Riso é reza

24
Fundador do ZEROCLoWN, Aldo Hayrton Dezan atua na palhaçaria hospitalar desde 2009 – Foto: Arquivo Pessoal

Há mais de 17 anos, Aldo Hayrton Dezan leva a linguagem da palhaçaria aos hospitais. À frente do ZEROCLoWN, mostra que, em meio aos protocolos e às incertezas da internação, o humor pode transformar a experiência da dor.


@caroline_leidiane

Poucos ambientes evidenciam tanto a fragilidade humana quanto um hospital. Entre consultas, exames, diagnósticos, medicações e procedimentos, a rotina passa a obedecer a protocolos indispensáveis para o tratamento.

Nesse contexto, pacientes, familiares, acompanhantes e amigos convivem diariamente com o receio, as dúvidas, a ansiedade e a expectativa pela recuperação. O ambiente hospitalar tem algo de inóspito. Muita luz branca, pouca cor, ausência de contentamento e diálogos em torno de um mesmo tema: a enfermidade.

Contudo, é em meio a esse turbilhão de sensações frias que surge uma fresta calorosa, capaz de aquecer o âmago dos envolvidos. É um tipo de cuidado que não aparece em prescrições médicas e não pode ser aferido por exames laboratoriais. Ele acontece do encontro entre a dor e o humor.

O acidente estético provocado pelo contraste que o palhaço estabelece ao adentrar ambientes hospitalares transcende as cores vibrantes e os objetos inusitados que compõem esse personagem. Ele representa a vida em um espaço frequentemente marcado pelo adoecimento.

Muito distante da figura do artista que entra em cena apenas para arrancar gargalhadas, o palhaço que atua dentro de hospitais utiliza a escuta, a improvisação e a sensibilidade para estabelecer vínculos. O humor permanece presente, mas deixa de ser um objetivo para tornar-se um caminho capaz de aliviar tensões, fortalecer relações e oferecer novas possibilidades de enfrentamento da internação.

As intervenções do ZEROCLoWN levam a linguagem da palhaçaria hospitalar à Santa Casa de Votuporanga e a outras quatro unidades de saúde de São José do Rio Preto – Foto: Arquivo Pessoal

ZEROCLoWN e a arte de humanizar ambientes

A ZEROCLoWN nasceu em 2020, mas a atuação em humanização hospitalar na região começou em 2009 com o projeto Atos e Palhaços. Hoje, o grupo realiza intervenções na Santa Casa de Votuporanga e outras quatro unidades de saúde de São José do Rio Preto. Ao longo dessa trajetória, mais de 226 mil pessoas foram atendidas em hospitais, enquanto aproximadamente mil são impactadas diretamente todas as semanas.

Embora os números revelem a dimensão do projeto, eles pouco traduzem aquilo que acontece quando um palhaço atravessa a porta de um quarto hospitalar. Cada encontro é construído a partir da realidade de quem está ali. Não há roteiro pronto nem uma sequência de piadas.

Antes de qualquer intervenção existe uma observação cuidadosa do ambiente, da condição clínica do paciente, do estado emocional da família e até da disposição da equipe de saúde. Essa leitura determina se haverá música, brincadeiras, silêncio ou simplesmente companhia.

De acordo com Aldo Hayrton Dezan, fundador e coordenador do ZEROCLoWN, compreender essa diferença é fundamental para entender a essência da palhaçaria hospitalar.

“Nosso objetivo não é apenas fazer rir. O riso é uma consequência importante, mas o foco principal está na escuta, na conexão humana e no acolhimento emocional. No ambiente hospitalar, a sensibilidade é a principal ferramenta de trabalho. Ela orienta cada abordagem, cada gesto e cada escolha que fazemos durante a intervenção”, explica.

Essa concepção acompanha Aldo desde antes da criação do grupo. A aproximação com a linguagem do palhaço aconteceu após um acidente de trabalho que o levou a enfrentar um longo período de recuperação.

