SOBRIEDADE JÁ 

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Carlinhos Marques - Presidente Fundador do INSTITUTO NOVO SINAI - Foto: Reprodução

MENOS ORATÓRIA, MAIS “ESCUTATÓRIA”

Sempre recebo propostas com anúncios de cursos de oratória. Falar em público, convencer, argumentar, influenciar. Deve ser até interessante. Há escolas, certificados, técnicas de postura e até treinamento para usar as mãos no momento certo. Agora, imagina se alguém inventasse de abrir um curso de “escutatória”. Acho que fecha na primeira semana. Não por falta de conteúdo, mas por falta de alunos.

A gente prefere falar a ouvir. Responder rápido em vez de escutar inteiro. O mundo virou um grande microfone aberto, onde todos querem ser ouvidos, mas quase ninguém quer ser o ouvido. Escutar dá trabalho. Exige silêncio interior, humildade e coragem para talvez ouvir algo que contrarie nossas certezas.

E aqui vai um detalhe sutil: muita gente fala de Deus, mas escuta pouco a Deus. Sabe versículos de efeito, mas não faz silêncio para deixar a Palavra atravessar. Não está faltando voz. Está faltando ouvido disposto.

Menos oratória. Mais escutatória. A perfeição divina nos criou com uma boca e dois ouvidos. Talvez não seja coincidência, seja instrução, e com um proposito aí.

“Quem tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz.” (Ap 2,7)

ME AVISEI, MAS ACABEI NÃO ME OUVINDO

Eu me avisei, mas acabei não me ouvindo. A consciência sempre fala antes do arrependimento. O problema é que a gente costuma colocar o volume da pressa mais alto. 

Tem aquela sensação discreta: “não vá”, “espere”, “ligue agora”, “peça perdão”. A consciência é coerente. Quem se faz de desentendido somos nós. Ela avisa com antecedência, mas a gente prefere negociar com o próprio erro. 

E aí passam o abraço que não aconteceu, a oportunidade que foi embora, a caridade que ficou para depois, e esse “depois” nunca veio. Penso que o arrependimento tem duas faces: o “por que eu fui?” e o “por que eu não fui?”, e ambos, doem do mesmo jeito. 

Ainda bem que Deus não cancela a gente por não ter escutado a própria consciência. Ele insiste. Repete o aviso. Às vezes permite consequências desagradáveis não para nos punir, mas para nos amadurecer, para nos dar uma segunda chance. Crescer é aprender a ouvir antes que a vida precise gritar. 

Guarda isso, A voz da consciência, que às vezes parece exagero, quase sempre é sabedoria antecipada.

“Hoje, se ouvirdes a sua voz, não endureçais os vossos corações.” (Hb 3,15)

NUNCA JULGUE UMA ÁRVORE PELA ESTAÇÃO DO ANO

Nunca julgue uma árvore pela estação do ano. A gente olha uma árvore sem folhas, sem fruto, talvez até seca, e decreta: acabou. Mas é uma injustiça cortar a árvore sem esperar a primavera.

Árvores não dão fruto o ano inteiro. Pessoas também não. Todos temos nossos invernos emocionais, nossos outonos onde perdemos folhas, planos, forças, ânimo. Julgar alguém pelo momento é como cobrar manga da mangueira em junho. É olhar o agora e chamar de definitivo.

Quantas vezes você foi julgado porque não estava “produzindo”? E quantas vezes fez o mesmo com alguém? Queremos fruto, sombra, resultado, mas raramente respeitamos o processo. Somos duros conosco e com os outros, cobrando flores na estação errada.

Há árvores que parecem improdutivas, mas estão apenas criando raízes mais profundas. E raízes fortes sustentam primaveras surpreendentes.

Bom, eu seu que você entendeu: isso não é só sobre árvores. Então, antes de rotular alguém, veja se não é apenas um inverno passageiro na vida dele. 

“Há um tempo para cada coisa debaixo do céu.” (Ecl 3,1)

O PASSADO EXPLICA, O FUTURO CONVIDA 

A vida é como um livro em três capítulos. O primeiro é o passado. Nele estão os erros, os acertos, as cicatrizes. O passado é retrovisor: útil para entender o caminho, mas perigoso se virar para-brisa. Quem dirige olhando só para trás inevitavelmente perde a direção. 

Perdoar o passado é tirar dele o direito de decidir quem você será. É parar de carregar malas com roupas que já não servem mais. O segundo capítulo é o presente, o único lugar onde a vida realmente acontece. É no agora que respiramos, escolhemos, amamos e recomeçamos. É o chão firme onde Deus caminha conosco.

E o terceiro capítulo é o futuro. Desse capítulo, não exija tantas garantias; exija fé. Fé de que o que você ainda não viveu pode ser maior e melhor do que aquilo que perdeu. Fé de que Deus não escreve finais apressados. O futuro é o capítulo inédito esperando sua coragem.

E não esqueça disso, vida pode até ser parcialmente entendida olhando para trás, mas só é verdadeiramente vivida olhando para frente.

“Esquecendo-me do que fica para trás, lanço-me para o que está diante de mim.” (Fl 3,13)

SEU PROBLEMA HOJE É O MESMO DE ONTEM?

Ter problemas é humano. O perigo é quando eles têm sempre o mesmo nome. Hoje, ontem, mês passado, ano passado, a mesma história, até com os mesmos personagens.

Problemas são como o clima: mudam. Mas quando se repetem demais, talvez já não sejam circunstância, sejam padrão. E padrão revela comportamento. Às vezes não é a vida que está difícil; somos nós insistindo nas mesmas escolhas, reagindo do mesmo jeito, tolerando o que já sabemos que deveria ter limite.

Há quem prometa mudar, mas volte aos mesmos lugares, às mesmas desculpas. Não é falta de capacidade. É resistência ao confronto interior. Crescer dói, mas permanecer igual dói por muito mais tempo, as vezes para sempre.

Se o problema de hoje tem o mesmo nome do de ontem, talvez seja hora de trocar a pergunta. Em vez de “por que isso acontece comigo?”, tentar “o que eu preciso mudar em mim?”.

Enquanto a raiz não muda, os galhos continuam nascendo iguais. 

“Examinai-vos a vós mesmos.” (2Cor 13,5)

Por: Carlinhos Marques 

Presidente Fundador Instituto Novo Sinai, idealizador projeto “Sobriedade Já” 

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