
Após décadas associado aos malefícios do tabagismo, o cigarro reaparece em editoriais, capas de revistas, séries e redes sociais como elemento de estilo e rebeldia. Enquanto a cultura visual recupera uma iconografia do século passado, indicadores de saúde mostram que o número de fumantes voltou a crescer no Brasil.
@caroline_leidiane
Durante décadas, o cigarro deixou de representar sofisticação para se transformar em um dos maiores símbolos dos danos provocados pela indústria do tabaco. A imagem de artistas envoltos por fumaça, campanhas publicitárias elegantes e personagens que fumavam em cena parecia confinada ao século passado. Nos últimos anos, porém, essa iconografia voltou a ocupar espaço na moda, no entretenimento e nas redes sociais.
Diferentemente do que ocorria no século XX, quando a publicidade era o principal motor desse imaginário, o retorno acontece por outros caminhos. Editoriais de moda, videoclipes, séries, filmes e publicações digitais passaram a utilizar o cigarro como recurso estético associado à introspecção, ao mistério, à rebeldia e a uma ideia de autenticidade.
O contraste chama atenção justamente porque esse movimento surge em meio à consolidação da estética “clean girl”, tendência que valoriza maquiagem discreta, aparência natural, alimentação equilibrada e rotinas voltadas ao autocuidado. Em oposição a esse ideal de perfeição saudável, o cigarro ressurge como um símbolo de transgressão cuidadosamente encenado.
Essa associação, entretanto, está longe de ser inédita. Durante boa parte do século XX, fumar foi incorporado ao discurso da emancipação feminina. Em uma época em que mulheres eram socialmente desencorajadas — e, em muitos ambientes, até proibidas — de fumar em público, a indústria do tabaco apropriou-se dessa pauta para apresentar o cigarro como representação de liberdade, independência e ruptura de convenções. Décadas depois, o significado muda novamente: permanece a ideia de rebeldia, agora moldada pela lógica dos algoritmos e da hiperexposição midiática.

Na década de 1990, esse imaginário ganhou nova configuração com o chamado “heroin chic”, tendência popularizada por modelos como Kate Moss. Silhuetas extremamente magras, semblantes apáticos, maquiagem propositalmente imperfeita, cenários de atmosfera sombria e o cigarro como elemento recorrente compunham uma estética que, posteriormente, passou a ser criticada por romantizar transtornos alimentares e o consumo de drogas. Hoje, parte desse repertório visual reaparece remodelado para o ambiente digital.
O movimento ganhou projeção por meio de figuras de enorme alcance nas redes sociais. Em abril, a modelo, empresária e influenciadora Hailey Bieber, seguida por mais de 57 milhões de pessoas no Instagram e frequentemente associada ao universo das “clean girls”, apareceu fumando em um ensaio para a revista Interview. Dois meses antes, Kylie Jenner, empresária do setor de cosméticos, caçula da família Kardashian e uma das cinco pessoas mais seguidas do mundo, estampou a capa da revista Vanity Fair acendendo um cigarro.
Também ganharam repercussão fotografias da cantora espanhola Rosalía, vencedora de múltiplos prêmios Grammy Latino, presenteando a artista britânica Charli XCX, responsável pelo álbum “Brat”, um dos maiores fenômenos da cultura pop em 2024, com um buquê de cigarros.

Paralelamente, hashtags como #cigarettegirl e #smokepose acumulam milhões de visualizações ao transformar o tabaco em elemento de composição estética.
O audiovisual acompanha esse movimento. Séries de grande alcance passaram a utilizar o cigarro como recurso narrativo, associado à sensualidade, à inquietação ou à vulnerabilidade emocional de seus personagens. Em “Euphoria”, a fumaça integra a construção visual de diversas cenas.
Já “Stranger Things” foi alvo de críticas pelo elevado número de sequências de tabagismo. Um levantamento da organização norte-americana Truth Initiative identificou 262 cenas com personagens fumando apenas na segunda temporada da série, contra 182 registradas na primeira. Após a repercussão, a Netflix anunciou que reduziria a presença de cigarros em produções originais destinadas ao público com classificação indicativa inferior a 14 anos, mantendo exceções apenas para retratações historicamente justificadas.

O retorno dessa iconografia também pode ser compreendido pela perspectiva das ciências sociais. A antropóloga britânica Mary Douglas (1921-2007), referência nos estudos sobre cultura e consumo, defendia que objetos cotidianos carregam significados demasiadamente ritualísticos.
Segundo demonstrou o sociólogo francês Pierre Bourdieu (1930-2002), hábitos de consumo comunicam pertencimento, distinção social e identidade. Sob essa ótica, o cigarro deixa de aparecer apenas como um produto derivado do tabaco e volta a circular como um signo cultural, apesar do amplo conhecimento sobre seus efeitos nocivos.
Quando a estética encontra os números
O reaparecimento do cigarro na cultura visual coincide com uma mudança preocupante nos indicadores de saúde pública. Após quase duas décadas de queda contínua, o Brasil voltou a registrar crescimento no número de fumantes adultos.
Dados preliminares do Vigitel 2024, sistema de vigilância do Ministério da Saúde, apontam que a proporção de brasileiros que fumam cigarro convencional passou de 9,3% em 2023 para 11,6% em 2024, um aumento de 25% em apenas um ano.
Na avaliação de Mônica Andreis, psicóloga e diretora-executiva da ACT Promoção da Saúde, organização da sociedade civil que atua na prevenção do tabagismo e na defesa de políticas públicas de controle do tabaco, essa reversão resulta de um conjunto de fatores. Entre eles estão a interrupção de campanhas nacionais de conscientização sobre os riscos do cigarro e a ausência de reajustes no preço mínimo do produto entre 2016 e 2024, o que ampliou sua acessibilidade ao consumidor.
O Instituto Nacional de Câncer (INCA) também chama atenção para a atratividade dos produtos aromatizados, historicamente utilizados pela indústria tabagista para estimular a experimentação entre adolescentes e jovens. Segundo a instituição, sabores e aromas reduzem a percepção dos riscos e favorecem a iniciação ao consumo.
Os efeitos do tabagismo, contudo, permanecem amplamente documentados. A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que o tabaco seja responsável por mais de oito milhões de mortes por ano em todo o mundo, mantendo-se entre as principais causas evitáveis de adoecimento e mortalidade.
O Brasil é reconhecido internacionalmente pelas políticas de controle do tabaco, como a proibição da publicidade, a adoção de ambientes livres de fumaça e as advertências sanitárias nas embalagens. Essas medidas transformaram profundamente a percepção social sobre o cigarro.
O desafio atual, porém, extrapola a comercialização do produto e alcança sua representação cultural, impulsionada pela massiva circulação de imagens em mídias de alcance global.
Enquanto décadas de pesquisas científicas consolidaram os efeitos nocivos do tabagismo, a moda, o entretenimento e as redes sociais recuperam a infeliz iconografia que parecia superada.
A fumaça continua efêmera. O imaginário construído em torno dela, entretanto, segue encontrando novas formas de seduzir, influenciar comportamentos e atravessar gerações.




