Alfabetizar em meio ao caos

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Alberto Martins Cesário, professor e escritor - Foto: Reprodução

Alberto Martins Cesário, professor e escritor

Alfabetizar, hoje, deixou de ser apenas um ato pedagógico para se tornar um exercício diário de resistência. Entre metas que não enxergam pessoas e realidades que não cabem em planilhas, o professor tenta ensinar letras enquanto a vida, do outro lado da carteira, ainda está tentando aprender o básico que é existir com dignidade.

Confesso que ninguém me avisou.

Passei anos acreditando que alfabetizar era, no fundo, uma espécie de engenharia delicada, algo como montar pontes invisíveis entre letras e sentidos, bastava conhecer bem os métodos, organizar sequências didáticas elegantes, respeitar o tempo da criança e pronto, a leitura floresceria, quase como um milagre previsto em cronograma.

Funcionava lindamente no papel, e no papel, aliás, tudo funciona.

O problema é quando o papel encontra a sala de aula às sete e quinze da manhã, abarrotada de crianças, três histórias de fome, duas noites mal dormidas, uma mochila vazia e um silêncio que não é pedagógico, é ausência mesmo.

Alfabetizar, descobri, não começa no caderno, ela começa muito antes, ou pior, às vezes nem começa.

Tem criança que chega sem nunca ter sido escutada com paciência. Sem nunca ter tido alguém que narrasse o mundo em voz alta, ou nunca ter visto um livro que não fosse decorativo ou distante. E aí você, com seu planejamento caprichado, tenta ensinar que “B” com “A” faz “BA”, enquanto a vida dela ainda está tentando entender o que é “pertencer”. 

E não, isso não estava na bibliografia.

A gente aprende, nos cursos, sobre consciência fonológica, hipóteses de escrita, mediação intencional. Tudo certo, tudo necessário, mas ninguém prepara a gente para o menino que segura o lápis como quem segura um objeto estrangeiro, ou para a menina que copia tudo perfeitamente e não lê absolutamente nada.

Ninguém nos conta que, às vezes, o maior avanço do dia não é escrever uma palavra, mas olhar nos olhos.

E, enquanto isso, chegam as planilhas, indicadores, metas. As cobranças que medem a alfabetização como quem mede produtividade industrial, como se aprender a ler fosse algo que se apressa com prazo e gráfico colorido e se cada criança não carregasse um tempo próprio, atravessado por histórias que não cabem em tabela nenhuma.

E então vem o cansaço.

Um cansaço curioso, desses que não aparecem no corpo primeiro, aparecem na esperança onde o professor começa a duvidar não da criança, mas de si mesmo. Revê o planejamento, troca a estratégia, busca um novo curso, um novo método, um novo nome bonito para uma velha angústia e ainda assim, insiste, porque no meio do caos, há pequenos milagres silenciosos.

Uma criança que, depois de semanas, junta duas sílabas e sorri como se tivesse descoberto um segredo do universo ou aquela que pede para levar o livro para casa mesmo sem saber ler, só para “ficar com ele um pouquinho”.

O aluno que finalmente entende que a palavra escrita não é um enigma, mas um convite e é nesses instantes que a gente percebe que alfabetizar não é ensinar código, é ensinar presença, uma presença que costura sentido onde antes havia dispersão.

É oferecer linguagem para quem ainda está tentando nomear o mundo. 

Fico pensando… Talvez o que mais nos desorganize não seja o barulho da sala, nem a indisciplina que às vezes explode sem aviso, mas o silêncio estrutural que atravessa tudo isso, mas um silêncio feito de negligências antigas, de políticas interrompidas, de discursos bonitos que nunca pisaram no chão da escola às sete e quinze. Porque ensinar alguém a ler exige mais do que técnica, exige contexto, continuidade, cuidado e o que temos, muitas vezes, é o contrário disso, descontinuidade, improviso e uma solidão pedagógica que obriga o professor a reinventar, todos os dias, o que já deveria estar garantido há décadas.

Mas ainda assim, no meio dessa engrenagem falha, professores se agacham ao lado da carteira, aponta para uma sílaba, espera, respira junto, insiste. Como quem sabe que aquele pequeno gesto carrega um peso histórico que ninguém ali deveria suportar sozinho.

E no fim, quando a sala esvazia e o quadro ainda guarda restos de palavras pela metade, fica uma pergunta que não aparece nos relatórios, quem sustenta quem nesse processo? 

Porque, em muitos dias, não é só o professor que ensina, é também a criança que o ensina a não desistir e a perceber que aprender a ler não é uma linha de chegada, mas um encontro raro, improvável, quase teimoso, entre alguém que insiste em ensinar e alguém que, apesar de tudo, ainda aceita tentar. 

Talvez seja isso que ainda nos salva, essa teimosia bonita de acreditar que, mesmo em meio ao caos, a palavra pode florescer. Não como milagre previsto em cronograma, mas como conquista humana, lenta, frágil e profundamente revolucionária. 

E talvez seja por isso que dói tanto.

Porque ensinar a ler, hoje, é lutar contra muitas ausências, ausência de tempo, de escuta, de políticas públicas consistentes, de condições dignas de trabalho, de reconhecimento.

 Ainda assim, todos os dias, alguém entra em sala e escreve no quadro, como quem acende uma vela no meio do vento e insiste que aquela chama pode, sim, virar luz. 

Mas me diga, com toda honestidade que um fim de tarde permite em um mundo que já não tem paciência para o tempo da aprendizagem… Será que ainda sabemos o que significa, de verdade, ensinar alguém a ler?