
Monja Coen e o psiquiatra José Rubens Naime defendem um olhar atento para a infância, que reconheça a singularidade de cada criança sem negligenciar sinais de sofrimento psíquico.
@caroline_leidiane
A infância da atualidade convive com um paradoxo. Ao mesmo tempo em que os avanços da medicina, da neurociência e da psicologia ampliaram a capacidade de identificar transtornos do neurodesenvolvimento e do comportamento, também cresceram os debates sobre a tendência de interpretar diferenças individuais como patologias.
Diante das mudanças na dinâmica familiar, do excesso de estímulos digitais e das novas demandas escolares, distinguir a diversidade do sofrimento psíquico tornou-se um dos principais desafios da educação e da saúde.
A 11ª edição do Congresso Internacional de Educação do Noroeste Paulista (Cienp), realizada de 22 a 23 de julho na Cidade Universitária da Unifev, reuniu cerca de 2 mil pessoas entre especialistas, educadores, gestores e profissionais da Educação. Com o tema “Infância, Vínculos e Aprendizagem”, o evento recebeu a monja zen-budista Coen Roshi para a palestra de abertura.
Autora de mais de 30 livros e uma das principais referências brasileiras em reflexões sobre cultura de paz, convivência, escuta e desenvolvimento humano, Monja Coen destacou que todos pertencem à mesma família — a família humana —, mas que isso não significa uniformidade. Para ela, cada criança possui seu próprio ritmo, personalidade e forma de se desenvolver.
Após a palestra, em entrevista concedida à reportagem no camarim, a líder espiritual ampliou a discussão ao abordar um tema que ultrapassa os limites da educação e alcança também a saúde: o crescimento dos diagnósticos na infância e a necessidade de preservar a singularidade de cada criança diante da medicalização.
Ao comentar o aumento dos diagnósticos infantis, defendeu cautela antes de qualquer intervenção e questionou a tendência de transformar diferenças de comportamento em transtornos.
“É uma coisa muito delicada e que não deve ser feita para todo mundo de qualquer jeito. E nem deve ter diagnósticos fechados. Nesse momento essa criança está se manifestando dessa forma. Por quê? Qual é a necessidade verdadeira dela? Será que é remédio? Será que nós queremos acalmar as pessoas que, às vezes, por serem mais inteligentes, por serem mais ativas, não ficam quietinhas como os outros?”, refletiu.
Na avaliação de Monja Coen, o ambiente escolar precisa estar preparado para acolher crianças com diferentes formas de aprender e de se comportar, oferecendo escuta, afeto e estratégias pedagógicas.
“Nós temos que mudar todo o processo educacional e de referências. Professores têm que saber lidar com crianças que não são iguais. Para quem é mais ativo, mais atividades. Faça coisas para que ele se mexa mais na sala de aula. Não adianta recorrer a um remédio apenas para fazer uma criança ficar quieta. Você pode estragar a vida de um ser humano para sempre. Então essa responsabilidade que eu sempre falo da acolhida, do respeito ao diferente, não do igual. Não daquele que se comporta como todo mundo. Aquele que está se comportando diferente. Será que isso é remédio? Ou será que precisa de afeto? De atenção. Vamos pensar nisso com mais cuidado, por favor, gente”, ponderou Monja Coen.
Entre o diagnóstico e o rótulo
Uma revisão sistemática publicada no portal PubMed Central, mantido pela National Library of Medicine (Estados Unidos), identificou um aumento no número de diagnósticos de Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH) nas últimas décadas.
Os autores observam, no entanto, que esse aumento não pode ser atribuído exclusivamente a uma maior ocorrência do transtorno. Segundo eles, o crescimento também pode refletir mudanças nos critérios diagnósticos, maior conscientização sobre o TDAH, ampliação do acesso aos serviços de saúde e, em alguns contextos, a possibilidade de sobrediagnóstico.
O médico psiquiatra José Rubens Naime, que atua há mais de três décadas na área e possui pós-graduação em Psicologia Analítica de Carl Gustav Jung, afirma que esse cenário também está relacionado aos avanços na investigação clínica e à maior precisão das avaliações realizadas atualmente.
