Infâncias em modo avião e salas em modo giz 

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Alberto Martins Cesário, professor e escritor - Foto: Reprodução

Alberto Martins Cesário, professor e escritor 

A infância não acabou, ela apenas trocou o recreio pelo carregador. Enquanto crianças deslizam o dedo na tela antes mesmo de amarrar o cadarço, a escola ainda tenta entender se proíbe o celular, se o abraça ou se aprende a conversar com ele. No meio desse impasse, professores seguem fazendo o que sempre fizeram, tentando ensinar gente em um mundo que muda mais rápido que o sinal do intervalo.

Existe um instante curioso no começo de cada aula em que o professor percebe que entrou em duas salas ao mesmo tempo, a de paredes descascadas, carteiras alinhadas e ventilador barulhento… e outra, invisível, feita de luz azul, vídeos curtos e conversas silenciosas que acontecem atrás dos olhos dos alunos. Ele ajeita o material na mesa, respira fundo e entende, sem que ninguém precise avisar, que ensinar hoje é dar bom-dia para corpos presentes e mentes conectadas em redes que não cabem no quadro.

A infância mudou de roupa, de linguagem, de velocidade. Hoje ela corre em fibra óptica e tropeça em notificações, mas, a escola, coitada, ainda amarra o tênis com cadarço duplo e pede calma para começar a corrida.

Outro dia vi um aluno de oito anos explicar para o colega como pular anúncios de um vídeo em cinco segundos exatos, com a precisão de um cirurgião digital. Cinco minutos depois, ele demorava uma eternidade para localizar a letra “F” no alfabeto colado na parede e não era falta de inteligência, era outra lógica, outro ritmo, outra infância. Como se a mente tivesse aprendido a deslizar antes de aprender a pousar.

A sala de aula virou um curioso museu vivo, de um lado, o quadro de giz, esse veterano que resiste como um avô elegante em festa de jovens, do outro, crianças que nasceram tocando telas como quem aprende a respirar. O giz ainda range, o apagador ainda levanta poeira, e lá no fundo alguém pergunta a senha do Wi-Fi como quem pede água no deserto.

Não se trata de culpar a tecnologia. Seria injusto e preguiçoso, o problema não é o tablet, é achar que ele é milagre ou vilão. O tablet é só um objeto, o milagre ou o desastre continua sendo humano. A tecnologia é ponte e também é abismo, depende de quem atravessa e de quem constrói o corrimão. 

Os cursos de pedagogia nos ensinaram sobre Piaget, Vygotsky, teorias lindas, diagramas elegantes. Mas não avisaram que um dia teríamos que disputar atenção com vídeos de quinze segundos que têm mais efeitos especiais do que o orçamento anual da escola. 

Não disseram que o silêncio viraria artigo de luxo e nem que ler um parágrafo inteiro poderia soar para alguns como atravessar um deserto sem garrafa d’água.

E ainda assim… ainda assim há poesia. Sempre há.

Ela aparece quando um aluno descobre o prazer de terminar um livro e olha para o professor como quem diz “não sabia que dava para viajar sem sair da cadeira”. Surge quando a turma inteira consegue ficar dois minutos em silêncio, dois minutos! e o mundo não acaba. Brota quando alguém levanta a mão não para pedir para ir ao banheiro, mas para perguntar “por quê?”. Esse “por quê?” que ainda é o Wi-Fi mais potente da educação.

A escola vive um paradoxo bonito e dolorido, precisa acompanhar o mundo sem perder a alma, necessita ensinar a usar telas sem deixar que elas usem as pessoas e tem que atualizar ferramentas sem aposentar o abraço. Porque, no fim das contas, nenhuma tecnologia substituiu o olhar que percebe o aluno triste, o elogio que chega na hora certa, a piada que salva uma manhã inteira.

Há dias em que o professor se sente um tradutor simultâneo entre dois planetas. De manhã, fala sobre pontuação, à tarde, aprende com a turma um atalho novo no celular. Ele ensina vírgulas enquanto descobre emojis, é cansativo, bonito e é humano. A docência virou esse lugar onde se carrega giz no bolso e tutorial na memória. 

O perigo não é a infância ser digital é a escola fingir que ela não é. Ou, pior, tentar virar uma cópia mal feita do que já existe fora de seus muros. 

A escola não precisa competir com a velocidade do mundo ela precisa oferecer aquilo que o mundo não tem paciência de dar, tempo para pensar, espaço para errar, silêncio para ouvir a própria cabeça. 

Talvez o livro físico seja hoje um objeto quase arqueológico nas mãos de quem desliza telas desde o berço, mas quando esse livro encontra o leitor certo, ele ainda acende incêndios silenciosos e nenhum algoritmo, por mais sofisticado que seja, conseguiu reproduzir a sensação de alguém dizer: “Lê isso aqui, é bonito”. 

A verdade é que não educamos mais crianças do futuro. Educamos crianças do agora e o agora é barulhento, luminoso, acelerado e, paradoxalmente, carente de pausas. A escola não pode ser um museu do passado, mas também não deve virar um shopping de novidades pedagógicas.  

Ela é, ou deveria ser, uma ponte viva aonde de um lado, o toque da tela e do outro, o toque humano. 

No fim do dia, quando o professor apaga o quadro e guarda o giz, esse pequeno fóssil branco de resistência, fica a pergunta que nenhum manual responde e nenhum aplicativo atualiza automaticamente… estamos ensinando crianças a navegar no mundo ou apenas tentando acompanhá-las enquanto elas já sabem nadar melhor do que nós?