Por Alberto Martins Cesário, professor e escritor.
Entre planos de aula impecáveis e salas de aula imprevisíveis, o professor aprende que ensinar vai muito além do que está no papel. Nesta crônica, um olhar sensível, irônico e humano sobre aquilo que os cursos de pedagogia não ensinam, mas que a escola revela todos os dias.
Na véspera do primeiro dia de aula, o professor costuma viver um romance, daqueles antigos, de capa dura, cheirando a papel novo e promessa. O planejamento está ali, impresso, grifado, numerado, com objetivos claros, habilidades alinhadas, metodologias ativas, avaliação formativa e até um tempo reservado para “socialização das aprendizagens”. Tudo muito bonito, mas também tudo muito… teórico.
O problema é que, no dia seguinte, esse romance encontra a sala de aula e a sala de aula não gosta de romances, ela prefere improviso, drama, suspense e, às vezes, uma comédia pastelão.
O planejamento perfeito costuma morrer por volta do segundo sinal, muitas vezes, antes disso. Ele não resiste ao aluno que chega chorando porque brigou em casa, à criança que esqueceu o caderno, ao adolescente que não dormiu porque passou a noite cuidando do irmão menor, ao celular que vibra escondido no bolso, à cadeira que falta, ao ventilador que não funciona, ao barulho do corredor, à vida que entra sem pedir licença.
Na faculdade, ninguém nos contou isso com clareza, eu pelo menos, enquanto cursava pedagogia ouvia os professores falarem de Piaget, Vygotsky, Wallon, muitas teorias, gráficos, fases do desenvolvimento, tudo importante, claro. Mas esqueceram de avisar que, na prática, ensinar é como tentar ler poesia no meio de uma feira livre e ainda assim insistir.
Ensinar, descobrimos depois, não é seguir o plano à risca. É rasgá-lo com delicadeza quando necessário percebendo que aquela aula brilhante sobre interpretação de texto não vai acontecer porque metade da turma está emocionalmente em outro continente, é trocar a atividade impressa por uma conversa, transformar a leitura em abrigo.
A leitura, aliás, raramente acontece como nos livros didáticos, ela não entra em fila, não levanta a mão, não responde conforme o gabarito, às vezes, ela chega torta, mal compreendida, atravessada por silêncios. Outras vezes, ela acontece num comentário inesperado, numa pergunta simples, numa frase lida em voz alta que ecoa mais do que cem exercícios corrigidos.
A sala de aula é um organismo vivo, respira, adoece, se rebela, há dias em que o professor sai vencedor, achando que acertou tudo, já em outros saímos derrotado, carregando a sensação de que falou sozinho para paredes inquietas. E há a maioria dos dias, aqueles em que nada foi exatamente como o planejado, mas algo, quase invisível aconteceu.
Os cursos de pedagogia não contam que o professor vai aprender mais no recreio do que em muitos seminários, não falam que ensinar exige um tipo específico de coragem, a de continuar mesmo quando o mundo parece conspirar contra a aprendizagem e quase não comentam que o professor vira, sem perceber, um especialista em leitura de olhares, em interpretação de silêncios, em decifrar comportamentos que não cabem em relatórios.
Vivemos um tempo em que se cobra da escola resultados rápidos, números, índices, gráficos ascendentes. Pouco se fala do cansaço docente, do adoecimento, da solidão de quem tenta ensinar em meio ao caos, não comentam da poesia que sustenta o professor quando falta quase tudo, aquela poesia miúda, feita de pequenas vitórias como a de um aluno que diz “professor, hoje eu entendi”.
É essa poesia que mantém a escola de pé, não o planejamento perfeito, embora ele ajude. O que sustenta a educação é a capacidade quase heroica de adaptar, de recomeçar, de transformar frustração em tentativa e o professor segue porque sabe que ensinar nunca foi sobre controle absoluto, mas sobre presença.
Às vésperas de mais um ano letivo, muitos professores revisam seus planos com esperança e medo. Sabem que a realidade vai bagunçar tudo e mesmo assim planejam. Talvez porque, no fundo, planejar seja um ato de fé, uma forma de dizer que apesar de tudo, eu ainda acredito.
E você, leitor, quando pensa em educação, confia mais no planejamento perfeito que cabe nos papéis ou no professor de carne, osso e cansaço que, mesmo sem garantias, entra em sala todos os dias para ensinar gente antes de ensinar conteúdo? Afinal, o que realmente educa, o que foi planejado ou quem permanece quando tudo sai do script?




