
Professora da Unifev, Kally E. G. de Lima, esclarece dúvidas sobre fatores de risco, mamografia, alterações nas mamas e avanços no diagnóstico e tratamento da doença.
O câncer de mama está entre os principais desafios de saúde pública no Brasil. Embora o Outubro Rosa amplie a discussão sobre a importância da mamografia e do acompanhamento médico, ainda existem dúvidas sobre os fatores de risco, os sinais de alerta e as medidas que podem contribuir para reduzir as chances de desenvolver a doença.
De acordo com o Instituto Nacional de Câncer (Inca), são estimados 78.610 novos casos de câncer de mama feminina por ano no Brasil durante o triênio 2026 a 2028. O número corresponde a um risco estimado de 71,57 casos para cada 100 mil mulheres. Excluídos os tumores de pele não melanoma, esse é o tipo de câncer mais incidente entre as brasileiras.
Para a docente da Medicina Unifev, Profa. Esp. Kally E. G. de Lima, a conscientização precisa ir além da realização de exames. Conhecer o próprio corpo, identificar mudanças e compreender as diferenças entre prevenção, rastreamento e diagnóstico precoce são atitudes importantes para o cuidado com a saúde.
Prevenção, rastreamento e diagnóstico precoce: entenda as diferenças
Um dos equívocos mais comuns é acreditar que a mamografia previne o câncer de mama. Na realidade, o exame é utilizado para identificar possíveis alterações antes mesmo do aparecimento de sintomas, aumentando as possibilidades de diagnóstico em fases iniciais. “A mamografia não impede o surgimento da doença; ela serve para descobri-la o mais cedo possível”, explicou a professora.
A prevenção envolve medidas que contribuem para reduzir o risco de desenvolvimento do câncer, como manter um peso saudável, praticar atividade física regularmente e evitar o consumo de bebidas alcoólicas. Essas atitudes não eliminam completamente a possibilidade de desenvolver a doença, já que existem fatores biológicos e hereditários que também influenciam o risco.
O rastreamento, por sua vez, corresponde à realização de exames em pessoas sem sinais ou sintomas, conforme as recomendações de saúde. Já o diagnóstico precoce depende do reconhecimento de alterações suspeitas e da investigação médica em tempo oportuno.
Por isso, mesmo quem realizou uma mamografia recentemente deve procurar atendimento caso perceba alguma mudança persistente nas mamas. Um exame anterior sem alterações não descarta a necessidade de investigar novos sintomas.
Idade indicada
A idade para iniciar o rastreamento depende das diretrizes adotadas e das características individuais de cada mulher. No Sistema Único de Saúde (SUS), a recomendação populacional atual é realizar mamografia a cada dois anos entre 50 e 74 anos, mesmo na ausência de sintomas.
A partir dos 40 anos, mulheres sem sinais suspeitos também podem ter acesso ao exame na rede pública, mediante orientação profissional sobre os benefícios e os possíveis riscos. Essa possibilidade não significa que todas devam realizar mamografias anuais nessa faixa etária.
As associações médicas, como a Sociedade Brasileira de Mastologia, defendem recomendações de rastreamento que podem diferir das diretrizes populacionais do Ministério da Saúde. Por isso, a periodicidade deve ser discutida com o profissional responsável pelo acompanhamento da paciente.
Mulheres com histórico familiar relevante ou alterações genéticas associadas ao câncer, como mutações nos genes BRCA1 e BRCA2, podem precisar de acompanhamento diferenciado, iniciado mais cedo e com exames complementares. A indicação deve considerar o histórico individual e familiar, preferencialmente com avaliação especializada.
Embora a incidência aumente com a idade, mulheres com menos de 40 anos também podem desenvolver câncer de mama. Nessa faixa etária, a ausência de exames de rastreamento de rotina e a possibilidade de confundir alterações suspeitas com mudanças hormonais podem contribuir para o atraso na investigação.
Segundo Kally, o histórico familiar merece atenção especial. Casos de câncer de mama em parentes próximos, principalmente em idades jovens, câncer de ovário na família ou câncer de mama em homens podem indicar a necessidade de avaliação individualizada.
Entre os sinais que exigem investigação estão nódulos endurecidos, alterações no formato da mama, retração do mamilo, vermelhidão persistente, mudanças na textura da pele e saída espontânea de secreção pelo mamilo. O aparecimento de nódulos nas axilas também merece avaliação. Esses sinais não significam necessariamente a presença de câncer, mas precisam ser investigados para que a causa seja identificada.
Mamas densas podem dificultar a identificação de tumores
Outro aspecto que nem sempre recebe a atenção necessária nas campanhas é a densidade mamária. As mamas são compostas por diferentes proporções de tecido glandular, tecido fibroso e gordura. Quando há maior quantidade de tecido fibroglandular, a mama é considerada densa.
Na mamografia, tanto o tecido denso quanto as possíveis lesões aparecem em tons claros, o que pode dificultar a visualização de alguns tumores.
A necessidade de exames complementares, como ultrassonografia ou ressonância magnética, depende da avaliação clínica, do grau de risco e das características encontradas nos exames anteriores. Nem toda mulher com mamas densas precisa realizar todos esses procedimentos.