“A questão dos diagnósticos, além de haver uma melhor preparação dos profissionais das áreas de neurologia e psiquiatria, os diagnósticos passaram a contar com o apoio de exames complementares em medicina, neurologia e neuropsicologia”, explica.
Naime ressalta que diferentes condições exigem análises distintas.
“Temos que diferenciar estados ansiosos, que muitas vezes dizem respeito às exigências familiares, pessoais e sociais, dos transtornos do neurodesenvolvimento e das doenças mentais de origem genética e metabólica. O Transtorno do Espectro Autista (TEA), por exemplo, é uma condição relacionada à neurodivergência e não é considerado uma doença. Trata-se de um transtorno do neurodesenvolvimento que afeta as relações pessoais, familiares e sociais e que não é corrigido por medicação. Já o TDAH está relacionado à imaturidade do sistema dopaminérgico. Também é um transtorno do neurodesenvolvimento, mas, em muitos casos, a medicação contribui para normalizar a atenção e reduzir os sintomas. O TDAH afeta primariamente o desenvolvimento individual e, de forma secundária, repercute nas relações familiares e sociais, podendo aumentar o risco de outros transtornos quando não identificado e tratado adequadamente”, pontua.

Para o psiquiatra, um diagnóstico exige responsabilidade, porque seus efeitos podem acompanhar a criança por muitos anos.
“Rotular uma criança de forma precipitada é cravar nela um rótulo que pode sofrer alteração com a idade e isso ficar como uma marca negativa”, adverte.
O diagnóstico começa antes da receita
Na avaliação do especialista, nenhuma decisão sobre tratamento medicamentoso deve ocorrer sem uma investigação ampla da história da criança. A anamnese precisa reunir informações tanto do paciente quanto da família, da escola e de profissionais especializados.
“Um bom diagnóstico é feito com a cooperação de várias instâncias. Se foi a escola quem encaminhou, deve-se ter um relatório da escola discorrendo sobre o porquê de ela achar que a criança apresenta tal e tal problema. Deve-se contar com a história familiar, relatada pela família sobre sua estruturação e sobre as condições de nascimento dessa criança nessa família. Deve-se contar com um exame neuropsicológico realizado por um profissional da psicologia. Deve-se contar com uma observação do comportamento da criança durante sessões de psicodiagnóstico”, avalia.
Ao abordar o tratamento, Naime afirma que a decisão sobre o uso de medicamentos precisa levar em conta a repercussão do quadro na rotina e no desenvolvimento da criança.
“O que define o uso de medicamentos é o grau de comprometimento comportamental da criança diante dos desafios da vida”, frisa.
Ele diferencia, por exemplo, uma criança com dificuldades persistentes de atenção, compatíveis com TDAH, de outra que apresenta sintomas relacionados à ansiedade, como insônia, alterações alimentares e irritabilidade, condições que exigem abordagens distintas.
Família, escola e rotina
Embora reconheça que alguns transtornos necessitem de tratamento especializado, Naime afirma que parte das mudanças observadas no comportamento infantil também está relacionada às transformações vividas pelas famílias nas últimas décadas. O excesso de trabalho, a redução do tempo de convivência e o ritmo acelerado da vida moderna, segundo ele, modificaram profundamente a experiência da infância.
“O que se visa é que a família possa conviver mais entre si, para que o ambiente familiar não seja substituído por escola, trabalho e atividades que tirem a criança do convívio familiar”, afirma.
De acordo com o psiquiatra, a crescente presença das tecnologias digitais faz parte desse contexto, ao alterar a forma como crianças e adolescentes se relacionam com o mundo e com as pessoas ao seu redor.
“Para preencher o vazio deixado pela convivência familiar e social, antes havia a televisão e hoje há o celular. A televisão fica fixa e pode ser desligada e religada. Porém, o celular anda junto com a pessoa como se fosse um apêndice do corpo”, compara.
Além disso, o uso excessivo desses dispositivos também interfere no desenvolvimento infantil.
“O celular, excelente para a comunicação em adultos, tornou-se um fator de adoecimento na infância. A capacidade de abstrair, de fantasiar e de criar foi substituída por conteúdos prontos que vêm de fora e que obedecem aos interesses de quem manipula as informações”, salienta.
