Provocação sem fronteiras

19
Viktor Huggo apresenta uma nova fase de sua trajetória musical com o lançamento do single ‘Provocar’, em parceria com o artista Yhu Kira – Montagem fotográfica/Renato Júnior

O cantor e compositor votuporanguense Viktor Huggo, de 29 anos, lança single em parceria com o artista internacional Yhu Kira. ‘Provocar’ combina funk e pop em uma sonoridade dançante e inaugura uma fase de experimentação, abrindo novos rumos em sua trajetória musical.


Leidiane Caroline
WhatsApp: @caroline_leidiane
Sugestões de pauta: [email protected]

Aos cinco anos, Viktor Huggo já encontrava na música uma maneira de se expressar. As primeiras experiências aconteceram na igreja, onde começou a cantar ainda na infância. Anos depois, aquela aproximação experimentou contornos profissionais e se transformou em uma trajetória autoral que hoje reúne pop, funk urbano, dança e representatividade LGBTQIAPN+. Aos 29 anos, o cantor e compositor de Votuporanga apresenta um novo capítulo dessa caminhada com “Provocar”, single que chega às plataformas digitais no dia 6 de novembro, às 21h.

A faixa conta com a participação de Yhu Kira, cantor, compositor, pintor, estilista e performer nascido em Libreville, no Gabão, e atualmente radicado em Lille, na França. Com uma identidade artística que transita entre a música, a moda e as artes visuais, o artista desenvolve uma sonoridade marcada por influências do Afropop, Afrobeats e da rumba congolesa. Em seu universo criativo, que define como uma espécie de “Atlântida”, articula referências culturais, empoderamento e melancolia. A colaboração aproxima diferentes repertórios culturais e integra a proposta de expansão artística de Viktor, que prepara um novo álbum de estúdio. O lançamento ganha ainda desdobramento audiovisual: o visualizer será disponibilizado no YouTube no dia 7 de novembro, às 12h.

O cantor e compositor Viktor Huggo durante uma sessão de gravação em estúdio – Foto: Nycollas Yk

Da igreja à música autoral

A relação de Viktor com a música começou cedo, mas a decisão de transformar essa ligação em trabalho expressou forma em 2017, quando realizou seu primeiro lançamento, “Aleluiah”, ainda no segmento gospel.

“Ali, tive a certeza de que era o que eu amava e queria levar adiante. Em 2019, fiz a transição para o estilo pop funk e lancei ‘Mexer a Raba’, em parceria com a produtora Vulks”, recorda.

Com proposta dançante e direcionada à conexão entre ritmo e público, Anitta, Pabllo Vittar e IZA estão no topo da lista de inspirações de Viktor no cenário nacional.

“Minhas referências vêm de diferentes vertentes da música pop e urbana, principalmente de artistas que conseguem unir música, dança, atitude e identidade visual em um mesmo projeto”, explica ele.

A construção dessa estética cênica e sonora passa pelos álbuns “Na Pista”, lançado em 2021, e “VH”, de 2023. Viktor considera os dois trabalhos etapas importantes de seu desenvolvimento musical e pessoal, nas quais pôde experimentar sonoridades e compreender melhor o que desejava transmitir.

“Hoje em dia, não gosto de me limitar a uma única fórmula, porque acredito que a música permite experimentar e descobrir novas possibilidades. Ao mesmo tempo, procuro colocar minha personalidade em cada trabalho, porque quero que as pessoas reconheçam a minha identidade artística e entendam que, mesmo explorando diferentes referências, existe uma essência que é minha”, destaca.

Os shows tiveram papel igualmente importante nesse amadurecimento. Ao longo da carreira, o cantor participou de festivais, eventos culturais e programações Pride em cidades como Votuporanga, Mirassol, Fernandópolis, Catanduva, São Carlos e São José do Rio Preto, além de oportunidades na capital paulista.

“Todas as apresentações foram especiais para mim, mas, em Vinhedo, foi a primeira vez que cantei ‘Anjos Sem Asas’ no repertório, e o público sentiu, se emocionou e se entregou muito no show. Quando desci do palco, foi uma loucura (risos). Todos vieram me parando, parabenizando, tirando fotos, enxugando as lágrimas e contando suas histórias amorosas, assim como aconteceu comigo. Nunca vou me esquecer. Aquilo me tocou profundamente”, rememora.

