SOBRIEDADE JÁ: EU, A SEMENTE…

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Confesso para vocês que nunca fui muito rural, nasci na cidade, fui criado na cidade, mesmo quando comprei um sítio, minhas habilidades nunca foram ligadas a plantar, colher e criação de animais. Mas em 2005 quando a gente começou o Novo Sinai, onde é minha propriedade, comecei a acompanhar de perto as atividades dos acolhidos, porque lá a gente planta desde a horta até as frutas, cria porcos, frangos, peixes, o máximo possível para abastecer o consumo da casa.

Acontece que há alguns meses atrás, comprei um abacate, sabe aqueles abacates redondos? Estava muito bom, então resolvi que iria plantar a semente dele, pesquisei na internet como se plantava abacate, e acabei eu mesmo preparando a muda, e um dia destes pela manhã, fui até lá onde plantei o abacate, e ele estava enorme, com quase dois metros altura.

Fiquei pensando, vendo aquela muda daquele tamanho, e lembrei-me da semente, aquela mesma semente de 4 a 5 cm, já tinha se transformado ali numa pequena árvore.

Pois é, não sei se vocês se lembram, mas em um destes nossos bate papos anteriores fiz uma afirmação mais ou menos assim: de que nós, seres humanos somos perfeitos, somos completos, mas não somos prontos, e vou usar esse exemplo da semente do abacate, para dar mais lucidez nessa ideia, a ideia de que o ser humano é perfeito.

Não é impressionante, quando a gente olha pra uma semente não vê praticamente nada, algumas sementes são um grãozinho minúsculo, lembra do exemplo do grão de mostarda que Jesus fala na Bíblia? Mas, você há de concordar comigo, que de certa forma, já existe lá dentro da semente, toda uma estrutura necessária pra que ela um dia se transforme em árvore?

Então vamos fazer aqui uma afirmação meio filosófica: “Uma árvore é uma semente pronta. E o ser humano é uma semente que precisa crescer, pra ficar pronto”.

Está aí então a ideia do ser humano como uma semente, e não como uma árvore pronta, mas alguém que já tem em si, tudo para ser transformado em perfeito, tem tudo pra ficar pronto, pra dar frutos, basta crescer…

Mas existe uma condição. Pra que a semente cresça, ela precisa morrer.

Percebe aí uma interpretação da fala de Jesus, que disse que é morrendo que se vive, e também outra que afirma ser a maior prova de amor é dar a vida, ou seja, morrer, dar a vida é morrer não é?

A semente morre por amor a árvore que virá.

Mesmo que teoricamente ainda não exista árvore.

Então você pode estar se perguntando: A forma de se crescer, de se caminhar para a perfeição seria morrendo?

Te digo que, sim!

Mas vamos logo lapidar esse raciocínio, antes que pareça que estejamos falando sobre a morte física mesmo, o morrer definitivo, não se trata disso. Mas sim, da disposição em morrer por instante, morrer por segundos, para que o que está ao seu redor, inclusive nós mesmos cresça.

Gente, um dia tem 86.400 segundos, cada um desses segundos que você morre para suas vontades, morre por amor a uma causa, que você morre pra preguiça, que você morre para seus instintos que normalmente não são bons, esse deixar de viver pra você, deixar o máximo do egoísmo, essa morte faz com que você cresça.

Morrer nesses instantes, nessas frações de tempo, faz com que a gente perceba que tempo em si não existe, o que chamamos de tempo, é um movimento de evolução das coisas e das pessoas.

Sabe gente, a renúncia é um caminho de crescimento, é um exercício da força interior e faz crescer, faz muitos impossíveis se tornarem possíveis, porque a renúncia gera confiança, você começa a acreditar mais em você, pois venceu um inimigo forte e conhecido, você mesmo. Percebe o poder da renúncia?

Imagine se a semente se conformasse em ser sempre semente? Mas não, ela guarda escondido dentro dela, todo seu potencial e só mostra, só põe pra fora quando alguém lhe faz o favor de enterrá-la.

Um pouco diferente de nós né? Tentamos colocar ao máximo nossas supostas virtudes para o lado de fora. E se enterrar, ficar escondido pra crescer, nem pensar.

A semente passa por um processo, a nossa vida também é isso, um processo de crescimento, eu sugeri aqui uma morte no hoje para ser maior amanhã, morrer para crescer, mas existe outro tipo de morte, e essa sim trágica, que é eleger um momento ou uma situação e permanecer nela, permanecer semente até secar e morrer “em definitivo”.

Somos uma semente, e dentro de toda semente por menor que seja, existe muito mais vida, do que vários carregamentos de madeira de lenha ou árvores cortadas, aí já não tem mais vida nenhuma.

Então essa morte da semente que vira árvore, deve ser comemorada, ninguém lamenta essa morte, é de se lamentar sim a vida das sementes que conforme a parábola de Jesus, morreram porque caíram em solo errado.

Você é semente nesse mundo, em qual solo você está se jogando?

Por Carlinhos Marques
Presidente Fundador da Comunidade Terapêutica Novo Sinai, que acolhe dependentes químicos desde 2005 de forma voluntária e gratuita, idealizador do projeto “Sobriedade Já”

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