Certificação abre novos caminhos para a borracha natural brasileira

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Tradicionalmente, a borracha natural brasileira atende principalmente à demanda interna, especialmente da indústria pneumática – Foto: Reprodução

Com 21 anos de atuação na heveicultura, o produtor rural Gilson Pinheiro de Azevedo analisa os impactos das transformações no setor e destaca estratégias para ampliar a competitividade e o acesso a mercados externos.


@caroline_leidiane

A cadeia produtiva da borracha natural passa por um período de transformação no Brasil. Enquanto a entrada crescente de pneus importados, especialmente da China, reduz a participação da indústria nacional no mercado, produtores de seringueira têm buscado alternativas para manter a competitividade e garantir novos canais de comercialização.

Na região de Votuporanga, Cosmorama e Santa Albertina, o produtor rural Gilson Pinheiro de Azevedo acompanha essas mudanças de perto. Com mais de duas décadas de atuação na heveicultura, ele aposta na certificação e na rastreabilidade como ferramentas capazes de abrir circuitos comerciais e agregar valor à produção.

Segundo ele, a certificação FSC (Forest Stewardship Council) representa um diferencial significativo para propriedades que desejam atender às exigências de compradores por vezes mais atentos à origem da matéria-prima.

“Além de vender uma commodity, você passa a comercializar um produto com maior valor agregado. O mercado remunera melhor um produto certificado, onde todo o processo é rastreado”, afirma.

Atualmente, Pinheiro possui 36 hectares de produção própria e também administra cerca de 1.200 hectares de seringais de terceiros por meio de contratos de arrendamento e gestão.

Com 21 anos de atuação na heveicultura, Gilson Pinheiro de Azevedo defende a certificação e a rastreabilidade como caminhos para ampliar as oportunidades de comercialização da borracha natural – Foto: Arquivo Pessoal

Exportação surge como alternativa diante das mudanças no mercado

Historicamente, a maior parte da borracha natural produzida no Brasil é destinada ao mercado interno. Entretanto, o cenário começou a mudar nos últimos anos com o avanço das importações de pneus.

De acordo com o produtor, a redução da fabricação nacional impacta diretamente o consumo de látex nativo, o que torna necessário buscar novos compradores fora do país.

“O objetivo principal não é apenas agregar valor. É garantir o escoamento da produção. Com a entrada dos pneus chineses, a borracha produzida aqui tende a sobrar, então precisamos abrir novas portas para exportação”, explica.

Para atender comércios internacionais, especialmente os países da União Europeia, os produtores precisam cumprir uma série de exigências relacionadas à sustentabilidade e à origem da matéria-prima. Entre elas estão a rastreabilidade da produção e a comprovação de que não há utilização de trabalho infantil, trabalho análogo à escravidão ou áreas associadas ao desmatamento.

Pinheiro avalia que a nova realidade tirou o setor da zona de conforto e acelerou a busca por soluções que antes não eram consideradas prioritárias.

“A preocupação era produzir o máximo possível porque a venda era garantida. Agora, essa dificuldade pode abrir novas possibilidades e trazer uma remuneração melhor por meio de um produto diferenciado”, destaca.

Além dos 36 hectares de área própria, Gilson Pinheiro de Azevedo administra cerca de 1.200 hectares de seringais de terceiros por meio de contratos de arrendamento e gestão – Foto: Arquivo Pessoal

Modelo de parceria transforma trabalhadores em sócios da produção

Outro aspecto que se sobressai na atividade é o sistema de exploração dos seringais. Em vez de uma relação tradicional entre empregador e funcionário, grande parte da produção ocorre por meio de parcerias agrícolas.

Nesse formato, os trabalhadores responsáveis pela sangria das árvores participam diretamente dos resultados do cultivo.

“Eu vejo isso como algo muito interessante porque, sem investir capital, apenas com trabalho e dedicação, a pessoa se torna sócia do negócio”, analisa.

Segundo o produtor, os parceiros costumam receber uma participação equivalente a 40% da produção obtida na área onde atuam. O desafio, para Gilson, é incentivar uma visão empreendedora dentro da atividade.

“O seringueiro precisa entender que ele tem uma empresa. Quanto mais produtivo for o negócio dele, maior será o retorno que ele recebe”, observa.

Um insumo presente em milhares de produtos

Além do setor pneumático, responsável por aproximadamente 80% do consumo mundial de borracha natural, a matéria-prima também está presente em milhares de produtos utilizados no dia a dia, como solados de calçados, peças automotivas, componentes agrícolas e diversos artefatos industriais.

Principal destino da borracha natural no mundo, a indústria de pneus concentra aproximadamente 80% da demanda pela matéria-prima – Foto: Reprodução

Para os produtores brasileiros, a expectativa é que a combinação entre certificação, rastreabilidade e acesso a novos mercados ajude a fortalecer a cadeia produtiva nos próximos anos, criando alternativas para enfrentar os desafios impostos pelas mudanças no cenário global.