Foi durante esse processo que conheceu a iniciativa artística em hospitais e percebeu que o humor podia coexistir com a dor sem minimizá-la. Ao contrário, poderia oferecer novas formas de atravessá-la. Convencido deste fato, em 2005 ele iniciou os primeiros estudos em linguagem do palhaço circense.

A experiência acumulada ao longo de duas décadas de estudos e de quase 17 anos de visitas hospitalares permitiu a Aldo compreender que, independentemente da idade ou do diagnóstico, havia um aspecto recorrente entre as pessoas internadas.

A perda do controle sobre a própria rotina faz com que horários para alimentação, medicamentos, exames e visitas sejam determinados por outras pessoas. Para crianças, essa sensação costuma ser ainda mais intensa.

É especialmente nesse ponto que a linguagem do palhaço promove uma ruptura. Enquanto médicos, enfermeiros e familiares conduzem praticamente todas as decisões, o palhaço escolhe ocupar deliberadamente o lugar de quem não sabe. Por isso, deixa-se conduzir pelos comandos do hospitalizado.

Segundo Dezan, esse jogo inversivo devolve ao paciente algo frequentemente perdido durante a internação: o protagonismo.

“No fundo, o palhaço perde para que o paciente possa ganhar algo muito valioso: a oportunidade de se sentir capaz, ouvido e importante. E quando isso acontece, todos ganham (…) Mais do que provocar risadas, essa inversão de papéis devolve humanidade a um ambiente onde, muitas vezes, a doença acaba ocupando todo o espaço. Por alguns instantes, a criança deixa de ser paciente e volta a ser simplesmente criança”, elucida ele.

Essa construção explica por que o palhaço costuma parodiar figuras de autoridade presentes no cotidiano da internação. Jalecos, estetoscópios e procedimentos são ressignificados pelo humor, nunca para ridicularizar o trabalho das equipes médicas, mas para aliviar o peso simbólico que esses elementos carregam para quem está em tratamento.

“Ao brincar com a figura do médico ou com situações do cotidiano do hospital, criamos um efeito cômico que desperta o riso e reduz as tensões. Esse momento de descontração favorece a produção de substâncias associadas ao bem-estar, diminui o estresse e a ansiedade e pode contribuir para uma melhor aceitação do tratamento”, observa Aldo.

É no processo de consolidação dessa relação que paciente e palhaço encontram um ponto de identificação: ambos estão distantes de suas origens.

“Esse encontro desperta curiosidade e cria uma conexão imediata. O paciente percebe que aquele personagem também está ‘fora do lugar’ e, de algum modo, compartilha com ele uma experiência diferente da rotina hospitalar. É como se ambos fossem visitantes em um ambiente que exige regras, protocolos e seriedade”, comenta.

Esses manejos perceptivos explicam por que o trabalho desenvolvido pelo ZEROCLoWN ultrapassa a ideia de entretenimento. O humor não procura apagar a realidade da doença nem fazer com que pacientes esqueçam a internação. A proposta é outra: criar um espaço onde ainda seja possível experimentar afeto, autonomia e pertencimento, mesmo em um local marcado por quadros clínicos.

Os efeitos desse encontro são percebidos para além dos quartos de internação. Familiares e acompanhantes desfrutam de um breve intervalo em meio à tensão do tratamento, enquanto profissionais de saúde observam mudanças no ambiente e na forma como pacientes passam a enfrentar procedimentos hospitalares.

Essa transformação, no entanto, não acontece por acaso. Ela é resultado de anos de estudo da linguagem clown para compreender que humor exige responsabilidade, sobretudo em espaços onde o sofrimento é diário.

Dezan cita frequentemente o diretor e pesquisador francês Philippe Gaulier para explicar essa visão. Segundo ele, pessoas excessivamente sérias podem tornar-se perigosas porque a seriedade funciona como uma armadura que afasta, protege e isola. O palhaço, por sua vez, faz o movimento contrário: abandona essa proteção para permitir-se suscetível ao improviso.

