ATÉ QUANDO?

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Até onde devemos ir para manter as coisas como estão? O que há de tão bom na sua vida atual que uma mudança seja motivo de medo e angústia? Até onde devemos ir ou tolerar para manter pessoas ao nosso lado?

Essas perguntas merecem respostas profundas, que venham do âmago e permeiem nosso subconsciente atrás de justificativas, por vezes, inexistentes a luz da consciência.

Isso acontece porque trazemos conceitos que foram construídos ao longo de nossa vida sobre o que é o amor, o que é amizade, o que é dedicação, o que é estabilidade etc.

Além disso, há outro conceito pouco trabalhado em nós: o LIMITE. Todos os questionamentos acima podem ser respondidos quando temos consciência do quanto cada situação vivencial nos magoa, fere nossos princípios e valores, e torna-nos mais tristes e infelizes.

Pensemos em situações hipotéticas, com pessoas fictícias.

Marcio tem um emprego bom e estável. Está nessa carreira há muitos anos, mas trabalha em um lugar que não o respeita, não valoriza nem enxerga seus esforços. A interação é obrigatória, mas ele percebe a animosidade. Não se sente confortável nem feliz. Contudo, ele tem medo de sair dali e construir uma nova jornada. Afinal, são anos dedicados e iniciar algo novo traz insegurança para ele.

Raquel, por sua vez, está num casamento infeliz. Seu parceiro trabalha, traz o sustento, mas não dialoga, interage, elogia ou valoriza sua dedicação com a casa e com os filhos. Sua prioridade é beber com os amigos e chegar em casa tarde da noite, satisfeito por ter sua liberdade garantida. Tudo o que Marcia deseja é atenção e carinho, porém não consegue expor ao parceiro suas necessidades, pois isso sempre gera brigas infindáveis, muita ofensa e humilhação. Dessa forma, ela se cala e consente, porque tem receio de não conseguir manter-se financeiramente.

Joana, em contrapartida, tem uma grande quantidade de amigos e seguidores nas redes sociais. É bastante popular, sempre chamada para festas e confraternizações. Nos comentários e felicitações, sempre estão as frases: “eu te amo”, “você é maravilhosa”, “amiga pra toda a vida”, mas teve um problema particular e precisou da ajuda dos amigos e ninguém a ajudou. Ficou sozinha e desamparada no momento que mais precisava de apoio.

O que essas histórias têm em comum?

A efemeridade das relações construídas sobre um conceito fragmentado do amor, da amizade, das relações interpessoais. Insistimos em manter relações nada saudáveis e pouco construtivas, para evitar uma escolha ou uma decisão que nos tire da zona de conforto, ainda que ela nos traga insatisfações.

Em tempos de “modernidade líquida”, definição dada por Zygmunt Bauman para explicar o período após 1960, tudo é frágil, passageiro e volátil. As relações humanas passam a ser chamadas de conexões. Essas se mantem pela utilidade, não pela solidez. E, quando não nos impomos, estamos sujeitos a perpetuar esse conceito.

Mas daí voltamos à pergunta inicial. Até quando vamos extrapolar os limites daquilo que valorizamos para manter algo tão incerto e doloroso? Até quando devo permitir-me estar com alguém ou em alguma relação que não é recíproca, seja ela de amizade, laboral ou amorosa? Até onde conseguimos esconder nossa infelicidade para caber no mundo do outro ou em algum lugar? Fica a reflexão.

 

Alexandra A.S. Fernandes: Graduada em Letras – Português/Espanhol pela UNIP. Pós-graduada em Metodologia de Ensino das Línguas Portuguesa e Espanhola pela UCAM. Autora do livro – Autismo – Ensinar aprendendo e aprender ensinando. Diretora Social e Acadêmica da ACILBRAS. Funcionária pública e Professora de Análise Linguística do Piconzé Anglo e HF Cursos Jurídicos. Escritora, Terapeuta Integrativa, Astróloga e Artesã.  Redes sociais: Instagram @profa_alexandra e @aora_terapias; Youtube Profa. Alexandra – Tirando dúvidas de português.