A orientação é conversar com o médico sobre o resultado da mamografia e verificar se há necessidade de investigação adicional.
Autoexame dá lugar ao conhecimento das próprias mamas
Durante muitos anos, campanhas de conscientização enfatizaram o autoexame mensal, realizado com uma técnica específica e em uma data determinada. Atualmente, a orientação prioriza a atenção às mudanças nas mamas no cotidiano, sem substituir o acompanhamento médico ou os exames indicados para cada faixa etária.
A mulher pode observar as mamas durante o banho, ao se vestir ou em outros momentos da rotina. O objetivo é reconhecer as características habituais do próprio corpo e perceber alterações que não existiam anteriormente.
A professora ressalta que a identificação de um nódulo ou de qualquer outra mudança persistente deve levar à procura por atendimento, sem esperar pela próxima mamografia.
Essa recomendação também vale para quem está grávida ou amamentando. Nesse período, as alterações hormonais modificam o volume e a consistência das mamas, e condições benignas, como obstruções dos ductos e inflamações, podem provocar nódulos. Ainda assim, não se deve presumir que toda alteração seja consequência da gestação ou da lactação.
Quando um nódulo persiste ou apresenta características suspeitas, é importante procurar avaliação médica.
Fatores de risco: o que pode ser modificado?
O câncer de mama não possui uma causa única. O risco resulta da combinação de fatores relacionados à idade, à genética, à história hormonal e reprodutiva e aos hábitos de vida.
Entre os fatores que não podem ser modificados estão o envelhecimento, o histórico familiar, determinadas mutações genéticas e algumas características da história reprodutiva. Ter esses fatores não significa que a mulher necessariamente desenvolverá a doença, mas pode indicar a necessidade de acompanhamento específico.
Por outro lado, alguns comportamentos estão associados ao aumento do risco e podem ser modificados. Entre eles estão o consumo de bebidas alcoólicas, o sedentarismo e o excesso de gordura corporal, especialmente após a menopausa. “Controlar o peso, fazer exercícios físicos regularmente e evitar bebidas alcoólicas são medidas importantes para reduzir o risco”, destaca Kally.
Isso não significa que a alimentação, isoladamente, impeça o surgimento do câncer. A recomendação é manter hábitos saudáveis de maneira consistente, sem recorrer a dietas restritivas ou suplementos com a promessa de prevenir a doença.
O uso de anticoncepcionais hormonais e de terapia de reposição hormonal na menopausa também deve ser discutido com um profissional de saúde. Os efeitos sobre o risco variam conforme o tipo de hormônio, o tempo de uso e as características individuais. A decisão deve considerar os benefícios e os possíveis riscos, sem interrupções ou mudanças de tratamento por conta própria.
Amamentação e câncer de mama
A amamentação está associada à redução do risco de câncer de mama. As evidências indicam que a proteção aumenta conforme o tempo total de amamentação acumulado ao longo da vida.
Entre as explicações estudadas estão as mudanças hormonais durante a lactação e os processos de diferenciação das células mamárias. Esses mecanismos ajudam a compreender a associação observada nas pesquisas, embora não permitam garantir proteção absoluta.
A ausência de filhos ou a primeira gestação em idade mais avançada também pode estar associada a diferenças no risco. Entretanto, esses fatores não devem ser interpretados como escolhas individuais que determinam o aparecimento da doença.
O mais importante é reconhecer que existem diferentes fatores envolvidos e que nenhuma mulher deve ser responsabilizada por desenvolver câncer de mama.
Avanços no diagnóstico e no tratamento
A evolução da oncologia tem permitido classificar os tumores de mama com maior precisão e selecionar tratamentos de acordo com suas características biológicas.
No tratamento, as opções variam conforme o tipo e o estágio da doença e podem incluir cirurgia, radioterapia, quimioterapia, hormonioterapia, terapias-alvo e imunoterapia, em situações específicas.
O diagnóstico em fases iniciais, contudo, pode ampliar as possibilidades terapêuticas e favorecer melhores resultados. Por isso, o acesso oportuno aos exames, à confirmação diagnóstica e ao tratamento é parte essencial do enfrentamento da doença.
Onde buscar orientação?
Mulheres que estão há anos sem acompanhamento ou que nunca realizaram mamografia podem procurar a Unidade Básica de Saúde (UBS) de referência do bairro. A equipe de saúde poderá avaliar o histórico, orientar sobre os cuidados necessários e encaminhar para exames quando houver indicação.
No SUS, a mamografia pode ser utilizada tanto no rastreamento quanto na investigação de sintomas. Se houver alterações suspeitas, a paciente deve informar os sinais à equipe de saúde para que a investigação seja conduzida de acordo com a necessidade clínica.
Quem possui convênio médico também pode agendar uma consulta com ginecologista ou mastologista para avaliar o histórico pessoal e familiar e atualizar o acompanhamento.
Mais do que concentrar a atenção em um único mês, o Outubro Rosa reforça a importância de manter o cuidado ao longo do ano. Informação confiável, atenção aos sinais do corpo e acesso aos serviços de saúde são medidas fundamentais para ampliar as possibilidades de diagnóstico precoce e tratamento adequado.




