Garota resgatada de exploração sexual e cárcere privado em boate está grávida e teve socorro negado após picada de aranha, diz testemunha 

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Regina Aparecida Marques Vieira, de 19 anos, foi encontrada morta em uma boate em Auriflama — Foto: Reprodução/Facebook

Polícia prendeu quatro homens, sendo dois em flagrante, em uma operação em Auriflama/SP, na segunda-feira (24). Pelo menos dez jovens foram identificadas como vítimas. Investigações começaram após uma delas morrer.


Uma garota de 26 anos, vítima da organização criminosa suspeita de explorar sexualmente mulheres e mantê-las em cárcere privado, que foi resgatada de uma boate em Auriflama/SP, está grávida de seis meses. Segundo uma testemunha que ajudou no resgate, a vítima teve socorro negado após ser picada por uma aranha.

A Polícia Civil identificou pelo menos dez jovens vítimas da quadrilha investigada pelos crimes cometidos em boates em Catanduva/SP, Auriflama/SP, Pereira Barreto/SP e Aparecida do Taboado/MS. Todas as boates são do mesmo proprietário.

A quadrilha é investigada por organização criminosa, favorecimento da prostituição, cárcere privado, estupro e homicídio.

Durante a operação, na segunda-feira (24), em Auriflama, a polícia prendeu quatro homens, sendo dois em flagrante por tráfico de drogas. Após um mandado de prisão, os policiais encontraram e prenderam o gerente e o dono dos recintos em Auriflama. Um homem identificado como ex-gerente de Catanduva está foragido.

Bruna de Carvalho, comerciante na cidade, contou ao g1 que ajudou a resgatar a jovem grávida. Ela disse que, há um mês, a vítima, que não vai ser identificada pela reportagem, foi picada por uma aranha no braço e pedia para que o gerente da boate a levasse para atendimento médico, mas teve o socorro negado.

Depois de três dias, ao notar que a região do corpo picada estava inchada, a mulher conseguiu conversar com uma colega e pedir ajuda. Então, Bruna, que estava junto a essa amiga, disse para a vítima esperar na porta da boate que ela a levaria para um hospital. 

“Ela me disse que estava devendo para o dono da boate. Eu liguei para ele, mas ele não me atendeu. Na porta da boate, o segurança disse que iria junto. Eu neguei e disse que o que eles estavam fazendo era cárcere privado e sendo desumanos com uma mulher grávida”, reforça Bruna. 

No caminho para a Santa Casa, Bruna contou que o dono da boate retornou a ligação e questionou para onde ela tinha levado a vítima. Segundo a comerciante, o homem começou a discutir com ela por telefone. 

Apesar disso, Bruna confirmou que deixou a grávida na Santa Casa. Ainda de acordo com a testemunha, a vítima revelou que foi espancada pelo segurança e queria ajuda para conseguir quitar as dívidas e parar de trabalhar na boate. “Ela [vítima] tem muito medo dele, porque ele ameaça a família toda dela”, completa Bruna. 

Quando soube da situação, Bruna acionou a delegada Caroline Baltes, que recebeu relatos de outras jovens alvos dos crimes de exploração sexual, tortura, estupro e cárcere. Um cliente, de acordo com Bruna, soube que a vítima estava grávida e pagou a dívida dela. 

À reportagem, a delegada disse que a grávida conseguiu escapar com a ajuda do cliente, mas não tem coragem de prestar depoimentos formais à polícia sobre os episódios de violência. 

Morte de jovem de 19 anos 

As investigações começaram após Regina Aparecida Marques Vieira, de 19 anos, ser encontrada morta no dia 25 de fevereiro, na boate em Auriflama. Dias antes, a delegada informou que a jovem foi espancada no recinto. O corpo dela foi enterrado em Fernandópolis. 

O caso, inicialmente tratado como suicídio, passou a ser investigado como homicídio ou indução ao suicídio. Conforme a polícia, as mulheres eram atraídas pelos criminosos com falsas promessas de trabalho. 

Durante as apurações, a polícia identificou que as vítimas em situação de vulnerabilidade eram induzidas a trabalhar nas boates e, depois, privadas de sair de dentro dos imóveis, além de ficarem sem alimento, água e acesso a comunicação. 

*Com informações do g1