O psiquiatra acrescenta que o cuidado com a saúde mental também passa pela rotina. Hábitos como sono de qualidade, alimentação equilibrada, prática de atividades físicas, brincadeiras longe das telas e a definição de limites pelos pais podem, em alguns casos, evitar ou até mesmo reverter maneiras de agir frequentemente confundidas com transtornos psiquiátricos.
“Todos esses comportamentos, que parecem fora de uso, que parecem antiquados, mas que, do ponto de vista da qualidade humana de vivência, são estruturantes. Um equilíbrio pessoal e individual (entre físico, mental, psíquico e espiritual) e o social-familiar”, ressalta.
Ao falar sobre prevenção, Naime defende uma atuação conjunta entre família e escola. O acolhimento, afirma, favorece a identificação precoce de situações de violência e sofrimento, enquanto a convivência familiar, a arte, a cultura, o esporte e os momentos compartilhados contribuem para o desenvolvimento saudável da criança.
Singularidade e patologia
O debate sobre a medicalização infantil também passa pelo reconhecimento de que a infância não é uma experiência homogênea. Crianças aprendem, se relacionam e expressam emoções de maneiras distintas, influenciadas por fatores biológicos, familiares, culturais, sociais e econômicos.
Reconhecer essa diversidade não significa ignorar transtornos do neurodesenvolvimento ou do comportamento, mas evitar que qualquer manifestação considerada fora do padrão seja automaticamente interpretada como patológica.
“A singularidade de uma criança (assim como de qualquer pessoa) se faz às custas dos instintos básicos presentes em todo animal (instinto de sobrevivência e instinto de reprodução ou sexual). A criança, por estar conhecendo o mundo em que vive, necessita explorar os elementos à sua volta. A criança o faz tanto fisicamente, com os órgãos dos sentidos (visão, olfato, tato, audição e gustação), como também através das fantasias criadas por sua imaginação”, esclarece.
Esse processo infantil leva a criança a “criar um mundo particular (de dentro para fora), visando à integração com o meio familiar e social em que vive. Cada criança agirá do modo que pode exercer sua energia. Umas agirão de forma mais extrovertida; outras, de forma mais introvertida”, detalha.
O cuidado compartilhado
De acordo com Naime, reconhecer precocemente sinais de sofrimento psíquico é importante, mas essa responsabilidade não pode recair apenas sobre o médico. Família e escola ocupam posições estratégicas na observação do desenvolvimento infantil.
Na visão do especialista, mudanças persistentes de comportamento merecem atenção quando passam a comprometer a aprendizagem, a socialização ou a qualidade de vida da criança.
Entre os sinais que justificam uma investigação clínica estão isolamento excessivo, dificuldades persistentes de aprendizagem, problemas de socialização, episódios recorrentes de agressividade, insônia, pesadelos frequentes, resistência intensa à escola, atrasos importantes no desenvolvimento da fala ou da marcha e crises convulsivas, que exigem avaliação neurológica.
O psiquiatra argumenta que a família permanece como o primeiro espaço de formação ética, afetiva e cultural, enquanto a escola ocupa um lugar privilegiado na identificação das potencialidades e dificuldades apresentadas pelos estudantes. Reuniões familiares, momentos de convivência, atividades culturais, esporte, arte, dança e teatro contribuem para o desenvolvimento saudável e para a construção dos vínculos sociais.
No centro desse debate, educação e saúde convergem para um mesmo princípio: a infância não deve ser reduzida a um diagnóstico, mas tampouco pode ter seus sinais de sofrimento ignorados. O desafio está em construir um olhar capaz de reconhecer quando uma criança precisa apenas de tempo, acolhimento e oportunidades para se desenvolver e quando, de fato, necessita de acompanhamento especializado.
Entre a negligência e o excesso de diagnósticos, o desafio apontado pela educação e pela saúde é construir um olhar capaz de reconhecer o sofrimento quando ele existe, sem reduzir a infância a classificações.
Como destacou Monja Coen durante o congresso, as crianças pertencem à mesma família humana, mas nenhuma delas se desenvolve exatamente da mesma maneira. É justamente nessa diversidade que reside um dos maiores desafios — e também uma das maiores responsabilidades — de pais, educadores e profissionais da saúde.




