Reflexões sobre inclusão, indisciplina e exclusão velada.
Alberto Martins Cesário, professor e escritor
Toda escola tem um.
Não precisa de muito esforço para identificá-lo. O nome dele costuma aparecer nas reuniões pedagógicas com a frequência de uma previsão de chuva em aplicativo de celular.
— E o Alecrim Dourado?
— Ah… o Alecrim…
O silêncio que vem depois do “Ah…” é sempre mais revelador do que qualquer relatório. O Alecrim é o aluno “difícil”, ou pelo menos foi assim que decidimos chamá-lo para simplificar o mistério.
Ele não para quieto, responde atravessado, não copia, terminar a atividade então, só por um milagre. Levanta sem pedir licença, às vezes explode e às vezes se cala de um jeito que parece que se desligou da tomada do mundo.
E então começam os diagnósticos de corredor, tem professor que diz que é falta de limite, outro afirma que é preguiça, alguns apostam em celular demais, videogame demais, liberdade demais. Outros, mais técnicos, puxam siglas, TDAH, TOD, TEA, PPP, PDI, PDI do PDI…
E convenhamos, a escola adora uma sigla, até parece que essas letras têm o poder mágico de transformar angústia humana em formulário preenchível, mas, se a gente parar dois minutos, dois minutos de silêncio honesto, talvez uma pergunta menos confortável apareça…
E se o problema não for o Alecrim?
Porque a verdade é que a criança raramente começa difícil, em algum momento da vida escolar dela houve uma primeira vez.
A primeira vez em que ela não entendeu a explicação e ninguém percebeu, ou a primeira vez em que leu mais devagar que os colegas e alguém riu, aquele momento em que confundiu letras, números, palavras… e ouviu um suspiro impaciente. A primeira vez em que a escola deixou de ser território de descoberta e virou território de defesa.
A partir daí, o comportamento muda, alguns alunos se escondem, outros se apagam e alguns, como o Alecrim, resolvem incendiar o próprio prédio, porque quem não consegue aprender costuma tentar sobreviver.
E sobreviver, na escola, pode assumir formas curiosas, tem aluno que vira palhaço da turma, outros se transformam em brigão, alguns se especializam em interromper aula, não porque quer destruir o professor, mas porque destruir a aula é, às vezes, a única maneira de escapar da sensação de fracasso.
E, curiosamente, essas coisas quase nunca aparecem nos livros de pedagogia.
Os cursos falam de metodologias ativa, planejamento, avaliação formativa, aprendizagem significativa.
Tudo importante, sem dúvida.
Mas raramente alguém explica o que fazer quando um menino de dez anos chega na escola carregando nas costas uma mochila invisível feita de frustração acumulada, algo que pesa mais do que qualquer livro didático.
É aí que nasce o rótulo, aluno difícil.
O curioso é que o rótulo funciona como um tipo de anestesia pedagógica, depois que a etiqueta é colada, a pergunta muda. Deixamos de perguntar o que aconteceu com ele, e passamos a perguntar como lidar com ele.
Percebeu a sutileza?
A investigação vira controle, curiosidade vira protocolo e assim a escola, sem perceber, pratica uma forma elegante de exclusão.
Não aquela exclusão antiga, de portão fechado, hoje ela é mais sofisticada, o aluno permanece matriculado, frequenta as aulas, está na chamada, mas vai sendo empurrado, pouco a pouco, para a periferia invisível da sala.
Ele senta no fundo, recebe atividades simplificadas, o professor evita confronto para não “atrapalhar a aula”.
E pronto, temos inclusão no papel e abandono pedagógico na prática.
Enquanto isso, o Alecrim cresce, vai acumulando uma coleção de olhares que dizem, sem palavras… “esse não tem jeito.”
O curioso é que, de vez em quando, acontece um pequeno milagre, um professor decide escutar antes de corrigir, pergunta antes de advertir, investiga antes de rotular e descobre algo surpreendente. O aluno difícil, às vezes, só precisava de um adulto que acreditasse que ele ainda é aluno e não um problema nem estatística.
Aluno…
Claro que não é simples, há turmas lotadas, relatórios intermináveis, planilhas que se multiplicam como coelhos burocráticos.
Há professores cansados e nem acabamos o primeiro bimestre, e com razão.
A escola pública brasileira, muitas vezes, exige heroísmo de quem mal recebeu escudo, mas ainda assim, mesmo nesse cenário meio caótico, meio improvisado, ainda acontecem coisas extraordinárias.
Um professor que muda a estratégia, outro que senta ao lado do aluno em vez de falar de longe, alguns que descobrem que aquele menino que não copia nada sabe explicar o exercício oralmente melhor que metade da sala.
Pequenos gestos, pequenas brechas, pequenas rebeliões pedagógicas contra a lógica silenciosa do descarte.
Porque, no fundo, ensinar sempre foi um ato de teimosia, de acreditar que alguém pode aprender mesmo quando o histórico diz que não e talvez seja essa a pergunta que precisamos começar a fazer nas escolas.
Não apenas “como lidar com o aluno difícil?”
Mas algo muito mais desconfortável como, quantos alunos difíceis a escola produz antes de começar a chamá-los assim?
E, se formos realmente honestos… quantos Alecrins ainda estão sentados no fundo da sala esperando que alguém perceba que eles não são o problema, são apenas o retrato de um sistema que desistiu cedo demais?





