Alberto Martins Cesário, professor e escritor
Hoje eu voltei para casa mais cansado do que de costume.
Não pelo conteúdo, esse, a gente finge que dá conta, mas pelas entrelinhas.
Porque há dias em que ensinar é exatamente isso, ler o que não foi escrito.
Na última carteira, ao lado da janela, ela estava. Como sempre, corpo presente, mundo à parte.
Enquanto eu explicava sílabas simples para uma turma que já nasce atravessada por tantas complexidades, ela desenhava com canetinha na folha de sulfite, desenhos coloridos, cheios de histórias que só ela parecia entender.
Um gesto repetido todos os dias.
Chamei pelo nome.
Nada.
Aproximei-me.
Nada.
Esperei, foi então que aconteceu o milagre silencioso que não entra em relatório pedagógico.
Ela me olhou.
E quem nunca ensinou um aluno autista talvez não compreenda o peso desse verbo.
Olhar, ali, não era distração, era encontro.
Como se, por um segundo, duas línguas estrangeiras tivessem se compreendido sem tradutor.
Ser professor, às vezes, é isso, aprender a falar através do olhar e compreender através do silêncio.
Mas não romantizemos.
A sala de aula não é poema, embora, às vezes, rime com caos.
Enquanto eu celebrava aquele breve contato visual como quem descobre o fogo pela primeira vez, alguém no fundo gritava, outro reclamava porque esqueceu o caderno, e a coordenação me lembrava, por mensagem, que os índices de leitura precisam subir.
Eles sempre precisam subir.
A teoria diz que devemos garantir inclusão, mas a prática pergunta… com que tempo? Com que estrutura? Com que saúde emocional?
Porque, veja bem, ensinar sílabas já é uma travessia, ensinar sentidos é atravessar um oceano, mas ensinar alguém que percebe o mundo por outras janelas exige que a gente reconstrua a própria casa por dentro.
Outro dia ouvi que assuntos difíceis treinam a mente, faz sentido.
Mas ninguém avisa que pessoas difíceis, ou melhor, pessoas que o mundo ainda não aprendeu a entender, treinam o coração.
E tempos difíceis… ah, esses treinam o espírito até ele aprender a respirar debaixo d’água.
Foi então que percebi que aquela aluna não era difícil. A dificuldade estava em um contexto que insiste em caber apenas dentro de palavras.
Ela me ensinou, todos os dias, que comunicação não é som, é presença, que a linguagem não é regra, é ponte e que o silêncio, quando escutado com respeito, grita verdades que nenhum livro didático ousou imprimir.
Mas há dias em que eu falho, todos falhamos, somos humanos e temos limitações e há momentos em que me irrito, em que não compreendo, em que me sinto despreparado, pequeno, quase impotente diante de um universo que não aprendi na faculdade.
Porque lá, entre teorias e autores, ninguém me ensinou a decifrar o caminhar inquieto de um lado para o outro, o balançar de uma mão, o desvio de um olhar, o peso de um silêncio.
E, ainda assim, eu volto no dia seguinte, sempre voltei. Talvez porque, no fundo, ensinar nunca foi sobre dar respostas, mas sempre foi sobre permanecer.
Descobri, com ela, que a criança é um espelho, não do que ela é, mas do que o ambiente permite que ela seja.
Quando a sala grita, ela se fecha, quando alguém acolhe, ela floresce e assim foi se desenvolvendo, aprendendo e ensinando.
E isso diz muito mais sobre nós do que sobre ela.
Se mudarmos o entorno, talvez salvemos não apenas a aprendizagem, mas a própria infância.
E quantas infâncias estão por um fio, esperando menos método e mais humanidade?
A escola diz que precisa ensinar conteúdo, mas, no silêncio daquele olhar, eu aprendi outra coisa.
Há salas que precisam, antes de tudo, contar histórias de amor, um amor que espera, que insiste, que aprende a escutar o que nunca foi dito.
Hoje ela me olhou de novo, e por dois segundos inteiros… Disse algumas palavras, me abraçou e sorriu.
Desde então, não parou de sorrir, e por um instante, tive a impressão de que quem estava sendo alfabetizado… era eu.
Agora me diga, com a sinceridade de quem também anda cansado, será que estamos ensinando as crianças a ler o mundo ou ainda não aprendemos a escutá-las quando elas decidem falar em silêncio?




