NÃO É DA MINHA CONTA
Existe uma diferença entre orgulho e vaidade, e não, orgulho não é sinônimo de soberba. Orgulho saudável é aquela voz serena da consciência dizendo: “Eu sei quem eu sou, e sei o quanto custou chegar até aqui.” Ele nasce nas batalhas que ninguém viu, nas lágrimas que ninguém aplaudiu e nas noites em que só Deus foi plateia.
Já a vaidade é barulhenta. Ela não pergunta: “Quem eu sou?” Ela pergunta: “O que estão pensando de mim?” E a gente está vivendo um tempo curioso. Não é mais sobre ser. Às vezes nem sobre ter.
É sobre parecer. Parece feliz. Parece próspero. Parece espiritualizado. Parece forte.
Mas aparência não consola consciência. Filtro corrige imagem, mas não corrige caráter. Tem gente passando perfume com roupa suja e achando que resolveu o problema. A vaidade vive de aplausos, o orgulho saudável vive de coerência.
No fim das contas, a pergunta mais importante não é: “O que estão pensando de mim?”
É: “Quem eu realmente sou quando ninguém está olhando?”
Opiniões mudam conforme o vento. Hoje elogio, amanhã crítica. Então, melhor ser aprovado no silêncio do que aplaudido numa versão que nunca existiu de você.
“Porque o homem vê as aparências, mas o Senhor olha o coração.” (1Sm 16,7)
JEJUM, QUEM MANDA AQUI SOU EU
A Quaresma não é um tempo apenas de tradição, é tempo de decisão. Durante quarenta dias, a Igreja nos convida ao jejum, à oração e à caridade. E o jejum é muito mais do que deixar de comer alguma coisa, é um treinamento da alma.
É o espírito olhando para a carne e dizendo: “Hoje você não manda.”
A carne pede conforto, açúcar, excesso, desculpas. O espírito pede direção. A carne quer agora. O espírito pensa em eternidade.
Quando alguém jejua, não está apenas renunciando a algo material; está fortalecendo a autoridade interior. Está lembrando a si mesmo que não é escravo de impulsos. É domínio próprio. É maturidade.
Deus não vai ser mais Deus por causa do seu jejum. Mas, através dele, você se une ao sacrifício de Cristo com disciplina e humildade. Jejum é o espírito convencendo a carne a aceitar o “não”, para que o coração aprenda a dizer “sim” ao que realmente importa.
É quase uma reunião interna: a carne querendo voto, o espírito assumindo a presidência. E quando o espírito governa, a vida encontra ordem.
Maturidade espiritual é isso: não é ausência de desejo, é autoridade sobre ele. É poder olhar para si mesmo e declarar, com serenidade: “Quem manda aqui sou eu — e eu escolho o Eterno.
“Nem só de pão vive o homem, mas de toda palavra que sai da boca de Deus.” (Mt 4,4)
ORGULHO OU VAIDADE?
Existe uma diferença sutil entre orgulho e vaidade e talvez essa seja uma das confusões do nosso tempo. Orgulho saudável não é soberba. É consciência. É reconhecer o próprio valor sem precisar diminuir ninguém.
É aquela segurança silenciosa que diz: “Eu sei quem eu sou.” Não grita, não ostenta, não faz propaganda. Ele nasce nas lutas invisíveis, nas renúncias discretas, nas quedas superadas longe dos holofotes.
Já a vaidade é inquieta. Ela precisa de plateia. Não pergunta “Quem eu sou?”, mas “Estão gostando de mim?” Vive de curtidas. É frágil, porque depende do olhar dos outros para se sustentar.
E estamos vivendo uma geração que confunde vitrine com essência. Não é mais sobre ser. Às vezes nem sobre ter. É sobre parecer. Parece espiritual, mas não ora. Parece generoso, mas calcula. Parece forte, mas desaba quando o elogio não vem.
A aparência até pode impressionar por um tempo, mas não sustenta a consciência. É maquiagem na alma bonita de longe, e incoerente de perto.
No final, o que permanece não é a imagem construída, mas o caráter formado. Melhor um coração coerente do que uma reputação artificial.
Porque quem sabe quem é não precisa convencer ninguém. Vive. E ponto.
“Quem se exalta será humilhado, e quem se humilha será exaltado.” (Lc 14,11)
IMPOSSÍVEL HUMILHAR UM HUMILDE
Vou dizer uma coisa a vocês: as vezes a verdadeira humildade acessa lugares que nem competência, diploma ou dinheiro conseguem acessar.
A gente vive preocupado em não ser humilhado. Mas pense bem: como humilhar alguém que já decidiu não viver para provar nada a ninguém? Quem é humilde não se sente diminuído facilmente, porque não construiu sua identidade sobre pedestal.
Jesus disse: “Aprendei de mim que sou manso e humilde de coração.” E não foi alguém fraco que disse isso. Foi alguém com autoridade sobre o vento e o mar. Humildade não é fraqueza; é força sob controle.
Existe até níveis de humildade. Ser humilde com um superior pode ser obrigação. Ser humilde com amigos pode ser cortesia. Mas ser humilde com quem nada pode nos oferecer em troca, isso é nobreza. Isso é caráter.
Talento abre portas. Competência impressiona. Mas o que mantém a porta aberta é a humildade. Porque ninguém suporta conviver muito tempo com alguém que se acha mais do que é.
Dizem que Freud afirmou que as pessoas seriam muito melhores se não se achassem tão melhores. Talvez seja verdade. A arrogância afasta, a humildade aproxima.
E no fim das contas, ninguém consegue humilhar um humilde. Porque ele já entendeu que sua dignidade não depende da opinião alheia.
“Deus resiste aos soberbos, mas dá sua graça aos humildes.” (Tg 4,6)
A CONVERSÃO DO BOLSO
Existe um ditado que diz que a parte mais difícil de se converter é o bolso. E talvez seja verdade. Porque enquanto a mente aceita, o coração até se emociona… o bolso faz contas.
Hoje vemos pessoas dizendo que se converteram e, curiosamente, a conta bancária cresceu mais do que o caráter. A relação com o dinheiro é delicada mesmo. E eu sempre digo: desejo que você tenha muito dinheiro, mas que saiba quem manda em quem.
Porque dinheiro é excelente servo, mas péssimo senhor.
A sua quantidade de dinheiro não é diretamente proporcional aos seus méritos. Se fosse assim, muita gente honesta estaria milionária e muita gente milionária estaria desempregada. Millôr Fernandes ironizou dizendo que, se cada um recebesse apenas o que merece, sobraria dinheiro no mundo. E talvez sobrasse mesmo.
Francisco de Assis entendeu algo que muitos ainda não entenderam: é dando que se recebe. Mas nossa lógica moderna prefere acumular para depois repartir, e esse “depois” nunca chega.
Jesus foi direto: é impossível servir a dois senhores. Ou o dinheiro será ferramenta, ou será ídolo. E ídolo sempre exige sacrifício, tempo, paz, família, valores.
A conversão verdadeira começa no coração, mas prova sua autenticidade no bolso. Porque onde está o teu tesouro, ali estará também o teu coração.
“Não podeis servir a Deus e ao dinheiro.” (Mt 6,24)
Por: Carlinhos Marques
Presidente Fundador Instituto Novo Sinai, idealizador projeto “Sobriedade Já”
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