SOBRIEDADE JÁ – Só sinceridade não garante que você esteja certo…

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Por Carlinhos Marques

“Fui eu quem criei a terra, enchi o rio, fiz a serra,

não deixei nada faltar.

Hoje o homem criou asas…

E na maioria das casas, eu também não posso entrar.

Hoje o homem criou asa, e na maioria das casas…

Eu também não posso entrar”

Esse é o final da música “Cidadão”. Ela foi composta por um nordestino, um baiano, chamado Lucio Barbosa.

Essa música ficou mesmo popular na voz do Zé Ramalho, e apesar de escrita na década de 70, ela atravessou gerações, impactando as pessoas sobre esse equívoco deste operário que de forma sincera mostra a sua indignação com a injustiça que a sociedade cometeu sobre ele.

Ele começa falando da dificuldade em chegar no serviço: “eram quatro conduções”. Depois vem o preconceito do cidadão que até confunde ele com um ladrão, só porque ele estava ali olhando o prédio que ele ajudou a construir.

Percebe a riqueza dessa obra, começa pelo título? “Cidadão”.

Eu imagino que aí o autor já tenta expressar uma ideia de separação social: o cidadão é aquele que aborda o operário, e julga:  “tu tá aí admirado ou tá querendo roubar?

Me deixa a impressão de que ele é cidadão; o operário não!

E aí o operário voltando pra casa, cabisbaixo, num tédio daqueles, com um domingo perdido, diz que dá até vontade de beber. Percebe-se aí também uma alusão ao alcoolismo, não se trata de um drink com os amigos, mas o álcool como uma fuga da decepção.

A realidade é muito parecida hoje. Essa parcela da sociedade que de maneira direta, ativa, constrói os edifícios, os prédios, formam a estrutura urbana, não se sente incluída. A maioria constrói casas, mas não tem casa nem para morar.

E aí o operário pedreiro, continua seu lamento. Ele cita no segundo verso, uma escola que ele também ajudou a construir e nesta escola não tinha vaga para sua filha.

Sei lá, talvez por não conseguir pagar a mensalidade, por dificuldade de transporte… aí se traduz mais uma limitação da sociedade, da sociedade brasileira, principalmente: a educação; demasiadamente precária principalmente para os mais simples.

Aí vem outro desabafo do imigrante, na continuação da música:

“Por que é que eu deixei o norte? Lá a seca castigava, mas o pouco que eu plantava, tinha direito de comer”. É a desilusão de quem foge da pobreza, mas a pobreza não foge dele.

Mas chega o último verso. E não é que esse operário, esse pedreiro, esse construtor, ajudou a construir também uma igreja?

E nessa parte, um aspecto interessante, bem típico dessa classe social que se aflora, que é a fé.

Existe uma suposta recompensa ali, pelo menos, se sentiu acolhido, o templo se torna um porto seguro para ele; aquilo que ajudou a construir, ele pode frequentar.

Nem que às vezes da boca pra fora, mas nestes ambientes religiosos as pessoas se chamam de irmãos entre si, e pelo menos ali ele consegue conviver com um certo “pé de igualdade” com o outro.

Então, eu imagino que em um momento de oração, de um papo franco desse nosso operário com Deus, lá dentro do templo que ele ajudou a construir, o nosso operário se queixou a Deus sobre as injustiças que ele havia sofrido, construiu mas nunca pode usar, nunca pode entrar sequer…

De repente ele ouve a voz divina lhe respondendo… aliás Deus lhe responde o chamando de tolo: “Rapaz, deixe de tolice! Fui eu quem criei a terra, enchi os rios, fiz a serra, eu não deixei nada faltar, hoje o homem criou asas e na maioria das casas, eu também não posso entrar.”

Aí nosso pedreiro se identifica com a história de Jesus!

O Filho de Deus rejeitado que também sofreu o preconceito da época, foi excluído, mas nada fez com que o Cristo desistisse.

Essa poesia, tem um protagonista que é o operário, e tem também o cidadão.

Você se sente algum deles?

Você se vê como o operário ou como o cidadão?

O cidadão é aquele que se acha da elite, que classifica as pessoas pela aparência, pelos números da conta bancária.

Sinceramente acho que nós somos um pouco dos dois! Discriminamos até sem perceber, mas nós temos muito a visão do operário, de sermos eternas vítimas, os eternos injustiçados pelas circunstâncias.

Um raciocínio que eu gosto muito de fazer, é que muito provavelmente você nunca irá encontrar alguém em sã consciência que concorde com a injustiça. Todo mundo é contra a injustiça. Mas aí vai a pergunta:

Será que as pessoas são contra a injustiça por medo de sofrer injustiça ou por medo de cometer injustiça? E isso faz toda diferença!

Para mim esse operário nunca tinha se tocado da grande injustiça que ele cometia com suas portas fechadas para Deus!

Somos muito desse operário: fechamos nossas portas. Às vezes até damos o controle remoto da TV da nossa vida, quando ela sai do ar; pego o controle entrego na mão de Deus, e digo, “dá um jeito aí, me acha o canal certo novamente porque eu não estou enxergando nada.”

Agora, quero ver entregar o controle remoto da TV da nossa vida, quando estou assistindo meu programa favorito, quando estou assistindo o último capítulo da novela, ou a final do campeonato de futebol do meu time.

Abrir as portas é isso! É ter a coragem de praticar o que rezamos no Pai Nosso: “Seja feita a Vossa vontade”. Não confunda a vontade de Deus com a sua vontade!

Nossa oração tem que ser plena, e oração plena nunca será só quando Deus me ouve; oração plena é quando eu também consigo ouvir a Deus.

Percebe então que você pode sim estar sendo sincero, mas estar enganado? O operário dessa música foi sincero diante do prédio, diante da escola; ele tinha razão. Mas a razão dele era em parte.

A plenitude da verdade é deixar a Verdade plena, que é Jesus, entrar na sua casa, que Ele habite na sua existência, participe das suas decisões, seja um com você!

Cuidado só com a sua sinceridade…

Ela pode estar fechando portas do seu horizonte, portas do seu coração, fechando portas de suas ações, e com essas portas fechadas você pode não está deixando a Luz do Céu entrar!

 

Carlinhos Marques

Presidente Fundador da Comunidade Terapêutica Novo Sinai,

que acolhe dependentes químicos desde 2005 de forma voluntária e gratuita, idealizador do projeto “Sobriedade Já”

 

Informações:

[email protected]

www.novosinai.org.br

 

 

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