Alberto Martins Cesário, professor e escritor
Tem aluno que chega na escola sem caderno, sem lápis e, às vezes, sem acreditar que consegue aprender. E, olha, não estou falando de dificuldade com sílabas complexas ou encontros consonantais. Estou falando de algo mais fundo, mais silencioso, mais difícil de diagnosticar em qualquer avaliação padronizada, estou tentando falar sobre a ausência de alguém que tenha dito, em algum momento da vida, “você consegue”.
Outro dia, no meio de uma tarde barulhenta dessas em que a sala parece mais um terminal de rodoviária em dia de feriado, pedi que escrevessem uma frase simples. Coisa básica, daquelas que a teoria diz que, naquele ponto do ano, já deveria fluir como água de torneira bem aberta, mas a água, ali, vinha em gotas.
Foi quando notei o Leo. Nome fictício, história real. Lápis parado, olhar perdido, corpo presente por obrigação, cheguei perto, fiz aquele movimento clássico de professor que tenta não parecer invasivo, mas já invadindo e perguntei:
— Não vai escrever?
Ele deu de ombros. Um gesto pequeno, mas carregado de mundo.
— Eu não sei.
A frase, curta e seca, parecia mais um veredito do que uma dúvida.
Agora me diga, como é que a gente alfabetiza alguém que já aprendeu, antes de qualquer letra, que não é capaz?
A gente estuda métodos, discute abordagens, mergulha em teorias como construtivismo, consciência fonológica, práticas de letramento, tudo importante, necessário, indispensável. Mas, no chão da escola, entre um recreio e outro, existe uma camada que não aparece nos livros, algo chamado vínculo. Esse fio invisível que, quando bem tecido, sustenta até o que parecia impossível.
Leo não precisava, naquele momento, de uma explicação sobre sílabas, o que ele precisava era de uma aposta.
Sentei ao lado dele, não como quem ensina, mas como quem fica.
— Vamos tentar juntos?
Ele me olhou desconfiado, não era desinteresse, era cautela de quem já se frustrou antes.
E ali, no meio do caos, porque alfabetizar é sempre um pouco caótico, apesar dos planejamentos bem diagramados, começamos. Letra por letra, som por som. Um trabalho de formiguinha com diploma de esperança.
A sala, ao redor, seguia no seu próprio roteiro, um pedindo para ir ao banheiro pela terceira vez, outro reclamando que o colega respirava alto demais, uma borracha voando com destino desconhecido. E eu ali, tentando construir uma ponte sobre um abismo que ninguém vê.
Porque é isso que a gente faz, no fim das contas, construímos pontes onde só existem silêncios.
Leo escreveu. Não foi uma frase perfeita, muito menos um primor gramatical digno de concurso. Mas escreveu, e, mais importante, olhou para aquilo como quem vê algo nascer.
— Fui eu que fiz?
Perguntou, quase sussurrando, como se o feito pudesse escapar se falasse alto demais.
— Foi você, sim.
E naquele instante, veja só, não era só uma frase no caderno, era uma pequena reconfiguração de mundo.
A gente fala muito sobre aprendizagem, mas fala pouco sobre o que vem antes dela, antes de uma letra, vem o olhar, o que antecede a escrita é o reconhecimento e o antecessor dos conteúdos, é o vínculo.
Só que isso não cabe em planilhas, não vira gráfico bonito em reunião pedagógica e muito menos aparece no relatório que precisa ser entregue até sexta.
Enquanto isso, as cobranças chegam com a pontualidade de sempre, metas, índices, avaliações externas. Como se aprender fosse um processo industrial, bastando ajustar a máquina e a gente ali, tentando explicar, às vezes só para si mesmo, que criança não é linha de produção.
Tem criança que precisa, antes de tudo, reaprender a existir com algum valor.
E isso leva tempo, um tempo que o sistema não tem, que o calendário não prevê. Tempo que o professor inventa ficando um pouco mais depois da aula, olhando nos olhos, repetindo, com paciência quase teimosa, aquilo que o mundo já negou muitas vezes.
E, no meio disso tudo, a gente cansa. Um cansaço que não é só físico, embora também seja, mas simbólico. Cansamos de remar contra uma maré que insiste em tratar o essencial como detalhe.
Mas, ainda assim, a gente fica.
Porque, de vez em quando, um Leo escreve uma frase e, quando isso acontece, a gente lembra por que começou.
Talvez alfabetizar não seja, no fundo, ensinar letras. Talvez seja ajudar alguém a acreditar que pode, finalmente, juntar pedaços de si e formar sentido.
E fico pensando, enquanto recolho cadernos e junto o que sobrou do dia, quantos alunos não aprenderam ainda não por falta de método, mas por falta de alguém que acreditasse neles antes?
E, mais inquietante ainda… quem foi que, um dia, acreditou na gente primeiro?





