João acordou cedo naquele sábado.
Não porque precisava. Mas porque decidiu que aquele seria “o dia”. Dia de resolver a vida, cuidar de si, fazer tudo aquilo que ele vinha adiando.
E, como todo cidadão moderno, resolveu avisar o mundo.
Primeiro story: – “Bom dia! Partiu academia”
Treino feito, suor pago, veio o segundo: – “Treino pago, agora merece um café”
Marcou a padaria. Foto bonita. Espuma perfeita.
João estava bem. Organizado. Produtivo. E, claro, compartilhando.
Do outro lado da tela, alguém também acompanhava.
Não era amigo, nem era próximo. Não era ninguém que João lembrasse de ter visto.
Mas estava ali, assistindo tudo.
Sem pressa, sem aparecer só acompanhando em silêncio.
João seguiu o dia.
Selfie no espelho. Barbearia marcada: – “Hora de dar um grau”
Depois: – “Almoço naquele lugar top” – Localização mais uma vez.
João não estava fazendo nada demais.
Só vivendo, e, como sempre, mostrando.
Enquanto isso, o outro perfil montava o dia dele como quem monta um quebra-cabeça.
Sabia onde João estava, onde ele tinha estado e para onde ele provavelmente iria.
E percebeu algo simples… mas valioso:
João não estava em casa e não voltaria tão cedo.
João continuou.
Passou no mercado e postou: -“Só faltava isso.”
Depois: – “Agora sim, partiu casa descansar ”
Mas demorou porque encontrou um amigo ou resolveu dar mais uma volta e talvez porque o sábado estava bom.
E, claro… tudo registrado.
Quando finalmente chegou em casa, João abriu o celular.
Visualizações altas, curtidas subindo dia bem aproveitado.
Vida em ordem.
Não aconteceu nada com o João, mas poderia.
E é aqui que a história muda, imagine só se…
Naquele mesmo dia, alguém tivesse percebido que a casa estava vazia… e decidido passar lá “só para dar uma olhada”.
Alguém resolvesse usar as fotos, o nome e os lugares marcados para criar um perfil falso… se passando pelo João.
Começassem a mandar mensagem para amigos dele, pedindo dinheiro com uma história bem contada.
Alguém pegasse as imagens e montasse uma fake news, associando o nome dele a algo que ele nunca fez — e isso começasse a circular.
Alguém usando essas informações para ligar, se passando por empresa, por conhecido, por qualquer coisa que soe confiável.
Descobrir, dias depois, que alguém sabia da sua rotina… melhor do que você imaginava ser possível.
E o mais desconfortável e que nada disso exige tecnologia avançada ou invadir seu computador ou aparelho celular.
Só depende de informação e João entregou tudo.
A gente acostumou a mostrar cada passo.
Onde está, para onde vai, de onde acabou de sair, o que está fazendo e até quanto tempo vai ficar.
E sem perceber, vai construindo um mapa detalhado, atualizado e público.
Nosso papo hoje não é sobre parar de usar rede social.
É sobre parar de se expor como se ninguém estivesse olhando.
Porque sempre tem alguém olhando.
No fim das contas, João só queria compartilhar o dia e acabou criando o roteiro da sua vida.
E um roteiro tão detalhado, quando cai na mão errada… vira oportunidade.
E aqui está o ponto que talvez você não entendeu até agora: – Proteção de dados não é só sobre CPF, telefone ou e-mail.
É sobre comportamento e rotina.
É sobre a sua vida.
Porque hoje, dado pessoal não é só o que você digita, mas também sobre o que você mostra.
E quem não aprende isso continua achando que está só postando.
Quando, na verdade, está contando a própria história… para quem não deveria nem saber que ela existe.
Christiano Guimarães
Consultor em Segurança da Informação
Autor do Livro:
Como Adequar Minha Empresa à Lei Geral de Proteção de Dados – Um Guia Prático




