
Três anos após os ataques às sedes dos Três Poderes, a memória do 8 de janeiro reafirma que recordar é um ato de defesa da democracia, diante de marcas materiais, simbólicas e institucionais que ainda exigem vigilância coletiva

@caroline_leidiane
Este mês traz à superfície um dos episódios mais devastadores da memória democrática brasileira. Há três anos, em 8 de janeiro de 2023, o país foi marcado por atos de violência que culminaram na invasão e depredação da Praça dos Três Poderes, atingindo o Congresso Nacional, o Supremo Tribunal Federal e o Palácio do Planalto, em uma das mais graves agressões à ordem democrática desde a redemocratização.
O episódio não foi apenas um ataque a prédios públicos, mas uma tentativa explícita de ruptura institucional, cujos efeitos ainda reverberam na política, cultura e memória coletiva do país.
Os danos materiais foram extensos e simbólicos. Obras de arte, mobiliários históricos, documentos oficiais e estruturas arquitetônicas foram destruídos ou seriamente danificados.
No Palácio do Planalto, peças do acervo presidencial foram vandalizadas; no Supremo Tribunal Federal, espaços históricos sofreram depredação; no Congresso Nacional, salões e gabinetes foram invadidos. Os prejuízos financeiros somaram milhões de reais, mas o impacto mais profundo foi o ataque direto a símbolos que representam a soberania popular e o pacto democrático.
Desde então, o processo de reconstrução tem sido contínuo. Restauradores, arquitetos, servidores públicos e especialistas em patrimônio trabalharam para recuperar o que foi possível, enquanto investigações e responsabilizações avançaram no campo jurídico.
A recomposição dos espaços não se limitou à restauração física, mas se tornou também um gesto político e cultural, reafirmando que a democracia brasileira, embora ferida, não foi derrotada.
No campo simbólico, o 8 de janeiro passou a ocupar lugar central no debate público, nas artes, na produção acadêmica e no jornalismo. Exposições, livros, documentários e atos cívicos têm buscado elaborar o trauma coletivo e preservar a memória do que ocorreu, não como exercício de ressentimento, mas como alerta histórico. Lembrar tornou-se uma forma de resistência.
Três anos depois, a data convoca o país a uma reflexão permanente. A democracia não se sustenta apenas por leis e instituições, entretanto por uma cultura política que valorize o diálogo, a pluralidade e o respeito ao resultado das urnas.
Os estragos materiais foram, em grande parte, reparados ou estão em processo de recuperação. Já as marcas simbólicas exigem vigilância constante, educação política e compromisso ético.
Relembrar o 8 de janeiro é reconhecer a democracia como um patrimônio imaterial, sustentado por memória coletiva, imprensa, produção cultural e participação cidadã. Preservá-la exige vigilância permanente e compromisso cotidiano, para que ataques às instituições e ao Estado de Direito não se repitam.
Como advertiu o educador e filósofo norte-americano Robert Maynard Hutchins (1899–1977): “A morte da democracia provavelmente não será um assassinato por emboscada. Será uma lenta extinção causada pela apatia, indiferença e negligência”.




