Convite à pausa no feed infinito

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Aviso exibido pelo Instagram desde junho recomenda que usuários façam uma pausa durante a rolagem do feed - Foto: Reprodução/Instagram

Aviso exibido durante a navegação no Instagram sugere que usuários interrompam a rolagem de conteúdo e coloca em evidência o tempo de tela e os mecanismos que estimulam o consumo contínuo de postagens.


@caroline_leidiane

No início deste mês de junho, o Instagram passou a exibir uma mensagem sugerindo que os usuários façam uma pausa durante a navegação no feed. O aviso aparece na tela com a pergunta “Que tal fazer uma pausa?”, seguida da recomendação para que a pessoa interrompa a rolagem por alguns instantes antes de continuar consumindo conteúdo. Para quem prefere seguir navegando, a plataforma oferece a opção “Carregar mais posts”.

A novidade surge de forma paradoxal em uma rede midiática concebida para prolongar a permanência dos usuários. Desde a década passada, as principais mídias sociais passaram a adotar a chamada rolagem infinita, mecanismo que elimina interrupções naturais na navegação ao carregar continuamente novas publicações na tela. O modelo se consolidou como uma das principais estratégias para ampliar o engajamento nas plataformas digitais.

A mudança ocorre em um contexto de elevado consumo virtual. Segundo o relatório “Digital 2025: Brazil”, produzido pela DataReportal, os brasileiros passam, em média, 9 horas e 13 minutos por dia conectados à internet, um dos índices mais altos do mundo.

O debate sobre os impactos desse formato ganhou evidência nos últimos anos. Um dos críticos mais conhecidos da ferramenta é o designer norte-americano Aza Raskin, apontado como criador da rolagem infinita (infinite scroll) em 2006.

Em entrevistas posteriores, Raskin afirmou se arrepender do recurso ao observar como ele passou a ser utilizado pelas plataformas para prolongar a atenção dos usuários e aumentar o tempo de permanência nos aplicativos.

A iniciativa não surge isoladamente. Em dezembro de 2021, a Meta lançou nos Estados Unidos e em outros países o recurso “Take a Break” (“Faça uma Pausa”), disponibilizado oficialmente no Brasil em fevereiro de 2022.

A funcionalidade permite que os usuários programem lembretes para interromper a navegação após determinado período de uso, marcando uma das primeiras tentativas da empresa de incorporar intervalos à experiência da plataforma.

O novo aviso exibido no feed do Instagram não impõe limites nem interrompe automaticamente a navegação. Sua presença, porém, sinaliza uma mudança expressiva na forma como as próprias plataformas passaram a encarar o período excessivo de exposição às telas.

Brasileiros passam, em média, 9 horas e 13 minutos por dia conectados à internet, segundo o relatório ‘Digital 2025: Brazil’ – Foto: Reprodução

Por que fazer uma pausa?

A sugestão exibida pelo Instagram dialoga com uma inquietação crescente entre pesquisadores que estudam atenção e comportamento digital.

Professora da Universidade da Califórnia em Irvine, a psicóloga americana Gloria Mark é autora do livro “Attention Span”, publicado em 2023. Segundo a pesquisadora, intervalos regulares durante o uso de dispositivos, como computadores e smartphones, ajudam a reduzir a fadiga mental e a recuperar a capacidade de concentração, enquanto períodos prolongados de exposição a estímulos digitais tendem a aumentar a sensação de esgotamento cognitivo e a tornar as distrações mais frequentes.

No caso das redes sociais, o foco dos pesquisadores é especialmente voltado para a chamada rolagem infinita. Publicado em 2023, o estudo “The Loop and Reasons to Break It: Investigating Infinite Scrolling Behaviour in Social Media Applications and Reasons to Stop” (em tradução livre, “O Ciclo Vicioso e os Motivos para Interrompê-lo: Investigando o Comportamento de Rolagem Infinita em Aplicativos de Mídia Social e Razões para Parar”) constatou que uma parcela significativa dos usuários permanece navegando por muito mais tempo do que havia planejado inicialmente.

Os autores do estudo observaram que a sucessão contínua de conteúdos reduz os chamados “pontos de parada”, momentos em que a pessoa normalmente decidiria encerrar a atividade.

O surgimento desse tipo de alerta revela uma das contradições mais marcantes da era digital. As mesmas plataformas que passaram mais de uma década aperfeiçoando algoritmos, notificações e sistemas de recomendação para ampliar o tempo de permanência dos usuários agora criam mecanismos destinados a sugerir pausas.

O gesto não altera a lógica da rolagem infinita nem interrompe o fluxo contínuo de conteúdos, mas carrega um significado simbólico: se até as empresas que transformaram a atenção em um dos ativos mais valiosos da economia digital passaram a recomendar interrupções, é porque o tempo dedicado às telas deixou de ser apenas uma métrica de sucesso e passou a ocupar o centro das reflexões sobre os limites da vida conectada.