Cicatriz que protege gerações

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A vacina BCG foi desenvolvida na França, por León Charles Albert Calmette (médico e bacteriologista) - na foto à esquerda - e Jean-Marie Camille Guérin (veterinário e microbiólogo) – Foto: arquivo histórico

Há 49 anos no calendário nacional, vacina BCG permanece como principal imunizante contra as formas graves da tuberculose na infância; Votuporanga aplicou 580 doses no primeiro semestre de 2026.


@caroline_leidiane

Há marcas que desaparecem com o tempo. Outras permanecem por toda a vida. No alto do braço direito de milhões de brasileiros, uma pequena cicatriz arredondada acompanha gerações e traduz uma das mais significativas conquistas da medicina preventiva.

Discreta, quase sempre notada apenas com olhar atento, ela remete aos primeiros dias de vida, quando é aplicada a vacina BCG, destinada à proteção das crianças contra as formas mais graves da tuberculose.

Neste 1º de julho, data dedicada ao imunizante, o Brasil celebra também os 49 anos da incorporação da BCG ao calendário nacional de vacinação. Desde 1977, a dose integra a rotina do Programa Nacional de Imunizações (PNI), consolidando-se como uma das principais estratégias para reduzir a mortalidade infantil causada pela doença.

A cicatriz deixada pela vacina BCG acompanha milhões de brasileiros e simboliza quase cinco décadas da imunização contra as formas graves da tuberculose no calendário nacional de vacinação – Foto: reprodução

A marca de uma descoberta centenária

Embora a tuberculose acompanhe a humanidade há séculos, sua compreensão deu um passo decisivo em 1882, quando o médico alemão Robert Koch identificou a Mycobacterium tuberculosis, bactéria causadora da doença. A descoberta representou um marco para a medicina e fez com que o microrganismo passasse a ser conhecido como “bacilo de Koch”, em referência ao cientista.

A principal ferramenta de prevenção contra as formas mais graves da enfermidade surgiria apenas no início do século XX. Após 13 anos de pesquisas e mais de 230 experimentos, o médico francês Albert Calmette e o médico-veterinário Camille Guérin, pesquisadores do Instituto Pasteur, desenvolveram um imunizante a partir de uma cepa atenuada da Mycobacterium bovis, bactéria responsável pela tuberculose bovina e geneticamente próxima da Mycobacterium tuberculosis.

A primeira aplicação da vacina em seres humanos ocorreu em 1921. O imunizante recebeu a sigla BCG — Bacilo Calmette-Guérin — em referência aos sobrenomes de seus criadores e, décadas depois, passou a integrar programas nacionais de imunização em diferentes países.

Proteção que permanece essencial

A BCG é aplicada preferencialmente nas primeiras horas ou dias de vida e sua eficácia concentra-se na prevenção das formas mais graves da tuberculose, especialmente a meningite tuberculosa e a tuberculose miliar, responsáveis pelos maiores índices de mortalidade na infância.

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), a tuberculose permanece entre as principais doenças infecciosas do planeta, apesar de ser prevenível e tratável. No Brasil, o agravo ainda representa um desafio permanente para a vigilância epidemiológica.

De acordo com o Boletim Epidemiológico de Tuberculose 2025, publicado pelo Ministério da Saúde, o país registrou 85.936 casos novos da doença em 2024 e 6.025 mortes em 2023, números que mantêm a tuberculose entre os principais desafios da saúde pública nacional.

O documento também aponta que a doença apresenta maior incidência em contextos marcados pela vulnerabilidade social, aspecto que torna a vacinação neonatal uma medida indispensável para prevenir suas formas mais graves na infância.

Embora a BCG figure entre as vacinas infantis com melhor desempenho histórico, o país registrou oscilações na cobertura vacinal durante e após a pandemia de Covid-19.

Estudos baseados nos dados do Sistema de Informações do Programa Nacional de Imunizações (SI-PNI) indicam recuperação gradual das coberturas, mas ainda com diferenças expressivas entre municípios e estados.

Em Votuporanga, a BCG continua presente nos primeiros dias de vida de centenas de crianças. Entre 1º de janeiro e 30 de junho deste ano, a Prefeitura contabilizou 580 aplicações do imunizante em recém-nascidos, frente às 616 registradas no mesmo período de 2025.

A diferença entre os dois períodos não representa, necessariamente, redução da cobertura vacinal, uma vez que o número de doses acompanha diretamente a quantidade de nascimentos registrados no município.

Ainda assim, o monitoramento permanente dos indicadores permite acompanhar a manutenção do acesso à vacinação logo após o nascimento, etapa considerada estratégica para garantir a proteção das crianças.

Quase cinco décadas após sua incorporação ao calendário nacional, a BCG continua simbolizando um dos compromissos mais duradouros da saúde pública brasileira. A pequena cicatriz que acompanha milhões de pessoas ao longo da vida permanece como uma lembrança visível de que algumas das mais importantes conquistas da medicina cabem em uma única dose aplicada nos primeiros dias de vida.