Tela acesa, atenção apagada? O dilema dos anos iniciais

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Alberto Martins Cesário, professor e escritor - Foto: Reprodução

Alberto Martins Cesário, professor e escritor

Entre cabos HDMI e cadernos ainda cheirando a novo, a tecnologia chegou de vez às salas dos anos iniciais, cercada de promessas pedagógicas e dúvidas silenciosas. Mas, no cotidiano real da escola pública, a pergunta insiste em piscar mais forte que qualquer tela… estamos diante de uma aliada da aprendizagem ou de uma distração que apenas ganhou autorização institucional?

Nos primeiros meses do ano, a escola pública brasileira já não cheira apenas a caderno novo. Cheira a cabo HDMI, senha do Wi-Fi, promessas de plataformas “intuitivas”. O projetor, pendurado no teto como um lustre moderno, observa a turma com a mesma solenidade de quem pensa… “Hoje vai”.

E vai mesmo, só não sabemos para onde ainda.

Confesso que já fui seduzido pelo brilho azul das telas. Quem nunca? O curso de formação dizia que a tecnologia é ponte, é ferramenta, é revolução silenciosa. “Gamifique”, sugeriram. “Engaje”, insistiram. Saí de lá quase um desenvolvedor de aplicativos, pronto para alfabetizar com animações coloridas e trilhas sonoras motivacionais.

Mas ninguém me contou que o tablet também trava, que a internet cai no exato momento em que o aluno finalmente entende a diferença entre “mas” e “mais”.

Não contaram que o brilho da tela, esse pequeno sol portátil, compete ferozmente com a minha voz rouca de professor de terça-feira à tarde.

A sala de aula, meu caro leitor, é um território onde tudo acontece ao mesmo tempo, o menino que descobre a leitura, a menina que descobre que ninguém a escuta em casa, o colega que esqueceu o lanche, o outro que esqueceu o mundo porque ficou até tarde rolando vídeos curtos que cabem em quinze segundos e desmontam em quinze horas a capacidade de concentração.

E então chegam as telas, com suas promessas de modernidade.

Não sou do time que demoniza a tecnologia, seria hipocrisia. Uso projetor, preparo atividades interativas, já vi aluno tímido florescer diante de um jogo educativo, a tecnologia pode ser aliada, sim. Pode ampliar repertórios, aproximar mundos, democratizar acessos que antes eram privilégio.

Mas também pode ser distração institucionalizada.

Porque entre o discurso da inovação e o chão da escola existe um abismo do tamanho de um login que não funciona. A pressão por “modernizar” virou quase um mantra administrativo, relatórios digitais substituem conversas pedagógicas, plataformas monitoram cliques como se clique fosse sinônimo de aprendizagem. E nós, professores, às vezes nos sentimos operadores de sistema quando tudo o que queríamos era formar leitores do mundo.

Nos anos iniciais, a disputa é desigual, a atenção infantil é um passarinho inquieto e a tela sabe disso. Pisca, vibra, recompensa em segundos, o livro, coitado, exige silêncio, tempo, frustração. A leitura não tem botão de pular anúncio da própria dificuldade.

Ensinar a ler, nesse contexto, tornou-se um ato quase subversivo, enquanto o mundo desliza o dedo, eu peço que a criança pare, observe a palavra, mastigue a sílaba e que aceite que entender leva mais que um toque.

Há dias em que me pergunto se estamos formando alunos ou consumidores precoces de estímulos.

Não me entendam mal, não defendo a volta da lousa de pedra e do giz como único recurso. Defendo o uso crítico e criterioso. Que use perguntas antes do clique… Para que essa ferramenta? O que ela amplia? O que ela substitui? O que ela silencia?

Porque há silêncios que a tecnologia produz. O silêncio da conversa olho no olho e da escuta demorada, as vezes acaba calando a imaginação que não precisa de animação pronta.

Outro dia, desliguei o projetor no meio da aula, não por falha técnica, mas por escolha. Pedi que fechassem as janelas abertas no computador. Alguns me olharam como se eu tivesse cometido um crime pedagógico. “Mas, professor, não vai usar o jogo?”

Não. Hoje vamos usar o tempo.

Lemos juntos um pequeno texto, sem efeitos sonoros, sem medalhas virtuais. Apenas palavras. No começo, inquietação, depois, curiosidade e por fim, aquele milagre miúdo que me mantém na profissão, uma pergunta genuína e uma dúvida que não cabia na tela.

Talvez a tecnologia em sala seja como o sal na comida. Essencial, quando bem dosado, intrusiva, quando transforma tudo no mesmo sabor.

O que me preocupa não é a presença das telas, mas a ausência de reflexão sobre elas. É a crença ingênua de que inovação é sinônimo de equipamento novo. É o cansaço docente que nos empurra para o recurso mais rápido, não necessariamente o mais significativo. É o adoecimento silencioso de quem precisa ser multitarefa, professor, técnico de informática, animador digital e, ainda assim, humano.

A escola sempre foi espaço de resistência. Resistimos à falta de recursos, às políticas que mudam mais rápido que o calendário, às expectativas irreais de resultados imediatos e agora estamos resistindo também ao excesso de estímulos.

No meio desse turbilhão, sigo tentando. Uso a tela quando ela amplia o mundo, desligo quando ela o reduz e ensino o clique, mas também o silêncio. Porque antes de qualquer tecnologia, há uma criança aprendendo a ser gente.

E isso, até segunda ordem, ainda não cabe em aplicativo nenhum.

Talvez a pergunta não seja se a tecnologia é aliada ou distração. Talvez a pergunta seja outra, mais incômoda, estamos ensinando nossas crianças a dominar as telas ou estamos permitindo que elas dominem o modo como aprendem, sentem e pensam?

Na próxima vez que a internet cair no meio da aula e ela vai cair, o que restará de pé…o sistema ou a relação?