Durante show, Viktor Huggo divide a cena com bailarinos em uma apresentação marcada por dança, energia e presença performática, características que integram sua proposta musical – Foto: Gabriel Alexandre

Uma nova fase em vermelho

Segundo single do próximo álbum de estúdio, “Provocar” nasce da vontade de experienciar novas rotas e apresentar uma faceta mais ousada do trabalho de Viktor. A composição combina elementos do funk e do pop com referências internacionais, em um ritmo dançante e sensual, acompanhado por uma atmosfera vibrante. A cor vermelha é o símbolo visual do projeto, representando intensidade, desejo, energia e presença.

“Mas, provocar, para mim, vai além da sensualidade. É despertar sentimentos, curiosidade, pensamentos e reações. É criar algo que chame a atenção, que desperte o interesse da galera e que faça as pessoas sentirem alguma coisa, seja pela música, pela estética ou pela mensagem transmitida”, detalhe ele acerca do conceito da música.

O feat. com Yhu Kira surgiu inicialmente a partir de conversas sobre uma possível participação em um remix de “Catucada”, música de Viktor em parceria com Vini Vicente, cantor, compositor e criador de conteúdo digital. Durante as negociações, porém, o artista internacional demonstrou interesse em desenvolver uma faixa inédita. A ideia evoluiu para “Provocar”, que passou de uma composição solo, inteiramente em português, para uma produção colaborativa.

“O mais interessante foi perceber como nossas referências poderiam se complementar. Eu estou no Brasil, com minhas experiências e influências musicais, enquanto Yhu Kira traz sua própria vivência e referências culturais. Essa troca contribuiu para dar à música uma dimensão internacional, sem perder a identidade urbana e dançante que queríamos alcançar. Para mim, dividir esse projeto com um artista de outro contexto cultural é uma experiência muito importante. A música tem essa capacidade de aproximar pessoas que vêm de lugares diferentes e que talvez não se encontrassem de outra forma”, afirma.

A proposta audiovisual acompanha esse intercâmbio cultural. As cenas de Viktor foram gravadas no Brasil, enquanto Yhu Kira aparece em imagens produzidas internacionalmente e incorporadas ao visualizer da faixa.

“Também vejo essa colaboração como um passo importante na minha trajetória. É uma oportunidade de aprender, trocar experiências e apresentar meu trabalho a novos públicos. Estou muito feliz com o resultado e espero que ‘Provocar’ seja o início de muitas outras conexões e possibilidades”, projeta.

Viktor Huggo iniciou sua trajetória musical ainda na infância e, ao longo dos anos, construiu um repertório que transita entre o pop e o funk, explorando diferentes referências e possibilidades sonoras – Foto: Leandro Borges

Os desafios de produzir música independente no interior

Apesar das novas possibilidades de difusão proporcionadas pelas plataformas digitais, construir uma carreira musical independente em uma cidade do interior envolve obstáculos que ultrapassam a produção artística.

“Como artista independente, muitas vezes preciso assumir diferentes funções: além de cantar e, às vezes, compor, também acompanho o processo de produção dos produtores. Sou responsável pela divulgação, pelo planejamento e pelo investimento nos meus próprios projetos. Isso exige dedicação, organização e, principalmente, persistência”, pontua.

Para Viktor, a distância dos grandes centros culturais e da indústria fonográfica limita o acesso a produtoras, gravadoras e espaços de apresentação. O desafio aumenta quando a questão envolve representatividade.

“Sendo um artista da comunidade LGBTQIAPN+ sinto que falta espaço para mostrar nossa arte, como nos grandes eventos da cidade, por exemplo”, expressa.

A conquista de visibilidade fora da bolha regional também representa um desafio para quem desenvolve uma carreira autoral no interior. Nesse percurso, Viktor busca amplificar a circulação de suas músicas e estabelecer contato com públicos de diferentes localidades, demonstrando desenvoltura no ambiente digital.

Nesse cenário, as mídias sociais e as plataformas digitais representam ferramentas importantes para difundir o trabalho e alcançar ouvintes de outras localidades e até de outros países. Em seu perfil oficial no Instagram (@viktorhuggooficial), o artista já acumula 6.217 seguidores, enquanto sua faixa mais ouvida no Spotify, “Joia Rara”, ultrapassa 35 mil reproduções.

“Apesar dos obstáculos, tenho orgulho de desenvolver meu trabalho em Votuporanga. Acredito que a origem não determina até onde um artista pode chegar. Quero justamente mostrar que é possível construir uma carreira autoral, conquistar espaço e levar a música produzida no interior para outros cenários”, acrescenta.

Com o lançamento de “Provocar” chegando ao público, as linhas do horizonte se redesenham para além do âmbito nacional. Quem sabe provocando novos olhares, despertando interesses e atravessando fronteiras? É ouvir para ver.

“Acredito muito no poder da música para ocupar espaços e contar histórias que precisam ser ouvidas”, conclui Viktor Huggo.