Perfumes árabes redefinem o mercado de fragrâncias no Brasil 

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Fragrâncias árabes se destacam pela alta fixação e intensidade, com fórmulas concentradas em óleos e matérias-primas como oud, âmbar e especiarias, garantindo maior projeção e presença - Foto: Reprodução 

Com crescimento de até 380% em vendas e buscas que dispararam 24 vezes em dois anos, fragrâncias do Oriente Médio deixam de ser nicho e ganham espaço impulsionadas por redes sociais, apelo sensorial e mudança no comportamento do consumidor.


@caroline_leidiane

O que até pouco tempo era um território restrito a entusiastas da perfumaria de nicho tornou-se um dos fenômenos mais expressivos do mercado de beleza no Brasil.

Os perfumes árabes, conhecidos por sua intensidade, longa duração e estética luxuosa, registraram um crescimento de até 380% nas vendas em 2024, movimentando mais de R$ 20 milhões no país, segundo dados da consultoria Circana, empresa global líder em análise de dados, tecnologia e comportamento do consumidor.

Embora ainda representem menos de 1% do mercado de fragrâncias internacionais, o avanço acelerado indica uma mudança consistente na dinâmica de consumo do brasileiro, que passa a valorizar experiências olfativas mais marcantes e exclusivas.

Da internet para as prateleiras 

O boom não aconteceu por acaso. A popularização dos perfumes árabes está diretamente ligada à força das redes sociais — especialmente TikTok e Instagram —, onde vídeos sobre “perfumes de alta fixação” e listas de recomendações viralizam diariamente.

Levantamento da consultoria DSM-Firmenich — multinacional resultante da fusão entre a DSM e a tradicional casa suíça Firmenich, referência global em fragrâncias, aromas e análise de tendências de consumo —, com base em dados do Google Trends, aponta que as buscas por fragrâncias do Oriente Médio cresceram 24 vezes nos últimos dois anos.

O Brasil desponta como um dos mercados mais engajados digitalmente no tema, movimento que já se traduz em consumo: apenas no primeiro semestre de 2026, o segmento registrou avanço de cerca de 340% nas vendas, segundo estimativas da consultoria Circana.

Frascos ornamentados, com acabamento dourado e design inspirado na joalheria, reforçam o apelo de luxo acessível e transformam os perfumes árabes em objetos de desejo também pelo visual – Foto: Reprodução

Intensidade, performance e desejo

O sucesso também se sustenta em características técnicas das fragrâncias. Diferentemente de perfumes ocidentais mais leves, os árabes apostam em alta concentração de óleos e matérias-primas como oud, âmbar e especiarias, resultando em maior projeção e fixação — atributos altamente valorizados pelo público brasileiro.

De acordo com análise da Circana, a categoria atende à demanda do consumidor brasileiro por fragrâncias mais marcantes e duradouras.

A estética também cumpre papel decisivo. Frascos elaborados, com design próximo ao universo da joalheria, transformam o produto em objeto de desejo e reforçam o apelo de luxo acessível — com preços médios em torno de R$ 345, mas que podem chegar a R$ 2 mil.

Mudança de comportamento

Para além de uma tendência passageira, o avanço da perfumaria árabe revela uma transformação mais ampla no consumo. Especialistas apontam que o público — especialmente a geração Z — busca identidade, exclusividade e maior expressão sensorial.

Em conformidade com pesquisas do setor, a tendência acompanha um consumidor mais exigente, que busca fragrâncias capazes de traduzir personalidade e memória.

Por esse viés, os perfumes deixam de ser apenas um complemento e passam a ocupar um lugar central na construção de imagem e estilo — movimento que reposiciona toda a indústria de fragrâncias.

Mercado em adaptação

Diante da demanda crescente, grandes companhias brasileiras já investem no segmento. O Grupo Boticário, por exemplo, ampliou aportes em fragrâncias inspiradas no Oriente Médio e trata a categoria como estratégica para expansão.

O fenômeno aponta para um cenário de coexistência: de um lado, perfumes nacionais mais acessíveis e cotidianos; de outro, fragrâncias árabes e de nicho associadas à intensidade, performance e custo-benefício.

Nesse contexto, o consolidado mercado de importados de luxo — historicamente liderado por grifes europeias — não perde relevância, mas passa a ocupar um lugar mais específico, ligado ao prestígio, à ocasião e ao valor simbólico da marca. O resultado é uma reconfiguração do consumo, em que diferentes categorias convivem e atendem a motivações distintas, ampliando — e não substituindo — o repertório olfativo do consumidor brasileiro.

Um fenômeno em construção

Com crescimento que supera os 300% em recortes recentes do mercado e forte presença digital, a perfumaria árabe deixa de ser uma moda efêmera para se consolidar como vetor de transformação no mercado brasileiro de beleza.

Se antes o perfume era um detalhe, agora se torna protagonista — e, ao que tudo indica, com um rastro demasiadamente vigoroso e performático.