A SOCIEDADE P.P.P.
Quando a sociedade se depara com alguém caído na calçada, bêbado, drogado, normalmente ativa o modo P.P.P.
O primeiro P é o da pena. “Que dó… tão jovem.” Mas essa compaixão costuma durar até o semáforo abrir ou até o vidro escuro do carro subir. É uma pena confortável, que não suja as mãos, compromete a agenda.
O segundo P é a perplexidade. Indigna-se, questiona, aponta o dedo para o governo, para a família, para a igreja. A perplexidade gera discursos inflamados, mas raramente passos concretos.
Então vem o terceiro P: a punição. A mesma sociedade que teve pena e ficou perplexa agora endurece. “Tem que prender.” “Tem que expulsar.” O tom muda, mas o problema continua. Às vezes a punição é justiça; outras vezes é só vingança vestida de moralidade.
Nenhum desses três Ps transforma de verdade.
Pena consola a consciência. Perplexidade alimenta debates. Punição pode ser só uma vingança disfarçada de justiça.
O que transforma é presença. É política pública séria. É família restaurada. É alguém que decide ficar ao lado, não olhar de longe.
Que tal trocar os Ps? Por propósito, proximidade e participação.
Ninguém se recupera sendo apenas observado ou punido, mas quando alguém escolhe caminhar junto.
“Porque tive fome e me destes de comer; tive sede e me destes de beber; era peregrino e me acolhestes.” (Mateus 25,35)
A FOTO DE ONTEM, OU O ESPELHO DE AGORA?
Na música A Lista, de Oswaldo Montenegro, há uma pergunta inquietante: “Onde você se reconhece: na foto passada ou no espelho de agora?”
A foto antiga é gentil. Está congelada num tempo em que o joelho ralado doía menos que o coração partido de hoje, como diz outra música. Ela não mostra as crises, não revela as noites insones.
Já o espelho é sincero. Ele não usa filtro. Mostra marcas que a vida escreveu no rosto, cicatrizes que a foto não capturou. Mas cada marca é uma assinatura da maturidade.
Às vezes dizemos: “Naquela época eu era mais feliz.” Será? Ou éramos apenas mais ingênuos?
A infância tinha pressa. E a pressa costuma roubar a paz.
Hoje talvez você tenha menos fôlego, mas tem mais consciência. Menos impulsos, mas mais profundidade.
A foto mostra quem você foi. O espelho revela quem você se tornou.
Então pergunta honesta não é onde você era mais feliz, mas onde você é mais inteiro. A felicidade de antes era expectativa, hoje tomara que seja a sua realidade.
Não olhe apenas a lisura da pele. Observe a profundidade do olhar. Talvez você não tenha perdido brilho, apenas trocou o brilho da aparência pelo brilho da essência.
“Quando eu era criança, falava como criança, mas, quando me tornei homem, deixei o que era próprio da criança.” (1 Coríntios 13,11)
DEUS CRIA, O MAL COPIA
Você já comprou algo achando que era original e depois descobriu que era réplica?
Tem logo, tem embalagem, parece idêntico, mas não é. Ninguém falsifica nota de 150 reais, porque não existe, falsificam a de 200 porque é verdadeira. Então toda cópia nasce de algo autêntico.
O mal funciona assim. Deus cria o amor. O mal fabrica uma paixão que começa intensa e termina em feridas.
Deus cria a liberdade. O mal vende a ilusão de que liberdade é fazer tudo o que quiser, e depois entrega correntes invisíveis, que prendem.
Deus cria a felicidade. O mal oferece euforia passageira, que deixa ressaca na alma.
Jesus diz que o diabo é o pai da mentira. E mentira bem contada parece moderna, atraente, mas continua sendo falsificação.
Deus chama essa réplica de pecado. pode até parecer bom, mas não tem garantia do Céu.
A pergunta é simples: Você está vivendo o original de Deus ou se conformando com uma cópia barata?
A cópia promete facilidade, mas cobra caro depois.
“Conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará.” (João 8,32)
SE SOFRE MUITO, PELO POUCO QUE FALTA
A gente sofre muito pelo pouco que falta. Transformamos uma ausência pequena numa tempestade, enquanto milagres diários como acordar, passam despercebidos.
Às vezes falta dinheiro. Às vezes falta reconhecimento, sim.
Mas, na maioria das vezes, falta aquilo que idealizamos não aquilo que realmente precisamos.
Você acordou hoje? Então recebeu mais 24 horas de possibilidades.
O problema não está, no pouco que falta, mas na lente que amplia a ausência e diminui a abundância.
O “pouco” inflado pela murmuração pesa tanto que compromete até a saúde. A alma começa a viver em modo escassez, mesmo cheia de provisões.
Mas quando você muda o foco, o que parecia insuficiente se revela suficiente. E o suficiente gera paz.
Gratidão não é negar dificuldades. É reconhecer que elas não são tudo.
O apóstolo São Paulo escreveu algo revolucionário: “Em tudo dai graças.”
Quem aprende a agradecer descobre que aquilo que falta nunca foi maior do que aquilo que já está em suas mãos.
“Em tudo dai graças, porque esta é a vontade de Deus.” (1 Tessalonicenses 5,18)
A LIÇÃO PODE SER ANTES DA CICATRIZ
Existe uma diferença sutil entre inteligência e sabedoria.
O inteligente tropeça, cai, levanta e diz: “Agora eu aprendi.” O sábio observa quem tropeçou, enxerga o buraco e contorna.
Se alguém já colocou a mão no fogo e se queimou, não preciso colocar para comprovar que queima. A lágrima do outro ‘e um aviso suficiente.
Às vezes romantizamos o sofrimento, como se aprender exigisse, obrigatoriamente, sentir na pele, mas nem toda dor é pedagógica algumas são evitáveis.
O inteligente aprende depois da ferida. O sábio aprende antes da cicatriz.
A vida oferece exemplos o tempo todo: casamentos que ruíram por orgulho, amizades perdidas por impulsividade, decisões precipitadas que custaram caro.
A pergunta é: você precisa viver tudo para crer, ou consegue observar e decidir antes?
Sabedoria é humildade prática. É reconhecer que o erro do outro pode ser meu professor.
No fim, o sábio é aquele que decidiu não passar pela dor que o inteligente teoricamente já passou.
“Ensina-nos a contar os nossos dias, para que alcancemos coração sábio.” (Salmo 90,12)
Por: Carlinhos Marques
Presidente Fundador Instituto Novo Sinai, idealizador projeto “Sobriedade Já”
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