(Sandra Mara Escudeiro)
E Ele Não Cabe Numa Sacola
“O Natal é a humildade de Deus.” (Santo Agostinho), “Não é quanto damos, mas quanto amor colocamos no que damos.” (Madre Teresa de Calcutá), “O Natal é o momento ideal para reacender o fogo do acolhimento na alma humana.” (Albert Schweitzer), “Natal é quando o homem entende que o outro é indispensável.” (Clarice Lispector), “O propósito do Natal não é que as coisas estejam mais bonitas, mas que sejamos melhores.” (G.K. Chesterton).
Pois é. Quando a gente se dá conta, o ano já terminou … O tempo passou de novo – rápido, atrevido, sem pedir licença. E lá estamos nós, outra vez, às vésperas do Natal, tentando entender quando foi que janeiro ficou tão distante.
Curioso pensar que o Natal, antes de ser data, já foi gesto. Muito antes de vitrines iluminadas e playlists repetidas, povos antigos se reuniam para celebrar a passagem do tempo, a chegada do inverno, a esperança de recomeço. Mesa farta, troca simbólica, olhos no outro. Nada muito diferente do que ainda buscamos – só que hoje com mais embalagem.
No século IV, o Cristianismo deu nome e sentido oficial à festa: Natale Domini. Não se sabia o dia exato do nascimento de Jesus, mas sabia-se o essencial: era preciso marcar no calendário a chegada de uma ideia revolucionária – a do amor como lei maior. Depois veio São Francisco, no século XIII e montou o presépio para explicar com simplicidade aquilo que palavras sozinhas não davam conta: Jesus escolheu nascer humilde.
O pinheiro veio do frio europeu. O bom velhinho, do marketing do século passado, vestido de vermelho e distribuindo felicidade parcelada. E assim, entre estrelas, renas e comerciais, o Natal foi ganhando adereços. Muitos. Alguns excessivos. Outros dispensáveis.
E todo dezembro insiste em nos convencer de que o Natal cabe numa sacola – de preferência com alça resistente e etiqueta elegante. Mas os presentes mais importantes nunca passam pelo caixa. Chegam sem embrulho, meio tortos e são os mais importantes!
O primeiro deles é o tempo. Raro, escasso, sempre fora de estoque. Tempo para sentar-se sem culpa, ouvir histórias repetidas e rir como se o relógio tivesse perdido as pilhas. Tempo que não cabe na agenda, mas se esparrama no sofá.
Depois vem a presença. Aquela inteira, sem celular na mão, sem pressa no olhar. Presença que não se embrulha, mas aquece. Que não custa nada e vale tudo.
Há também o afeto – em forma de abraço apertado, conversa atravessando a noite, pedido de desculpas atrasado ou um tímido “senti sua falta”. Não tem garantia, mas funciona.
E o Natal, generoso como só ele, ainda serve o prato mais delicado: a memória. Ele traz quem não veio, senta ausências à mesa e transforma saudade em companhia silenciosa. Dói um pouco, sim. Mas lembra que amar deixa marcas – e isso é um privilégio.
Para muitos, ainda há a esperança. Não aquela dos discursos grandiosos, mas a pequena, persistente, que acredita que o ano seguinte pode ser melhor – ou ao menos, mais gentil. Ela não promete milagres, mas insiste em ficar.
E há a leveza. Rir de si mesma (e por que não?!). Perdoar o que deu errado. Aceitar que nem tudo saiu como planejado. Um presente frágil, que quebra fácil, mas quando dura, muda tudo.
No fundo, o Natal deveria distribuir exatamente aquilo que mais precisamos – e que não se encontra à venda nas prateleiras comerciais: tempo, presença, afeto, memória, esperança e leveza. Os outros presentes são ótimos, claro, especialmente se vierem com chocolate, livros, viagens ou pijama novo. Mas são apenas coadjuvantes.
Talvez por isso o Natal siga nos convidando à reflexão. Não para consertar o mundo inteiro de uma vez – mas para começar pelo próprio coração. Uma reforma íntima possível, sem barulho, sem quebra-quebra. Porque antes de esperar que o mundo melhore, é preciso decidirmos melhorar um pouco por dentro.
Assim, o meu desejo é simples e ousado ao mesmo tempo: que este Natal seja diferente. Menos excesso, mais sentido. Menos barulho, mais presença. Que haja luz -não só nas janelas, mas nos gestos. Que haja abraço – mesmo quando silencioso.
Que o Natal chegue manso, sente-se à mesa do coração e fique. Que traga exatamente o que cada um precisa: um descanso, um recomeço, um perdão, um riso inesperado. Não por mágica. Por escolha.
E isso, convenhamos, já é mais do que suficiente. Então, o meu desejo pra hoje é que o espírito do Natal encontre abrigo nos corações, faça silêncio por dentro e, com a luz que traz, se acomode — permanecendo conosco até o próximo Natal!!!
E nada melhor para encerrar do que as palavras de Joana de Ângelis: “A razão da existência é o exercício do amor.” .





