipal do Rio de Janeiro. A obra levou o troféu de Melhor Série Brasileira de Ficção para TV Aberta, TV Paga ou Streaming, enquanto Johnny Massaro venceu como Melhor Ator de Série de Ficção, por sua interpretação de Fernando.

Ambientada no final dos anos 1980, a trama acompanha Nando, vivido por Massaro, um comissário de bordo que recebe o diagnóstico de HIV em um período no qual a infecção ainda carregava o peso de uma sentença de morte. Diante da falta de medicamentos disponíveis no país, ele e outros personagens se envolvem em uma rede clandestina para trazer dos Estados Unidos o AZT, medicamento que começava a ser utilizado no tratamento da infecção, mas ainda não estava autorizado para comercialização no Brasil.

A pesquisa que deu origem à minissérie partiu do idealizador Thiago Pimentel, que tomou contato com relatos sobre o chamado “contrabando do bem” depois de assistir ao documentário “Carta para Além dos Muros”, de André Canto, e ler uma reportagem do jornalista Leandro Machado publicada pela BBC Brasil.

Embora personagens e situações tenham sido construídos para a ficção, o ponto de partida é histórico. O drama heroico vivido pelos comissários que traziam medicamentos para o país se insere em um período em que a resposta brasileira à epidemia era negligente diante do avanço catastrófico do HIV.

Nos primeiros anos, o governo federal demorou a tratar a Aids como uma prioridade de saúde pública, enquanto as campanhas oficiais frequentemente recorriam ao medo e ao estigma para falar sobre a doença.

Em 1985, quando o número de casos começava a crescer no país, o Ministério da Saúde ainda considerava a incidência da Aids baixa diante de outras doenças infecciosas.

A população LGBTQIAPN+, especialmente homens gays, esteve entre os grupos mais atingidos pela epidemia, além de enfrentar uma violenta onda de preconceito e estigmatização.

Com a expansão do contágio, as campanhas passaram a ocupar espaço nos meios de comunicação, mas algumas das mensagens adotadas contribuíram para associar a doença à morte e à discriminação.

“A Aids mata!” e “Quem vê cara não vê Aids” são exemplos de slogans das primeiras campanhas, posteriormente criticados pelo tom alarmista e pela falta de informações adequadas sobre prevenção e transmissão.

Foi nesse cenário de desinformação, medo e acesso limitado aos medicamentos que iniciativas paralelas ganharam importância.

Enquanto pacientes e familiares enfrentavam dificuldades para obter tratamento, redes de solidariedade passaram a buscar alternativas para conseguir medicamentos no exterior.

O gesto de transportar medicamentos estava inserido em uma realidade na qual a sociedade civil também precisou pressionar o Estado por respostas mais efetivas à epidemia.

Os números do HIV

Quatro décadas depois do período retratado pela minissérie, o cenário do HIV mudou radicalmente, principalmente em razão dos avanços científicos e da ampliação do acesso ao tratamento. Mas os números mostram que a epidemia continua sendo uma questão de saúde pública.

Segundo o Unaids, 41 milhões de pessoas viviam com HIV no mundo em 2025, enquanto 1,2 milhão de novas infecções foram registradas naquele ano. No mesmo período, 32,1 milhões de pessoas tinham acesso à terapia antirretroviral. Desde o pico global observado em 1994, as novas infecções caíram 65%.

No Brasil, o Ministério da Saúde estima que 1,1 milhão de pessoas viviam com HIV ou Aids em 2024. Desse total, cerca de 1,02 milhão, ou 93%, haviam sido diagnosticadas; 827 mil estavam em terapia antirretroviral e, entre essas pessoas, 790 mil apresentavam carga viral suprimida.

Os dados ajudam a dimensionar a trajetória da epidemia no país. Entre 1980 e setembro de 2025, foram registradas 1.679.622 pessoas vivendo com HIV ou Aids. Entre 1991 e setembro de 2025, foram notificados ou registrados 683.930 casos de infecção pelo HIV. Somente em 2024, foram notificados 39.216 novos casos, com taxa nacional de detecção de 18,4 casos por 100 mil habitantes.

A transformação mais significativa, entretanto, está no tratamento. O Brasil passou de um período em que pacientes dependiam de medicamentos trazidos clandestinamente do exterior para uma política de acesso universal pelo Sistema Único de Saúde (SUS).

A Lei nº 9.313, de 1996, garantiu a distribuição gratuita de medicamentos antirretrovirais às pessoas vivendo com HIV, consolidando uma das principais políticas públicas brasileiras de enfrentamento à epidemia.

Em 2025, o país também alcançou a eliminação da transmissão vertical do HIV como problema de saúde pública, mantendo a taxa de transmissão de mãe para bebê abaixo de 2% e a incidência da infecção em crianças abaixo de 0,5 caso por mil nascidos vivos.

Ainda assim, a história recuperada por “Máscaras de Oxigênio Não Cairão Automaticamente” permanece atual. Se, nos anos 1980, a urgência era conseguir medicamentos para pessoas que não tinham acesso ao tratamento, hoje o desafio envolve manter o diagnóstico precoce, a adesão à terapia, a prevenção e, sobretudo, combater o estigma.

Dados do Índice de Estigma 2025 do Unaids mostram que 52,9% das pessoas que vivem com HIV no Brasil já sofreram algum tipo de discriminação ao longo da vida.

A história retratada pela minissérie permite olhar para o presente e perceber o quanto a resposta à epidemia mudou ao longo das últimas décadas. Atualmente, o SUS oferece gratuitamente preservativos internos (femininos) e externos (masculinos), além de testes rápidos para HIV, realizados de forma sigilosa. O diagnóstico e o tratamento também avançaram, transformando uma realidade lesionada por medo e acesso restrito aos medicamentos em uma política pública de prevenção, cuidado e acompanhamento.

Ao recuperar uma história de emergência e solidariedade dos anos 1980, “Máscaras de Oxigênio Não Cairão Automaticamente” revisita um período golpeado pela desinformação, pelo estigma e pela dificuldade de acesso ao tratamento. Ao mesmo tempo, coloca em perspectiva as conquistas alcançadas desde então e lembra que, apesar dos avanços da ciência e das políticas públicas, o preconceito contra pessoas que vivem com HIV ainda permanece.