
No Dia Internacional da Pipa, celebrado hoje (14), a tradição de soltar pipas revela memórias, afetos e desafios entre cultura, brincadeira e responsabilidade coletiva



@caroline_leidiane
O céu como território de imaginação, o vento como aliado imprevisível e as mãos, por meio de uma linha, guiando com cuidado aquilo que se deseja ver ganhar altura.
Celebrado hoje (14), o Dia Internacional da Pipa nasce da tradição de grandes festivais realizados na Ásia, especialmente na Índia, onde a data coincide com o Makar Sankranti, celebração milenar que marca a transição do sol para o hemisfério norte e simboliza renovação, prosperidade e novos ciclos.
Nesse contexto, soltar pipa representa alegria coletiva, encontro e esperança — sentidos que atravessaram fronteiras e transformaram o gesto em símbolo universal.
Uma história que atravessa séculos e culturas
Muito antes de se tornar brincadeira, a pipa teve funções práticas e rituais. Surgida há mais de dois mil anos na China, foi utilizada em comunicações militares, estudos científicos e cerimônias espirituais.
Ao circular pelo mundo, ganhou nomes, formatos e significados próprios. No Brasil, tornou-se papagaio, arraia, pandorga, raia. Feita de papel de seda, varetas de bambu e linhas simples, carrega um saber artesanal transmitido de forma oral e prática, de geração em geração.
Aprendizado, convivência e tempo compartilhado
Há, nesse brincar, uma pedagogia silenciosa. A pipa ensina a esperar o vento certo, a refazer o que não deu certo, a dividir o céu e a aceitar perdas. É também um ritual de sociabilidade.
Em tempos de telas constantes e experiências mediadas por algoritmos, o voo da pipa preserva a espera, o fazer manual — individual ou coletivo — e o encontro, seja com a imensidão do céu, seja com a delicadeza do tempo partilhado entre quem divide o mesmo vento.
Tradição, beleza e responsabilidade
Celebrar essa tradição, no entanto, exige atenção redobrada. Em áreas urbanas, soltar pipa próximo à rede elétrica pode provocar danos aos cabos de energia, causar interrupções no fornecimento e expor quem empina ao risco de descargas elétricas. Isso ocorre quando a linha se enrosca nos fios, pode rompê-los ou conduzir eletricidade até a pessoa que está soltando a pipa, transformando a brincadeira em uma situação de perigo real.
O risco se agrava com o uso de linhas cortantes, como cerol e linha chilena, que representam ameaça direta para pedestres, ciclistas e motociclistas, podendo causar ferimentos graves e acidentes fatais no trânsito.
Situações como essas, recorrentes em diferentes cidades brasileiras, motivaram campanhas educativas, ações de fiscalização e debates públicos voltados à preservação de vidas, sem comprometer a continuidade da cultura do brincar.
Votuporanga: entre iniciativas locais e o desejo de manter o céu colorido
Em Votuporanga, a relação entre tradição e cuidado passou a contar com respaldo legal em junho de 2024, com a sanção da Lei nº 7.162, que incluiu o Festival de Pipas, Papagaios e Similares no Calendário Oficial de Eventos do Município.
Prevista para ocorrer anualmente no mês de agosto, dentro das comemorações do aniversário da cidade, a iniciativa estabelece como diretriz central a segurança: durante o evento, fica expressamente proibido o uso de cerol ou de qualquer material cortante em linhas, fios, pipas ou rabiolas.
De autoria da vereadora Jezebel Silva, a legislação reconhece o valor cultural da brincadeira e reafirma a importância de preservar o céu como espaço de convivência, lazer e responsabilidade coletiva. Já em 2025, o município avançou ainda mais nessa postura ao sancionar uma lei que proíbe a venda, a posse e o uso de cerol, linha chilena ou outros materiais cortantes em pipas e similares, alinhando-se à legislação estadual que já vedava esse tipo de prática.
A norma prevê penalidades que vão desde a apreensão dos materiais até multas que podem ultrapassar R$ 1.500,00 para quem comercializa ou reincide na infração, com responsabilidade estendida aos responsáveis legais quando se trata de crianças ou adolescentes.
A cidade também preserva na memória experiências que ajudaram a consolidar esse costume. Um dos exemplos mais emblemáticos foi o Assary Clube de Campo, que, por anos, promoveu campeonatos de pipa com categorias premiadas, como a de Maior Pipa. As atividades reuniam famílias, crianças e adultos em torno da prática esportiva, transformando o clube em ponto de encontro e referência cultural, com destaque no calendário informal do município.
Entre linhas esticadas e olhos voltados para o alto, a pipa permanece como um gesto simples que atravessa o tempo, conectando infância, memória e vida coletiva. Celebrar o Dia Internacional da Pipa é reconhecer a força cultural de um brincar que ensina paciência, convivência e respeito ao espaço comum, sem ignorar os cuidados que ele exige no cenário urbano contemporâneo.
Mas fica o alerta: a pipa deve permanecer como símbolo de encontro, imaginação e liberdade — jamais de risco ou imprudência.




