
No Festival Literário de Votuporanga, a escritora Maria Vilani compartilha uma trajetória marcada por leitura, ação comunitária e convicção de que democratizar o conhecimento exige criar caminhos para que cada pessoa possa encontrar sua própria voz.
@caroline_leidiane
Um pedaço de jornal usado para embrulhar mercadorias foi, para Maria Vilani, uma das primeiras portas de entrada para a literatura. Antes de conhecer bibliotecas, antes de publicar livros e de criar projetos culturais, a escritora aprendeu a reconhecer letras nos retalhos de papel que chegavam à mercearia da família, no Ceará.
A história contada por ela no último domingo, 9 de agosto, durante o bate-papo “Literatura e Cidadania: agentes e práticas de democratização da leitura”, no Cine Fliv, sintetiza uma questão que atravessou toda a conversa: o acesso à leitura pode começar em qualquer lugar, desde que exista alguém disposto a abrir uma porta.
Escritora, filósofa, pedagoga e ativista cultural, Maria construiu há mais de três décadas uma trajetória de atuação comunitária no Grajaú, zona sul de São Paulo. Ao lado de Thais Heinisch, especialista em literatura e bibliotecas na Gerência de Ação Cultural do Sesc São Paulo, dialogou sobre os diferentes agentes envolvidos na formação de leitores e os caminhos para fazer da literatura uma experiência cotidiana.
A relação da escritora com os livros começou ainda na infância, pela voz do pai. Ele lia para ela e para o irmão, mas a menina era quem permanecia até o fim das histórias. Quando ele faleceu, aos oito anos, Maria ainda era apenas uma criança, porém carregava desejo tamanho de conhecer aquelas narrativas por conta própria. “Quando o papai folheava o livro, eu achava que ele era mágico, porque é uma magia mesmo a literatura. Eu precisava aprender a ler de qualquer jeito, mas eu não tinha acesso a livros, só a retalhos de jornais”, recordou Vilani.
Sem livros à disposição, vieram os jornais. Entre fragmentos de poemas, encontrou uma possibilidade de alfabetização e, posteriormente, descobriu “Barcos de Papel”, de Guilherme de Almeida.
Durante o bate-papo, para o deleite dos presentes, Maria recitou o texto e o apontou como seu “poema certo”, aquele que a inspirou na aventura literária.
A biblioteca pode ser uma casa
Já adulta, mãe de cinco filhos e vivendo em São Paulo, Vilani voltou a estudar junto com os adolescentes. Na própria casa, criou uma biblioteca e passou a organizar rodas de leitura em família. O exercício consistia em perguntar não apenas o que haviam entendido, mas como o texto havia chegado a cada um.
“Eu dizia para eles: como é que chegou isso para você? O que é isso aqui? O que o autor está dizendo para você?”, contou ela.
A experiência doméstica se transformaria em uma prática comunitária. No Grajaú, onde não havia equipamentos culturais quando começou sua atuação, Maria abriu as portas de casa para a poesia. Vieram poetas, artistas, carreatas poéticas, manifestações em espaços públicos e, posteriormente, rodas de construção de conhecimento.
A experiência traduz uma concepção de cultura que Maria carrega consigo: conhecimento não é uma via de mão única. Ele se constrói quando diferentes repertórios entram em contato.
“O professor de filosofia tem muita a oferecer. Mas o menino que mora do outro lado da balsa, no Grajaú, ele tem muita riqueza a contribuir também”, disse.
Por sua vez, Thais abordou sobre o papel das bibliotecas na ampliação do acesso à leitura. Citou a experiência do Sesc São Paulo com unidades fixas e bibliotecas volantes, que chegam a comunidades onde há poucos ou nenhum equipamento cultural. Mas, para além da circulação dos livros, o espaço da biblioteca também pode se constituir como lugar de encontro: entre leitores, histórias, linguagens e formas plurais de identificação.
Nesse contexto, a mediação é de suma relevância. O bibliotecário pode ser uma ponte entre acervo e leitor, apresentando possibilidades que talvez não fossem buscadas espontaneamente.

Ler é encontrar o outro
Dentro do parecer de ambas, a literatura foi abordada como território de reconhecimento. Para Thais, é de suma importância que as bibliotecas tenham acuidade na seleção de títulos, com bibliodiversidade e presença de divergentes autorias e experiências, permitindo que o leitor possa passear entre o pertencimento e a novidade. Maria contribuiu com o pensamento por meio de uma analogia:
“Nós somos incompletos. Estamos por fazer, estamos nos fazendo. Cada um de nós carrega retalhos, como se fosse uma colcha confeccionada com pedacinhos de cada ser humano que passou por nós”, refletiu.
É nessa incompletude que, segundo ela, reside a possibilidade da troca. A escuta passa a ser uma ferramenta de construção do conhecimento, porque ninguém possui sozinho todas as respostas ou todos os repertórios.
“Sem o outro não há vida, não tem sentido. Então, não dá para eu dizer ‘eu faço, eu aconteço’, porque eu só faço no coletivo, eu só aconteço no coletivo”, sintetizou.
Vilani também abordou a ideia de que a produção literária seja fruto apenas de inspiração. Segundo ela, escrever envolve transpiração, aperfeiçoamento e exposição, em um processo de encontro com o outro e com aquilo que não se pode acessar diretamente em sua subjetividade.
“Quando falam de inspiração, lembro da transpiração. O que me move a escrever é mostrar para o mundo o meu pensamento”, revelou.
No encerramento, a escritora retomou a própria experiência para falar com quem acredita não gostar de ler. Em vez de prescrever um livro, propôs uma aproximação por convivência, leitura compartilhada e escuta.
“Eu convidaria essa pessoa para uma roda no clube de leitura ou simplesmente eu ia pegar um texto e ia ler para essa pessoa. ‘Senta aqui. Eu estou precisando de escuta’”, sugestionou
Ao final do bate-papo, Vilani contou a reportagem que sua obra também ganhará a voz de outro modo: nesta semana, ela deve iniciar a gravação do audiolivro de “Memórias de Maria e um Pouquinho de Mim”. E abordou dois pontos essenciais: a democratização da leitura também passa pela criação de alternativas para quem dispõe de pouco tempo para ler e, sobretudo, pela ampliação do acesso às pessoas com deficiência visual.
Do papel à oralidade, da casa às praças, das bibliotecas às rodas de conversa, essa riqueza de ideias despertadas durante o encontro sugere que democratizar a leitura não é apenas colocar um livro ao alcance das mãos.
É criar condições para que alguém possa abri-lo, escutá-lo, reconhecer-se nele — ou descobrir, por suas páginas, uma narrativa imbuída de identificação e múltiplas interpretações.
Afinal, como bem lembrou Vilani: “a compreensão da leitura é um direito e é um dever”.




