Pandemia agrava a situação de fome no Brasil

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Se nada for feito, voltamos ao Mapa da Fome

Andrea Anciães

 

A crise causada pela pandemia do novo coronavírus pode fazer com que o mundo retroceda 20 anos no enfrentamento à fome, avalia o ex-diretor geral da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), José Graziano.

Até o fim de 2020, o número de mortes relacionadas à fome no mundo chegará a 37 mil por dia

 

A pandemia do novo coronavírus vem aumentando em mais de 80% o número de pessoas com fome em todo o planeta. O Brasil é um dos países mais ameaçados. A crise alimentar, que já era grave por causa de conflitos, mudanças climáticas e desigualdades sociais, deve piorar ainda mais quando as parcelas desse auxílio acabarem.

Estudos calculam que 12 mil pessoas podem morrer por dia por causa das complicações geradas pela falta de alimentos. Número maior do que as vítimas da Covid.

Nos últimos meses, o auxílio emergencial  melhorou a situação de muitas famílias, só que infelizmente esse auxílio não será eterno. Quando as parcelas desse auxílio acabarem, teremos um cenário dificílimo, mesmo porque garantir acesso à alimentos não é uma preocupação do atual presidente Jair Bolsonaro.

No Brasil, milhões de trabalhadores em situação de pobreza, sem recursos para se protegerem durante o necessário período de distanciamento social, perderam sua renda devido à pandemia.

Não podemos ser negligentes e não tomar todas as medidas para prevenir a escalada da fome no país, durante e depois que a epidemia passar.

As mulheres são maioria no grupo de trabalhadores informais, que no Brasil representa cerca de 40% da população economicamente ativa. E por isso estão sofrendo as maiores consequências econômicas da pandemia. Não adianta fechar os olhos e “fingir” que o problema da fome não existe…o fato é que o problema existe sim e além de preocupante precisa ser enfrentado com seriedade.

Dados do IBGE mostram que quatro em cada dez famílias hoje no país vivenciam “insegurança alimentar”, sendo que muitos vivem em escassez grave!

Pesquisas mostram que a alta dos produtos alimentares vem acompanhando a pandemia da Covid 19, deixando um rastro de desespero para muitas famílias.

A grande maioria das pessoas está comendo “muito pior”, hoje às pessoas só vão aos supermercados quando alguma coisa acaba, aquela velha conhecida “compra de mês” já não existe mais…isso se deve ao aumento dos preços e aos altos índices de desempregados no país.

O Brasil voltou ao Mapa da Fome da ONU, no qual estão os países onde mais de 5% da população ingere menos calorias do que o recomendável. Devido às desigualdades sociais o retorno da fome tornou-se inevitável!

Graciliano Ramos, escritor da segunda fase no Modernismo brasileiro, retratou, em sua famosa obra Vidas Secas, o quadro da fome e miséria.

De maneira análoga, no Brasil de hoje essas “injustiças sociais” são uma realidade, mostrando um cenário cada vez mais comprometido.

Notem que, a origem da desigualdade econômica no Brasil remonta desde o período colonial, no qual a desmedida concentração fundiária e de renda por parte da elite, bem como o legado escravista, consolidaram a hierarquização dos indivíduos. Como consequência, vai se perpetuando à lógica excludente da insegurança alimentar no país, no qual uma grande parcela da sociedade é vítima da má distribuição de renda, terras e não possui acesso à alimentação.

Vale aqui ressaltar que os direitos básicos dos cidadãos brasileiros e estrangeiros residentes no país são reconhecidos pela Constituição Federal, bem como os deveres. Contudo, o aspecto prático desses princípios legais encontram-se muito distantes de sua efetivação, haja vista que a insegurança alimentar e a fome ainda persistem na sociedade brasileira.

Cabe à mídia, em parceria com ONGs, combater o avanço da fome por meio de ações sociais de conscientização a fim de erradicar as raízes do problema e evitar seus efeitos juntamente com a participação efetiva do Governo Federal objetivando o cumprimento dos princípios constitucionais tornando a nação mais justa e solidária.

Abaixo deixo aqui para todos essa famosa frase de Gandhi para reflexão:

“Cada dia a natureza produz o suficiente para nossa carência. Se cada um tomasse o que lhe fosse necessário, não havia pobreza no mundo e ninguém morreria de fome.”

(Mahatma Gandhi)