“Também há um aspecto muito significativo que se revela na continuidade. Em casos de internações prolongadas, as crianças passam a reconhecer e esperar pela presença do palhaço. A regularidade das visitas cria vínculo e expectativa positiva”, destaca.

Aldo Hayrton Dezan e a Profa. Ma. Caciane Dallemole Souza durante a oficina ‘Sorrisoterapeutas: o Palhaço na Saúde’, promovida pelo curso de Medicina da Unifev para capacitação de novos integrantes do projeto – Foto: Assessoria/Unifev

Oficinas para ampliar o alcance do riso

À medida que o grupo consolidava sua experiência, surgiu também o desejo de compartilhar conhecimentos com outras iniciativas de palhaçaria hospitalar.

Hoje, o ZEROCLoWN oferece oficinas, capacitações e rodas de conversa presenciais e gratuitas para grupos da região, como Sorrisoterapeutas, da Unifev, Trupe das Amoras e o Eis-me Aqui, da Famerp.

“Esses encontros também representam uma oportunidade de aprendizado mútuo. Compartilhamos nossa experiência, mas também aprendemos com as diferentes realidades, desafios e soluções encontrados por outros grupos. É uma troca constante que fortalece toda a rede de palhaçaria hospitalar e amplia o alcance dessa arte, que transforma, acolhe e humaniza”, relata Aldo.

O trabalho desenvolvido pelo ZEROCLoWN também extrapola as visitas semanais aos hospitais. Ao longo do ano, a equipe participa de campanhas de conscientização, ações em datas comemorativas, eventos institucionais e projetos sociais voltados a diferentes públicos.

Essa expansão só é possível graças ao financiamento obtido por meio da Lei Federal de Incentivo à Cultura. Diferentemente de espetáculos tradicionais, a palhaçaria hospitalar não comercializa ingressos.

O apoio de empresas permite manter as intervenções nos hospitais, promover atividades formativas a outros palhaços, participar de campanhas de humanização e realizar projetos voltados à comunidade.

“Outro benefício é a visibilidade institucional gerada espontaneamente. As marcas patrocinadoras estão presentes em ações que frequentemente recebem cobertura da imprensa, com divulgação em jornais, programas de TV e mídias digitais, fortalecendo sua imagem e associando-a à responsabilidade social”, salienta Dezan acerca do apoio ser uma via de mão dupla.

Ao olhar para a trajetória construída desde 2009, Aldo evita associar o sucesso do projeto apenas à quantidade de atendimentos ou às milhares de pessoas alcançadas ao longo dos anos.

Para ele, os resultados mais importantes permanecem invisíveis aos indicadores numéricos. Estão presentes nos vínculos construídos, na confiança conquistada e na lembrança deixada em quem encontrou, ainda que por alguns minutos, momentos de alívio.

“Se houvesse mais palhaços no mundo, haveria menos conflitos. O riso nos iguala. Nos conecta com algo muito maior do que nós. Riso é reza”, conclui Aldo.

A afirmação não se refere à religião nem pretende estabelecer paralelos entre fé e ciência. Ela sintetiza a convicção de que o cuidado também se manifesta em gestos genuínos, capazes de fortalecer emocionalmente quem enfrenta alguma enfermidade.

Se a oração representa, para muitas pessoas, uma forma de amparo e esperança, o riso também pode oferecer um instante atenuante e afetivo, lembrando que, por trás dos diagnósticos, continuam existindo histórias, desejos e relações humanas.

É nesse contraste que reside a força da palhaçaria hospitalar. Em um ambiente onde quase tudo remete à gravidade da vida, o palhaço surge para lembrar que dor e humor podem coexistir. Assim, o cuidado ultrapassa os limites da medicina e alcança uma dimensão em que a arte também se torna parte da cura, não da doença, mas da experiência humana de viver apesar dela.