Sobriedade já – Caras e coroa…

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Por Carlinhos Marques –

Quando você pega uma moeda na mão, já pelo tamanho, às vezes até pela cor, já dá pra se perceber o seu valor.

Mas existe a particularidade que diferencia uma moeda da outra, que são as duas faces, a tal da cara e coroa.

Isto tem uma explicação: Os portugueses, quando chegaram aqui, já usavam esse tipo de moeda lá em Portugal, essa ideia de estampar o rosto de um personagem da realeza. E no Brasil até hoje existe, a tradição se mantem: de um lado a foto de um personagem e do outro lado o valor da moeda.

Quero fazer aqui um paralelo, da moeda com o ser humano, é inevitável se perceber o quanto a maioria qualifica o outro de acordo com seu suposto valor.

Parece que olhamos uns para os outros como a gente olha para as moedas, e separamos um do outro de acordo com o valor que imaginamos que cada um tem.

Normalmente nosso critério é o quanto a pessoa tem no bolso, ou o que eu imagino que tenha na sua conta bancária.

Olhamos os outros e vemos caras e coroas diferentes, valores e aparências diferentes. Olhamos como olhamos uma moeda.

Como seres humanos temos sim caras diferentes. A Sabedoria Divina nos fez todos diferentes: a sua impressão digital é única, ninguém tem igual a sua; a sua cara, melhor o seu rosto é único… Agora o valor é exatamente o mesmo, todos tem o mesmo valor para Deus!

Mas infelizmente a gente se trai. Olhamos nas pessoas e vemos caras diferentes e valores diferentes. A gente quantifica os outros.  Colocamos hierarquia de valores e aí como nas moedas, é inevitável nossa preferência àqueles que para nós aparentemente valem mais.

Tem uma música do padre Fabio de Melo que chama “Humano Demais”, se você não conhece, depois você dê uma olhada nessa letra; ela fala exatamente dessa nossa humanidade demasiada que é incapaz de enxergar o outro como Jesus enxergou e enxerga.

A música começa citando a mulher prostituta que no meio da multidão iria ser apedrejada; a multidão não conseguia enxergar ali, valor nenhum…

Quase no final dessa música eu gosto muito quando ele diz: “que Jesus ficou amigo do ladrão só para lhe roubar o coração”. Claro que se referindo ao momento da crucificação, onde o bom ladrão reconhece seu erro e Jesus diz: “hoje mesmo estarás comigo no Paraíso.”

Sempre que possível sugiro, e se antes de alguma atitude, de alguma resposta de alguma decisão tivéssemos a coragem de perguntar a nós mesmo: “O que Jesus faria se estivesse no meu lugar?”

Se a gente olhasse os outros mais com os olhos de Jesus? Se a gente se esforçasse para entender mais o que os olhos divinos veem, e que nossos olhos humanos não enxergam?

Com certeza inauguraríamos o contrário do que existe hoje nas relações entre as pessoas!

Eu penso que Jesus ao nos mostrar essa capacidade, ele nos sugere a também enxergar o avesso das pessoas, aquilo que não está à vista, e quem sabe se esse avesso é o outro lado da moeda que eu insisto em subestimar.

Me desculpem, mas às vezes tenho a impressão que realmente só olhamos para o valor que eu imagino que o outro tem, e esse valor é somente quantitativo, esqueço que o valor maior está na origem, de onde todos nós viemos, e para onde iremos voltar. Temos caras diferentes, mas valores iguais.

Parece até que a humanidade criou uma moeda nova pra quantificar o ser humano. Como se circulasse entre nós a moeda humana sem valor, só tem cara, não tem coroa, não tem valor, e aí se justifica a defesa da eutanásia, aborto, pena de morte por aí vai…

Falta coragem, ou quem sabe disposição para se olhar mais demoradamente o outro.  Colocamos a margem os “sem valor”, assim vamos sustentando nossos conceitos.

Vamos ser francos. Não te soa estranho quando fazemos separação de pessoas, de acordo com um valor estimado por nós mesmos, sabendo que para Deus todos são iguais?

De certa forma não dá a impressão de que estamos dizendo a Deus que ele está errado? Que Ele deveria fazer como nós; uma seleção das pessoas que supostamente valem mais?

Tem uma historiazinha que me ficou gravado, que vou partilhar com vocês:

Diz sobre um pintor que teve seu ateliê assaltado e roubaram um quadro que ele havia decidido que não venderia de forma alguma. Mas lhe roubaram justamente esse quadro.

Passaram-se vários anos e este pintor nunca mais encontrou o quadro; realmente o havia perdido.

Acontece que depois de um tempo, em uma viagem, passando em frente a uma galeria, não é que esse pintor viu um quadro muito parecido com aquele?

Entrou e ficou eufórico.  Confirmou a assinatura dele no quadro e não teve dúvidas: “Esse é o quadro que eu pintei e que me roubaram; eu vou compra-lo!” Pensou. O valor era bem alto, mas mesmo assim juntou suas economias, vendeu até alguns bens, voltou naquela galeria e comprou o quadro.

Ok! Vamos analisar alguns detalhes dessa história. Aquele pintor comprou um quadro por um preço altíssimo, mas era um quadro que já era dele; ele que havia feito. Era uma obra de arte de autoria dele. Mas ele havia perdido… aliás, haviam-lhe roubado. Mas ele sabendo do valor que tinha principalmente pra ele, aquele quadro, não teve dúvidas, deu tudo de si para recuperá-lo.

Você sabia que é essa exatamente a nossa história?

Todos nós somos obras-primas de Deus!

Fomos desenhados por Deus, fomos tecidos com todo cuidado dentro do ventre da nossa mamãe, como diz o profeta Isaías. Mas nós havíamos sim, sido roubados do nosso autor.

Foi aí então que Jesus visitou a Terra para nos comprar de volta; veio nos resgatar da mão do ladrão, ou de quem o ladrão havia nos repassado.

Sabe por que? Porque Ele sim, sabe o nosso valor!

Ele sim, sabe que nós temos muito mais do que caras, que temos muito mais do que aparências!

Eu imagino quantas pessoas passaram por aquela galeria e viram ali simplesmente um quadro, não viam nele o valor que tinha para o autor.

E esse Autor, esse nosso Autor sugere que a gente olhe no espelho, que a gente olhe também para as outras obras que Ele criou, e que vivem do nosso lado e enxerguemos esse valor que extrapola aos olhos.

Moedas têm caras e coroas.

Nós, seres humanos caras e coroa.

Caras diferentes por isso o plural, mas coroa única, por isso no singular!

 

* Carlinhos Marques – Presidente Fundador da Comunidade Terapêutica Novo Sinai, que acolhe dependentes químicos desde 2005 de forma voluntária e gratuita, idealizador do projeto “Sobriedade Já”

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