Confetes e cinzas: A coragem de não ser perfeito

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Alberto Martins Cesário, professor e escritor - Foto: Reprodução

Alberto Martins Cesário, professor e escritor

Entre o confete das expectativas e as cinzas da realidade, existe um professor tentando acertar e descobrindo, quase sempre tarde demais, que ensinar não é desfilar sem erros, mas ter coragem de continuar na avenida mesmo quando a fantasia rasga antes do primeiro sinal.

Dizem que professor tem que saber tudo.
Eu, particularmente, mal sei onde deixei a caneta vermelha.

Tudo começa na segunda-feira, um início acompanhado daquela promessa silenciosa que ninguém escreve no plano de aula, mas que pesa mais que o caderno de chamadas… “desta vez eu vou acertar tudo”. É como se o professor tivesse que entrar na sala de aula com a segurança de um cirurgião e a leveza de um mágico. Operar sem errar e, de preferência, tirar coelhos pedagógicos da cartola entre uma aula e outra.

Mas a escola não é hospital e muito menos circo, embora, às vezes, tenha fila, plateia e emergência ao mesmo tempo.

Vivemos a era da vitrine, professores impecáveis em redes sociais, murais impecáveis, planners impecáveis, metodologias impecáveis, tudo tão perfeito que dá vontade de perguntar onde esconderam os dias ruins. Porque eles existem, ah, se existem.

Costumam vir disfarçados de segunda-feira, depois de um feriado prolongado, ou como a caneta sem tinta que falha na terceira palavra escrita no quadro e até como aquele aluno que pergunta exatamente aquilo que você não estudou na noite anterior.

E então chega o Carnaval.

O país inteiro veste máscara, mas o professor… o professor já vinha ensaiando essa fantasia há meses, aquela fantasia de quem dá conta, de quem sabe tudo, de quem não cansa, não falha, não se perde, não esquece o nome do aluno no meio da explicação.

No desfile invisível da educação, a gente samba com boletins, dança com planilhas e equilibra expectativas em cima de um salto alto invisível chamado “profissionalismo”.

Só que toda máscara tem prazo de validade, ela costuma vencer numa quinta-feira qualquer, depois do recreio.

A cultura da perfeição adoece, é algo que vem silenciosamente, como infiltração em parede antiga, primeiro vem a mancha pequena: “não posso errar”, depois a rachadura: “se eu errar, vão me julgar” e quando vemos, a parede inteira está úmida e ninguém lembra mais a cor original. O professor vai ficando cinza por dentro antes mesmo de chegar a Quarta-feira de Cinzas.

E que dia curioso esse, país ainda cheira a confete, mas o calendário já sussurra para a gente, “recomece”.

Na escola, a Quarta-feira de Cinzas é quase simbólica demais, é quando a gente percebe que a maquiagem pedagógica escorreu e o planejamento perfeito encontrou a realidade imperfeita, vemos que o aluno não leu o texto, que a impressora não funcionou, que a aula brilhante virou explicação improvisada no quadro rachado da sala 5.

E tudo bem.

Tudo bem errar o exemplo, perder a linha e depois pedir desculpas, admitir que não sabe e descobrir junto.

Há uma poesia secreta no professor que diz “não sei, vamos ver?”. É a poesia da humanidade… o aluno não precisa de um oráculo de jaleco invisível ele precisa de alguém que mostre que aprender é também tropeçar com dignidade e que o erro não é um buraco no caminho, mas o próprio chão onde o conhecimento cria raiz.

Os cursos de pedagogia ensinam teorias, metodologias, correntes filosóficas e siglas que cabem em provas. Mas raramente ensinam o momento em que o professor entra no banheiro, olha o próprio reflexo e pensa, hoje eu não fui tão bem e volta para a sala, com um sorriso para a aula seguinte. Isso não cabe em manual, é resistência em estado bruto.

Ensinar é uma profissão onde a falha é pública e o acerto, muitas vezes, silencioso, isso porque ninguém vê o aluno que finalmente entendeu depois de três semanas, mas todo mundo vê quando o professor erra a data na lousa. É como se o erro tivesse megafone e o acerto, sussurro.

Talvez por isso a gente precise falar mais sobre a beleza de não ser perfeito. O professor perfeito é uma lenda urbana, dessas que assustam iniciantes e fazem veteranos rirem com cansaço nos olhos, um professor real é aquele que tenta, se frustra e refaz. Professores assim, dão risada do próprio tropeço e aprende com quem ensina e ensina enquanto aprende.

Entre o confete do Carnaval e as cinzas da quarta-feira existe um intervalo precioso, o momento em que a gente pode tirar a máscara e continuar dançando, mesmo sem música.

Na educação, esse intervalo é diário, eles acontecem quando o plano falha e a relação salva, o conteúdo escapa e o vínculo permanece. Acontecem quando o professor percebe que não é máquina de acertos, mas artesão de tentativas.

E talvez seja isso que sustente a escola todos os dias, não a perfeição que nos vendem, mas a imperfeição que nos humaniza.

No fim das contas, ensinar não é desfilar sem tropeçar, é continuar caminhando depois do tropeço, ajeitando a fantasia amassada e seguindo, mesmo quando o brilho já caiu no chão.

Porque se o professor só pudesse existir quando estivesse perfeito… quem é que pisaria na sala de aula na quinta-feira de manhã?