Por Alberto Martins Cesário, professor e escritor
Quando uma criança “não para”, a escola costuma parar para puni-la. Mas e se o comportamento que incomoda não fosse o problema, e sim o sintoma mais honesto de algo que o mundo adulto insiste em não escutar?
Toda escola tem sua criança-sirene, sabe aquela que anuncia o início do dia antes mesmo do primeiro sinal tocar. Ela chega correndo pelo corredor, derruba a mochila de alguém, responde antes da pergunta terminar e, quando senta, isso se sentar, já desmontou metade do planejamento alheio. É comum que os adultos a descrevam em frases curtas, quase sempre ditas em tom de cansaço, “não para”, “não obedece”, “não respeita limites”, uma lista de nãos que diz muito mais sobre nós do que sobre ela.
Aprendi cedo, embora nunca definitivamente, que a indisciplina é uma língua estrangeira. A criança fala, mas o adulto, impaciente, insiste em traduzir mal. Onde ela diz “não estou conseguindo”, ouvimos “não quer”, se ela fala “estou com medo”, anotamos “desafiadora”, quando ela pede colo com o corpo inteiro, oferecemos advertência por escrito, em três vias, devidamente protocoladas.
Nos cursos de pedagogia, ninguém nos conta que o comportamento é um texto mal pontuado, cheio de interrupções, às vezes escrito em letras grandes demais e que ler esse texto exige mais do que técnicas, exige disponibilidade emocional, algo que anda em falta nos almoxarifados da educação pública. Temos formulários, planilhas, relatórios, mas, escuta, quase sempre, só quando sobra tempo, o que raramente acontece entre uma cobrança e outra.
A indisciplina costuma ser tratada como defeito de fábrica, algo a ser consertado rapidamente para que a aula “ande” e, convenhamos, o desejo de normalidade é tentador. Uma sala silenciosa, alunos sentados, conteúdos avançando em ordem cronológica, como num livro bem diagramado. O problema é que crianças não são parágrafos, são notas de rodapé que insistem em ocupar a página inteira.
Lembro de um menino que não conseguia ficar cinco minutos sentado, andava pela sala como quem procura algo que esqueceu em casa. A cada intervenção adulta, sua inquietação crescia, como massa de pão deixada tempo demais fora da forma. Um dia, cansado de pedir silêncio, perguntei, “o que você está tentando me dizer?”
Ele não respondeu com palavras, sentou no chão e começou a chorar, descobri depois que dormia mal, que o pai havia saído de casa, que a televisão ficava ligada a noite inteira. Nada disso constava no registro de ocorrência, mas tudo isso explicava o corpo que não parava.
É mais fácil rotular do que sustentar perguntas, o rótulo dá a falsa sensação de controle. “Hiperativo”, “opositor”, “problema de comportamento” são palavras que organizam o discurso adulto e desorganizam ainda mais a criança. Não que diagnósticos não sejam importantes, às vezes são até fundamentais, mas o uso apressado deles tem servido mais para aliviar a culpa institucional do que para cuidar da infância.
A escola contemporânea vive pressionada por resultados, índices, metas. Queremos crianças calmas em um mundo barulhento, concentradas em uma sociedade fragmentada, obedientes em tempos de adultos confusos, ai exigimos autocontrole de quem ainda está aprendendo a nomear emoções que nós mesmos não sabemos lidar. E quando elas falham, chamamos de indisciplina aquilo que talvez seja apenas coerência infantil diante de um mundo incoerente.
Não escrevo isso do alto de uma torre moral, escrevo do chão da sala de aula, onde já errei leituras, levantei a voz quando deveria ter baixado, puni quando precisava acolher, a diferença é que, com o tempo, aprendi a desconfiar do incômodo.
Quando uma criança desorganiza a aula, quase sempre está organizando uma denúncia silenciosa, algo ali não está funcionando nela, em nós, ou no espaço.
A indisciplina é o espelho que a escola tenta cobrir com um pano pedagógico elegante, mas o reflexo insiste e mostra nossas ausências, nossos excessos, nossas contradições. Mostra o adulto cansado que quer ordem porque perdeu o fôlego de escutar ou a instituição que prefere silêncio ao vínculo, controle ao cuidado.
Ainda assim, seguimos. Porque há professores que, mesmo exaustos, escolhem escutar antes de punir, entendem que educar não é domesticar gestos, mas sustentar processos, isso porque sabem que, às vezes, a criança que mais atrapalha é a que mais precisa ser vista, não como problema, mas como mensagem.
Esses professores raramente aparecem nos relatórios oficiais, eles não cabem nos gráficos, não rendem boas fotos para campanhas institucionais, apenas, estão ali, no intervalo, ajoelhados ao lado de uma carteira torta, tentando decifrar um olhar que evita o quadro, ficam no fim do turno, refazendo mentalmente a aula que não funcionou e se perguntando, em silêncio, onde poderiam ter sido mais humanos.
São eles que percebem que o excesso de movimento pode ser ansiedade, que o desafio constante pode ser um tipo de defesa, que o silêncio absoluto também grita. São eles que desconfiam das respostas fáceis e dos encaminhamentos automáticos, não porque rejeitem ajuda, mas porque sabem que nem toda inquietação é doença e que nem todo conflito se resolve com um carimbo.
Escutar dá trabalho e exige tempo, algo que a escola contemporânea trata como luxo. Cobra uma presença inteira, num cotidiano que fragmenta o professor em mil tarefas menores, escutar, muitas vezes, significa admitir que não sabemos e talvez seja essa a parte mais difícil, aceitar que ensinar não é ter sempre respostas, mas sustentar perguntas sem garantia de solução.
Quando um professor escolhe escutar, ele se expõe correndo o risco de falhar, de se frustrar, de não ver resultados imediatos. Mas também cria brechas por onde a criança pode, finalmente, entrar sem precisar arrombar a porta com o corpo. Nessas brechas, a escola deixa de ser campo de batalha e se aproxima, ainda que timidamente, de um espaço de encontro.
Não se trata de romantizar o caos nem de negar os limites necessários, toda escola precisa de regras, como toda convivência humana. O que está em jogo é outra coisa, os limites que servem para proteger ou apenas para silenciar a ordem que organiza a vida e esconde aquilo que não queremos ver.
Talvez educar seja isso, aprender a ler os gestos antes de corrigi-los, aceitar que nem toda aula será controlável e que nem toda criança aprenderá do mesmo modo. Talvez seja reconhecer que, quando uma criança desorganiza a sala, ela nos oferece, ainda que de forma rude, a chance de reorganizar o sentido do que fazemos ali todos os dias.
E, no fundo, a pergunta permanece, incômoda como deve ser…
…o que a indisciplina revela sobre a escola que construímos e sobre os adultos que escolhemos ser dentro dela?





