Campanha da Fraternidade 2026 coloca moradia digna no centro do debate social 

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Ricardo Gutierre, coordenador da Campanha da Fraternidade na Diocese de Votuporanga, veste a camiseta da campanha e se mantém junto ao monumento inaugurado em Aparecida, que retrata o tema deste ano - Foto: Arquivo Pessoal 

Com o tema ‘Fraternidade e Moradia’ e o lema ‘Ele veio morar entre nós (Jo 1,14)’, iniciativa propõe ações permanentes nas dioceses e paróquias diante do aumento do déficit habitacional no país.


@caroline_leidiane

A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) lança, neste ano, a Campanha da Fraternidade com o tema “Fraternidade e Moradia” e o lema “Ele veio morar entre nós (Jo 1,14)”, propondo que a Quaresma seja tempo de conversão também social.

O objetivo central é promover a moradia digna como prioridade e direito, em diálogo com outros bens e serviços essenciais, reconhecendo a habitação como condição básica para a vida plena.

O tema dialoga com um cenário que se agrava demasiadamente ano após ano. De acordo com o Censo 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 16.390.815 pessoas — 8,1% da população brasileira — viviam em 12.348 favelas e comunidades urbanas. Em comparação com 2010, houve aumento de quase cinco milhões de moradores nesses territórios, que praticamente dobraram em quantidade no período. Os números evidenciam a dimensão estrutural do déficit habitacional e reforçam a urgência do debate.

Segundo o assessor do Setor de Campanhas da CNBB, Padre Jean Poul, a proposta da Igreja é trazer ao centro temas que atravessam a vida cotidiana, mas nem sempre recebem a devida atenção pública. Ele ressalta que a moradia é um direito humano fundamental, garantido nos tratados internacionais e na Constituição brasileira, e também um direito que a tradição cristã reconhece como expressão da dignidade da pessoa.

Na Diocese de Votuporanga, o coordenador da Campanha da Fraternidade, Ricardo Gutierre, explica que a CNBB orienta dioceses e paróquias a transformar a reflexão em processos permanentes de incidência social.  

Entre as ações previstas estão a criação de observatórios locais de moradia e vulnerabilidade urbana, com levantamento de áreas de déficit habitacional, ocupações e famílias em situação de risco. Em Votuporanga, isso inclui o mapeamento de bairros periféricos e municípios vizinhos. 

Conforme a coordenação diocesana, a campanha também incentiva a participação das pastorais sociais em Conselho Municipal de Habitação (CMH), Assistência Social, Urbanismo e Direitos Humanos, de modo que a Igreja esteja presente na formulação e no acompanhamento de políticas públicas.  

A proposta é que o impulso quaresmal não se restrinja a ações pontuais, mas consolide uma presença contínua no debate urbano. 

Entre os fatores que explicam o agravamento do déficit habitacional, Gutierre aponta, conforme análises urbanísticas e dados oficiais, o crescimento urbano acelerado e desigual, a baixa oferta de moradia popular e a especulação imobiliária. Soma-se a esse cenário a precarização do trabalho, que limita o acesso ao financiamento e ao aluguel formal, a insuficiência de políticas públicas voltadas à prevenção e ao gerenciamento de desastres naturais e a persistente falta de regularização fundiária. 

Em Votuporanga, por exemplo, o avanço de condomínios fechados e loteamentos de alto padrão pressiona o preço da terra, dificultando o acesso das famílias de baixa renda à moradia formal. 

Campanha da Fraternidade 2026 traz como tema ‘Fraternidade e Moradia’ e convida a comunidade a refletir e agir pelo direito à moradia digna para todos – Foto: Divulgação

A campanha também orienta a promoção de formações sobre direito à cidade e políticas habitacionais, voltadas a lideranças paroquiais, agentes de pastoral e jovens. A qualificação do debate é vista como fundamental em cidades médias, onde a expansão urbana desordenada e os loteamentos irregulares se tornam cada vez mais frequentes. 

Em consonância com a Doutrina Social da Igreja, a defesa da moradia como “direito divino” é compreendida em sentido teológico, vinculada à dignidade humana. No campo prático, essa compreensão se traduz em incidência política, produção de subsídios e articulação com movimentos sociais e entidades civis.  

A Igreja não substitui o Estado, mas fortalece iniciativas que buscam garantir direitos, incluindo assessoria jurídica popular e mediação de conflitos fundiários. 

Outro eixo central é a abordagem da população em situação de rua, dos moradores de cortiços e assentamentos precários. A campanha propõe escuta e protagonismo dessas pessoas, evitando linguagem estigmatizante e interpretações que culpabilizem a pobreza.  

De acordo com as diretrizes nacionais, o foco deve recair sobre as causas estruturais da exclusão. A proposta é promover autonomia, acesso a serviços e inclusão social. Essas ações devem ocorrer em parceria com políticas públicas, como Consultórios na Rua, Centros de Referência Especializados para População em Situação de Rua, Defensorias Públicas, universidades e movimentos de rua. 

Nas comunidades cristãs locais, o lema “Ele veio morar entre nós (Jo 1,14)” inspira iniciativas concretas, como mutirões de construção e reforma, campanhas de arrecadação de materiais, apoio a processos de regularização fundiária e fortalecimento de redes de solidariedade para famílias despejadas ou em áreas de risco.  

Paróquias são chamadas a se tornarem espaços de acolhida e articulação, abrindo suas estruturas para reuniões, formações e ações conjuntas com universidades e movimentos por moradia. 

Ao eleger a moradia como tema, a Campanha da Fraternidade 2026 desloca a discussão do campo abstrato para o chão das cidades. Em um país onde milhões ainda vivem sem segurança jurídica, infraestrutura básica ou teto adequado, a proposta é que fé e compromisso social caminhem juntos, afirmando a casa como lugar de dignidade, pertencimento e, acima de tudo, necessidade humana.