É comum ouvir com certo orgulho: “Meu filho mexe no celular melhor do que eu.”
De fato, muitas crianças e adolescentes sabem instalar aplicativos, pular anúncios, criar contas, entrar em jogos online e até burlar bloqueios com uma facilidade que impressiona. O problema é que habilidade técnica não é maturidade digital. E aí mora o risco.
Celular hoje não é brinquedo. É porta de entrada para jogos, redes sociais, compras, conversas com desconhecidos e, infelizmente, golpes.
Jogos aparentemente inocentes pedem permissões exageradas: acesso à câmera, microfone, contatos, localização. A criança aceita sem ler — e o adulto, muitas vezes, nem sabe que aquilo aconteceu. Em poucos minutos, dados da família inteira podem estar sendo compartilhados sem controle.
Outro ponto crítico são os jogos com chat. Ali, crianças conversam com desconhecidos achando que estão falando com outros jogadores da mesma idade. Nem sempre estão. Golpistas e pessoas mal-intencionadas sabem disso e exploram exatamente a ingenuidade e a curiosidade infantil.
E não se trata apenas de segurança física ou psicológica. Existe também o risco financeiro. Compras dentro de jogos, links falsos prometendo vantagens, moedas virtuais “gratuitas” que levam a páginas fraudulentas. Quando os pais percebem, o prejuízo já aconteceu.
Muitos golpes começam assim: um clique inocente, um cadastro feito sem supervisão, um aplicativo instalado “só pra testar”.
E aqui vai um ponto que incomoda, mas precisa ser dito: dar celular sem orientação é terceirizar a educação digital para a internet. E a internet não educa — ela explora.
Não é sobre proibir tudo. É sobre acompanhar.
Perguntar que jogos a criança usa, com quem conversa, que permissões foram liberadas, se há controle de tempo e se existe diálogo aberto quando algo estranho aparece na tela.
Celular de criança precisa de regra, limite e conversa.
Não porque a criança é irresponsável, mas porque ainda está aprendendo a ser.
No mundo físico, ninguém deixaria um filho pequeno sair sozinho conversando com estranhos na rua. No mundo digital, muitos deixam — todos os dias — sem perceber.
Tecnologia não é vilã.
Mas sem orientação, vira risco silencioso dentro de casa.
No fim, a pergunta que fica não é se seu filho sabe mais de celular que você.
É se você sabe o suficiente para protegê-lo.
Porque quando o problema aparece, não vem com aviso na tela.
*Christiano Guimarães – consultor em Segurança da Informação
Autor do Livro: Como Adequar Minha Empresa à Lei Geral de Proteção de Dados – Um Guia Prático




