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Madrugadas silenciosas em Votuporanga

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 – Nas madrugadas silenciosas de Votuporanga, quando ainda as segundas-feiras eram dias tenebrosos, as horas davam a impressão que estas segundonas eram os dias de folgas do tempo que não passava. Atribuo o marasmo à ausência da famigerada televisão, por conta dos seus intermináveis e envolventes entretenimentos. E nós, jovens sonhadores usávamos as noites para vagabundear e, reunidos, agradecíamos aos Céus pelo fim do dia e dando alvíssaras pelo começo do outro que nascia, quando os ponteiros do relógio se encontravam na hora zero.
Para narrar o que vem pela frente, começo pelo ano de 1960. O grupinho de amigos formado por escolhas do coração reunia-se diariamente, numa alegria fraterna. Fazia parte comigo, o Toninho Lourenço, seu irmão Joaquim, Agostinho Sartin, o David Mendonça Pontes, o nosso brilhante professor Ernomar Octaviano, ainda solteiro, o Lannoy Dorin, professor do Instituto de Educação “Dr. José Manoel Lobo” e eventualmente o Walter Nascimento, gerente do Cine Votuporanga.
Para quebrar o silêncio das madrugadas, apenas o ronco do motor da geladeira do Bar Paramount e o vozerio atroante dos comensais noturnos, viciados no consumo dos incomparáveis e saborosos sanduíches “Baurús” confeccionados no Bar do Shimata Shinohara. E não posso deixar sem registro a nossa própria contribuição com as gargalhadas que se ouviam ao final das interpretações das piadas ou das declamações de poemas satíricos na gestualidade teatral do Ernomar, ou dos discursos inflamados na voz metálica do Lannoy.
Estas madrugadas eram sacudidas pelas diversidades culturais oriundas dos inspirados “curiangos”: alunos, professores e do cinéfilo admirável. O Ernomar imitando o Orlando Silva na fase áurea do “Cantor da Multidões” era de arrepiar. Principalmente, quando caprichava nos trinados. Com o Walter Nascimento incursionávamos pelo mundo da “Sétima Arte”. Era eletrizante ouvir suas narrativas sobre filmes ou sobre a vida cinematográfica dos artistas não só de Wollywood.
Foi numa dessas madrugadas que eu e o Toninho Lourenço decidimos conceder um título honorífico ao Gerente do Cine Votuporanga. Contando com fotografia em meu poder feita pelo Luizinho Sato na ocasião da homenagem, prometo esmiuçar as razões do nosso gesto numa bem próxima crônica.
As dependências do Bar Paramount se alongavam no espaço destinado ao restaurante. Às vezes era ali que sentávamos, tendo a companhia do Juca Ferraz, nosso colega da Escola Técnica de Comércio, meu vice-presidente do Centro Estudantil, um dos proprietários daquele estabelecimento e, orgulhosamente citado como ex-Pracinha nos campos heroicos da Pistóia invicta. De modo que, entre salgadinhos e moderadas libações alcoólicas geladinhas, dávamos vazões aos nossos espíritos vorazes por buscar novos horizontes no cenáculo imaginário da Cultura. Assim foi que neste mesmo ano, por iniciativa do Ernomar Octaviano surgiu ali mesmo uma ideia de criação da Academia Votuporanguense de Letras. Ideia bem sucedida que o Ernomar levou para ser beatificada por vários colegas seus do magistério local. Obtendo decidido e decisivo apoio do professor Azor Silveira Leite tudo caminhou no sentido do êxito. O primeiro desafio foi o da composição dos membros desta Arcádia nascente nos confins sertanejos do Oeste paulista.
Não será agora que vou contar a história da pretenciosa fundação, em virtude das apaixonantes movimentações de alguns futuros confrades acadêmicos e em função da escolha dos patronos das cadeiras. Tudo fica para depois. Mas, o que eu quero registrar agora são duas informações essenciais: o professor Ernomar em 1960 concluiu o seu vasto poema épico “A Uiara do Rio Rio” e o declamava com a emoção de vate comovido pela sutileza criativa. Daí nasceu o projeto Academia. Outro desafio literário do valoroso mestre são-carlense foi uma elaboração de Dicionário de Palavrões ou coisa aproximada. Em 1966, certa noite na Praça Dom José Gaspar, no amplo calçadão do Edifício do IDORT ao término da última aula de um Cursinho onde eu lecionava, lá estava me aguardando o Ernomar. Surpresa igual só comparável ao abiscoitar o primeiro prêmio da Lotofácil. Acalmada a emoção, ele me convidou para contribuir com verbetes inéditos. Tomamos o rumo da Rua Augusta e nos alojamos num certo barzinho, onde elucubramos algumas concepções inovadoras até que o sono nos venceu e nos despedimos para sempre. Separou-nos as atribulações da vida de forma implacável e repetitiva.
Lamentável também quando ao se priorizar as responsabilidades, vem depois a dona morte, eterna, imutável e definitiva condenando-nos a pagar o imposto da saudade. Saudade que é um sentimento tão grande. Quando não cabe mais no coração, escorre pelos olhos.
E eu que precisava repetidamente abastecer-me na doçura destas amizades, como fico?

FOTO TAKEO SATO

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