Comorbidade: machismo

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Bruna de Lara –

“A Renata tinha 65 anos […]. Lembro que, quando ela chegou no hospital, perguntei por que não havia se vacinado. […] Ela disse que queria, mas o marido a proibiu”. Esse trecho abre o artigo da repórter Yasmin Santos para a seção Vozes da semana passada, que traz um relato impressionante. Yasmin ouviu a médica Nathália Fraporti, que revelou um fenômeno triste: mulheres que pegam covid-19 e chegam a morrer porque os maridos não permitem que elas se vacinem. Editei o texto e o que vi após a publicação me alarmou.

Nathália, que na pandemia já atuou nas UTIs de quatro hospitais de São Paulo, descreveu casos em que, por alinhamento político com o governo Bolsonaro ou por desinformação agravada pela torrente de fake news da pandemia, homens exigiram que suas esposas não se imunizassem. Nos casos contados por ela, mais tarde os maridos se arrependeram, mas em um dos casos, o da Renata, foi tarde demais: ambos se infectaram, mas ele sobreviveu — ela, não.

Apesar de a pandemia ainda ser recente, a médica identificou que esse tipo de problema não é novo: tratando infecções sexualmente transmissíveis, as chamadas ISTs, durante a residência, Nathália viu com frequência mulheres contraírem doenças como aids e sífilis e terem agravamentos e até a perda de um bebê por medo e vergonha de compartilhar a notícia com o marido — o que é importante para o tratamento do casal e a cura da própria mulher. Outras vezes, os maridos sabiam que eles mesmos as infectaram, mas as convenciam de que não precisavam se tratar. É o machismo estrutural pondo em risco a saúde e a vida das pessoas. E não foi o único tipo de abuso.
Assim que subimos o texto para o site e divulgamos nas redes, começaram a chegar comentários de leitoras e leitores contando que sabiam de casos semelhantes. E foram além. Um dos relatos no Instagram contava: “Tenho um monte de alunos que me falam que os pais não se vacinaram: o pai não deixou a mãe se vacinar e eles, os filhos, também não”. Outro acrescentou: “Eu conheço uma família que seguiu esse tipo de orientação. O marido proibiu a esposa, a cunhada e o sogro. Nessa, o marido também morreu. Ele, a esposa e o sogro. E uma segue com sequelas graves”.

Talvez você esteja pensando que essa é uma realidade distante da sua, envolvendo pessoas muito vulnerabilizadas e sem informação de qualidade, mas não é bem assim. Outro comentário dizia: “Minha tia e madrinha, médica, se foi numa situação assim. E eu ainda não superei a perda dela”. E houve ainda quem contasse que sabia de casos, na Itália e no Brasil, de filhos impedindo seus pais idosos de se vacinarem. Tão triste quanto assustador.

Decidi buscar essas histórias ainda no ano passado, porque tinha quase certeza de que esse tipo de coisa estaria acontecendo no país machista em que vivemos. Não só meu palpite se confirmou, como outros casos de abuso emocional e desinformação vieram à tona.

No Intercept desde 2018 trago histórias em que o machismo maltrata o corpo e a saúde das mulheres, seja abordando as dificuldades em fazer uma laqueadura para não ter mais filhos, mesmo dentro da lei; seja denunciando estupros no sistema público de saúde; seja denunciando a violência obstétrica ou, mais recentemente, expondo o aparelhamento do Conselho Federal de Medicina no governo Bolsonaro — que tornou a autarquia um reduto de misoginia e de ameaça aos direitos das mulheres.

O relato de Nathália à Yasmin, engrossado tristemente pelo testemunho dos nossos leitores nas redes, mostra que o controle sobre os corpos e a saúde das mulheres é um assunto tão grave quanto urgente, que só se agravou no governo Bolsonaro, e que até mesmo em um cenário trágico como o da pandemia insiste em fazer das mulheres alvos e vítimas.